Coronavírus: centros de saúde organizam-se e terão serviços específicos para doentes de covid-19

Portugal registava nesta quinta-feira 785 casos positivos e três mortes, de acordo com o relatório emitido pela Direcção-Geral da Saúde.

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Ines Fernandes

Os centros de saúde vão criar circuitos e dedicar zonas específicas para atender casos suspeitos e doentes de covid-19. Portugal registava nesta quinta-feira 785 casos positivos e três mortes, de acordo com o relatório emitido pela Direcção-Geral da Saúde (DGS). Apenas 98 pacientes estavam internados, 20 das quais nos cuidados intensivos. Durante a tarde, o presidente da Câmara de Ovar noticiou a morte de uma idosa, que é o quarto óbito provocado pelo novo coronavírus.

“Estamos a subir a curva e, nesta fase, vamos mudar a forma de atendimento”, disse a directora-geral da Saúde em conferência de imprensa. Graça Freitas explicou que se vai passar do modelo em que os hospitais de referência recebiam a maior parte dos doentes para um em que as pessoas, por terem sintomas ligeiros a moderados – espera-se que 80% dos infectados estejam neste grupo –, são acompanhadas em casa pelos seus médicos ou enfermeiros de família. Se houver um agravamento do estado de saúde, irão para uma unidade de saúde.

E, à semelhança do que os hospitais já estão a fazer, também os centros de saúde se estão a preparar para esta nova fase. “Temos praticamente toda a rede hospital pronta para receber doentes, o que significa criar circuitos hospitalares divididos em dois grandes grupos: os doentes sem suspeita e os doentes com suspeita de infecção. Também os centros de saúde estão preparar as suas áreas dedicadas, para que os doentes não se juntem e se contagiem”, explicou Graça Freitas.

A lógica do processo, explicou ao PÚBLICO o presidente da Associação dos Médicos de Família, é que o contacto primordial seja sempre a linha SNS24. “É a linha que orienta os doentes. Se disser que ficam em casa, a linha vai accionar a respectiva unidade de saúde. Mesmo os que não têm médico de família vão ser inscritos numa unidade de saúde”, explicou Rui Nogueira.

O que está a ser preparado, disse, são circuitos e serviços específicos dentro dos centros de saúde para onde os suspeitos de covid são encaminhados para fazer a recolher de material biológico para a realização do teste. “Tem de haver uma porta para o exterior e um sítio preparado para acolher só estes doentes e todos, ou quase todos, têm de fazer o teste. É preciso uma sala de espera e dois gabinetes médicos”, exemplificou. A espera pelo resultado da análise será feita em isolamento na sua casa e será depois o centro de saúde a contactar para dar a informação.

Laboratório pode “ir a casa"

Na opinião de Rui Nogueira, a linha a SNS24 poderia dar a indicação de uma hora em específico para a deslocalização ao centro de saúde ou dizer para aguardar o contacto deste de forma a evitar maior concentração de pessoas. Numa conferência de imprensa anterior, a ministra da Saúde disse que também estava a ser estudada a possibilidade de o laboratório poder ir a casa de algumas pessoas para colheita do material para análise.

“Temos de acompanhar estes doentes nas diferentes fases: primeiro, quando ainda estão a aguardar o resultado do teste e depois, se o teste for positivo, acompanhamos uma ou duas vezes por dia telefonicamente, ou mais se for preciso telefonar de novo. Haverá um médico ou enfermeira da unidade que vai estar de atendimento ao telefone para estes casos. A partir de determinada altura cada médico vai seguir os seus doentes”, explicou ainda Rui Nogueira.

“Este sistema está a ser montado, mas temos de ser céleres, pois a epidemia está a fazer a sua caminhada, com aumentos ainda relativamente contidos e com poucos casos”, considerou o presidente da Associação dos Médicos de Família. A norma com todas estas orientações, e que deverá indicar o número de centros de saúde com serviços específicos para atendimento de doentes de covid-19, deverá ser publicada pela Direcção-Geral da Saúde muito em breve.

Sobre os equipamentos de protecção individual, cuja falta tem sido muito denunciada pelos sindicatos e ordens dos médicos e de enfermagem, Rui Nogueira disse que já foram entregues e distribuídos. “Mas a necessidade de reposição é grande e estamos apreensivos porque dentro do centro de saúde não há um stock”, diz, salientando que “vai ser necessário ter todo esse material concentrado nos locais dedicados ao atendimento destes doentes”.

Reduzir consultas

Enquanto os circuitos separados ainda não estão todos criados, os médicos de família estão a desmarcar a maior parte das consultas regulares e todos os doentes que vão aos centros de saúde são identificados à entrada para não haver riscos de eventuais contágios. “A mensagem principal é diminuir os contactos sociais”, salientou o médico.

Por isso, sempre que necessário, os contactos com os pacientes regulares é feito por telefone — quando os contactos não estão actualizados recorrem aos contactos de familiares — e sempre que é essencial a ida ao centro de saúde, “o que estamos a fazer, por uma questão de segurança, é marcar uma hora muito precisa ao doente para não termos doentes na sala de espera”. “Estamos a fazer marcações com meia hora de intervalo e a avisar para que, na medida do possível, não venham com acompanhantes, para diminuir a possibilidade de contacto”, rematou Rui Nogueira.