Entrevista

Ana Bravo: Comer “deve ser um acto de amor por nós próprios”

No seu sétimo livro, a nutricionista defende um “regresso às origens”, onde comer era um “prazer” e não “mais uma tarefa”.

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Ana Bravo é nutricionista há 16 anos e autora de sete livros DR

Da infância em Trás-os-Montes, Ana Bravo guarda memórias do “cheiro a hortelã” e da “verdadeira comida”, que vem da “terra para o prato”. Há 16 anos que guia a nutrição pelo seu coração, sempre à procura do equilíbrio. Esta sexta-feira, dia 20 de Março às 17h, apresenta, em directo no Instagram, o seu sétimo livro Nutrição com Coração, editado pela Arena. O evento digital está integrado na iniciativa #FicoemCasaaLer do grupo editorial Penguin Random House.

Em entrevista ao PÚBLICO, Ana Bravo descreve o novo livro como “um salto de coragem”. Não quis escrever mais um livro de receitas, mas sim partilhar a sua história de superação e equilíbrio interior. A nutricionista acredita que a vida saudável passa por muito mais do que uma boa alimentação. Afinal, comer “deve ser um acto de amor por nós próprios”. 

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"Nutrição com Coração" é editado pela Arena e custa 18,80 euros DR

No blogue Nutrição com Coração partilha receitas saudáveis e dicas para uma vida mais equilibrada. Colabora também com o Jornal de Notícias num canal de nutrição. Se não a encontrarem por aí, ou no Instagram onde reúne 146 mil seguidores, certamente estará no campo, onde é mais feliz. 

Quem é a Ana Bravo sem bata?
A Ana é uma pessoa muito simples. Aquilo que mais me faz vibrar é mergulhar na natureza. Eu sou do campo, da floresta, do rio, do cheiro a hortelã. Aquilo que mais me enche a alma é poder voltar à terra. Claro que adoro viajar, estar com a minha família e os meus amigos, que são poucos, quase os mesmos desde que nasci. Gosto de comida, da verdadeira comida, porque fui habituada a comer a comida vinda quase directamente da terra para o prato. A Ana é muito simples.

Sempre foi assim, esse amor pela “verdadeira comida"?
Quando era pequena, tive uma apendicite que me tirou o apetite. Para mim comer era um suplício. Quando a minha mãe me dizia ‘Ana está na hora de ir para a mesa’, era uma sensação de ‘preferia estar doente de cama’. Isto ainda durou algum temo. A minha relação com a comida foi sofrendo várias etapas. Nunca tive nada de preocupante, mas não foi sempre a mesma.

Como nasceu o interesse pela nutrição?
Cresci no meio de alimentos saudáveis. A verdade é que lá em casa não havia refrigerantes, não havia fritos... Fui educada assim. Durante algum tempo, sobretudo quando recebia amigos, ficava um bocadinho envergonhada. Se recebia um a meio da semana, ficava um bocadinho constrangida porque sabia que eles tinham bolachas, e eu não. Por isso, fazia um bolo, um refresco de limão ou de laranja, mas não tinha aquelas coisas que eles tinham… As minhas melhores brincadeiras e memórias são no meio dos tachos. Acho que tudo isso se conjugou e me fez amar o meu trabalho.

Mas quando foi para a universidade, candidatou-se a medicina.
Na minha cabeça não existia a possibilidade de nutrição até porque não era um curso muito falado. Sempre imaginei que entrava em medicina. Pus nutrição na segunda opção e entrei. Estudei na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Apaixonei-me. Nunca mais pensei sequer em mudar de curso. Sabia que podia até tirar medicina mais tarde, mas queria concluir aquilo e saber tudo o que havia para saber naqueles cinco anos. Durante o curso fiz muitas asneiras alimentares e tive o máximo de peso que já tive na vida. Só se tem verdadeiramente consciência alimentar nos últimos dois anos de curso.

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Ana Bravo nasceu no Porto a 19 de Maio de 1981 DR

Há 16 anos, a nutrição era diferente?
Não era muito diferente. Acho que estamos a precisar de um ponto de viragem para regressar às origens. Não havia as dietas da moda e era tudo mais equilibrado. Hoje, as pessoas vivem sem consciência alimentar e com um fundamentalismo que as escraviza. Digo isto no livro: somos bombardeados com tanta informação e tanta dela, infelizmente, não fidedigna. As pessoas acham que estão a fazer muito bem, tornam-se reféns de demasiadas regras, deixam de ter o que é tão importante, até na nossa tradição: o amor pelo acto de comer, a boa relação com a comida, o convívio em torno da mesa, o estar a degustar e a saborear. Vão ao supermercado e passam horas a ler rótulos, a fazer disto mais uma tarefa, quando não é. Comer deve ser incluído na nossa vida da forma mais natural possível. Deve um acto de amor por nós próprios. Aquilo que comemos transforma-se literalmente nas nossas células. Nós queremos alimentar-nos e fazer chegar informação a todo o nosso corpo desse amor que sentimos por nós.

As redes sociais também contribuem para esta desinformação?
Eu não posso generalizar, porque vou ser injusta, mas a verdade é que se passa muito a imagem da vida perfeita. É tudo aquilo que eu excluo agora, cada vez mais. Este livro tem muito a ver com isso, com o desmistificar que ninguém tem uma vida cor-de-rosa, todos temos problemas, sejam alimentares ou não. Acabam sempre [os problemas], e sobretudo nas mulheres, por se reflectir também na parte alimentar. Não comemos meramente por uma questão fisiológica, mas também por uma questão emocional. Essa sensação que é criada, de que aquela pessoa é perfeita, faz receitas perfeitas, tem uma vida perfeita, cria mais um motivo de ansiedade e frustração. As pessoas ficam com expectativas defraudadas. Depois desencadeia episódios de voracidade, o oposto daquilo que se quereria. Este livro é um convite às pessoas para se escutarem, visto que eu própria passei por um processo em que não o fazia.

A Ana passou por uma situação de quase burnout. Como é que tudo isso começou?
Sempre fui muito exigente com o meu trabalho. Eu amo aquilo que faço, tenho essa imensa sorte, mas também tenho muito a necessidade de criar, de inventar, de estar sempre com projectos novos. Isto desde há 16 anos fez com que eu trabalhasse até ao fim-de-semana e estivesse sempre em busca de coisas novas. A determinada altura, há dois anos, o médico disse-me que eu estava à porta de um burnout. Eu percebi que mais do que uma questão física, passava por ter deixado de me escutar, de ter tempo para mim. Quando digo para mim, é verdadeiramente para me ouvir. Percebo que isso é transversal a grande parte das pessoas. Vivemos num meio muito competitivo, em que acumulamos tarefas, em que comer se tornou mais uma tarefa, em vez de um prazer. Este livro é um salto de coragem porque admito tudo isso e as minhas fragilidades. 

A nutrição é mais do que o que nós comemos?

Eu chamo a alimentação do sentir e a alimentação que cumpre a função básica de nos nutrir. Essa alimentação do sentir passa por toda a “nutrição” que nós nos damos, pela forma como nos acarinhamos. Não somos máquinas... Tornamo-nos máquinas, todo o tempo é para aproveitar, é comer enquanto se está ao telemóvel ou em frente ao computador, sem degustar. É preciso voltar às origens, à comidinha boa.

Nas suas consultas, faz mais do que passar um plano alimentar?
Sim, completamente. Neste processo, senti a necessidade de aumentar em 30 minutos a primeira consulta. Achei que era injusto depois do que eu descobri não o fazer. 

Algumas pessoas querem um plano alimentar pelas razões erradas?
Exacto... Eu não sou psicóloga, nem pretendo ser, mas preciso de estabelecer uma ligação e conhecer o mais possível sobre aquela pessoa para a poder ajudar verdadeiramente. 

Qual é a primeira mudança que alguém deve fazer: a comida ou o interior?
Primeiro, peço-lhes para questionarem os motivos que as levam a querer cumprir um plano alimentar. Uma dieta é um modo de vida. Portanto, um plano alimentar não deve ter os dias contados, não é para isso que nós o fazemos. Vai sendo moldado ao longo do tempo e da evolução corporal da pessoa e do próprio dia-a-dia que também pode mudar e dos gostos pessoais. As pessoas têm filhos, têm família, muito mais coisas do que eu que pude parar, mergulhar na natureza e fazer retiros. Descobri um guru hindu, faço retiros no ashram dele e ajudou-me muitíssimo no processo. Há pessoas que simplesmente só podem fazer uma meditação ou ter esse momento de silêncio de paz quando deitam as crianças. Que sejam cinco minutos no dia, mas que eles existam.

A meditação também é uma coisa que a Ana fala no livro.
Ao longo destes dois anos, fiz todo um percurso... Primeiro, fui mergulhar na natureza sozinha, depois fiz um encontro de mulheres para fazer meditação em Bali e vários cursos de desenvolvimento pessoal. Por coincidência, conheci o meu guru, a cultura hindu, tudo aquilo me fez sentido. Hoje, faço uma técnica que se chama Atmka Kriya Yoga, que é desse guru, Paramahamsa Vishwananda. Este foi o meu caminho, não tem que ser o caminho das outras pessoas. Elas têm é que ter um tempinho no seu dia, seja ele qual for, para se ouvirem.

Tudo isto se reflecte na relação com a comida?
Completamente. Se o nosso objectivo é, por exemplo, emagrecer, devemos passar pela fase de motivação, prepararmo-nos. Já sabemos que numa fase inicial pode não ser fácil, porque não vamos comer o que nos apetece à hora que nos apetece, mas vamos conseguir. Esta interiorização é importante e sempre falei nisto desde o meu primeiro livro. Descobrindo-nos, o que nos move, o que nos dificulta a vida, vamos conseguindo, passo a passo, ter maturidade alimentar. Ninguém passa a ser perfeito e todos nós temos momentos em que vamos acabar por comer um pacote de bolachas, uma caixa de bombons.

Vai mentalizando as pessoas de que esses percalços vão acontecer?
Podem acontecer, vão acontecer porque convivemos... Logo a seguir devemos voltar ao nosso plano alimentar. Não é um drama. Nunca mais pensar naquilo, a não ser no prazer que causou. Comer deve ser, sem dúvida, um prazer. Se não proporcionar boas sensações, algo está errado.

Costuma partilhar a sua história com os pacientes?
Não... Costumo dizer que os episódios de voracidade que os doentes têm, às vezes, eu também tenho na fase pré-menstrual ou quando estou mais irritada. Explico que aquilo que me relatam, acontece com todas as pessoas.

Nutrição com Coração é o seu sétimo livro. Em que é diferente dos outros?
O meu primeiro livro foi sobre os pilares da dieta em que acredito. Houve livros de receitas, de alimentação direccionada a patologias especificas. O último livro já apontava para este conceito e foi escrito em parceira com o Serviço Nacional de Saúde para a campanha “Juntos contra o sal e o açúcar”. Todas as fotografias desse livro foram tiradas por mim: não queria nada com edição, nada com máquina, queria que fossem coisas reais, para pessoas reais, para poderem fazer aquele prato e sair na mesma ou melhor. Este sair do ‘mundo cor-de-rosa’, como costumo dizer, já começou nesse livro. Neste, foi um salto de coragem para mim porque foi contar a minha história e de que forma isso também se manifestou na forma como eu como. Não tenho aquela história de dizer que já fui obesa, mas o meu comportamento alimentar foi mudando ao longo das fases da vida.

Fala muito da dieta em que acredita. A que dieta se refere?
Não como carne, por uma questão pessoal. Sou a favor dos pressupostos da dieta mediterrânica, na variedade dos produtos que nos apresenta e na tradição de produtos, respeitando a sazonalidade. A dieta mediterrânica, património imaterial da humanidade, não se baseia apenas em pressupostos alimentares, mas também do meio envolvente: passagem de receitas de geração em geração, no convívio à mesa. A dieta vegetariana tem, cada vez mais, a minha simpatia, pela evidência científica que se tem vindo a demonstrar, desde que devidamente planeada com acompanhamento, sobretudo numa fase de transição. Não estou a dizer que sou vegetariana, mas que cada vez mais estudo essa dieta e me faz sentido. 

Quais são os principais erros que cometemos na alimentação?
Há um grupo de pessoas que por terem precisamente esta vida agitada, classes médias-altas, acabam por ceder à comida pré-confeccionada de má qualidade. Isto gera monotonia alimentar, se não mesmo carências nutricionais. Há o extremo da quase ortorexia (obsessão por comer apenas alimentos saudáveis) e o extremo de não querer perder tempo a fazer comida. Na verdade, estão a perder tempo de vida. 

Que conselho dá a esse tipo de pessoas?
Eu tenho doses de quinoa ou de arroz no frigorífico, confecciono vários tipos de legumes e divido também por doses. Depois faço a parte proteica que me apetecer no momento. Não é preciso estar a fazer tudo do zero. Com isto, os meus dias fluem. 

No livro, percebe-se que não é uma extremista.
Nunca, jamais. Nem sou contra alimentos processados, nem só biológicos — sou do equilíbrio. Há processados que têm todo o interesse. Por exemplo, os iogurtes são alimentos processados e têm interesse, desde que escolhamos a forma certa. Temos que ter em conta a vida de cada pessoa. Alguém que não consegue comprar pão fresco todos os dias, pode comprar um produto de conveniência embalado. A indústria alimentar também tem vindo a melhorar os seus produtos, visto estarmos cada vez mais exigentes. As minhas dietas são muito equilibradas, nunca são sem hidratos de carbono. Estes cumprem a sua função, desde que na quantidade certa para cada caso e para cada objectivo. Não são os vilões, nunca foram. Se a pessoa quiser emagrecer, um grama de hidratos de carbono tem quatro calorias, como um grama de proteína; um grama de gordura tem nove calorias. Há que equilibrar. O que as pessoas fazem, muitas vezes erradamente, por autogestão, é tirar as fontes de hidratos de carbono, colocam mais hortícolas no prato e temperam com mais gordura. No final, às vezes têm mais calorias do que tinham antes. Quando falamos de um alimento, podemos falar da parte boa e da parte má. Se me pedir para escrever um artigo acerca da maçã, posso escrever tudo de maravilhoso. Se me pedir para escrever sobre a parte menos boa da maçã, também consigo fazê-lo. Variar e equilibrar é o mote. 

Texto editado por Bárbara Wong