Metade das praias do mundo está em risco de desaparecer até 2100

No pior cenário, Portugal pode perder quase 40% das suas praias. Mas nem é dos países mais afectados.

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Praia de Albufeira durante o Verão LUÍS FORRA/LUSA

Quem consegue resistir a um belo dia de praia? Se ao sol e à maresia se juntar a companhia de amigos e família, estão reunidos os ingredientes para futuras memórias inesquecíveis. Mas, conseguirão as próprias praias resistir aos efeitos das alterações climáticas? Uma equipa de cientistas da Europa criou dois cenários para se saber o que poderá acontecer às praias de todo o mundo até 2100. No pior cenário, verificou-se que 50% destas zonas à beira-mar poderão desaparecer até ao final do século. Em Portugal, poderão perder-se quase 40% das praias.

“As praias de areia ocupam mais de um terço da linha costeira a nível global e têm um elevado valor socioeconómico.” É assim que os autores de um artigo publicado agora na revista científica Nature Climate Change nos apresentam o conteúdo estudado. Mas, logo a seguir alertam que uma “proporção substancial” do areal na linha costeira já está a ser afectada pela erosão e que isso ainda pode ser agravado pelas alterações climáticas provocadas pelo ser humano.

Para saber se as praias sobreviverão às alterações climáticas, a equipa de cientistas analisou uma base de dados de imagens de satélite que mostram as mudanças da linha costeira entre 1984 e 2015. Depois, extrapolaram as tendências históricas para projectar as dinâmicas futuras do areal em dois cenários diferentes. Entre os factores que podem influenciar o recuo das praias estão a subida no nível do mar, as tempestades e a ocupação da costa. 

No cenário mais gravoso (RCP8.5), considerou-se que haverá um aumento global médio das temperaturas de quatro graus Celsius até 2100. Verificou-se assim que cerca de 50% das praias de areia de todo o mundo correm um risco de erosão grave. Uma proporção substancial das praias ameaçadas situa-se em áreas densamente povoadas.

“De acordo com o nosso estudo, as alterações climáticas podem resultar, em média, no recuo da linha costeira em mais de 100 metros até 2100 a nível global”, diz ao PÚBLICO Theocharis Plomaritis, investigador da Universidade de Cádis e membro do Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Algarve. Em Portugal, podem ser perdidas 39,5% das praias.

Já no cenário menos gravoso analisado (RCP4.5), teve-se em conta uma subida de dois graus Celsius até ao final do século. Aqui, as perdas verificadas no primeiro cenário podem ser minimizadas em 40% a nível global. Neste cenário, Portugal poderá perder 29,8% das suas praias até ao final do século.

Do Suriname à Guiné-Bissau

“Portugal está entre os países afectados, mas não está entre os mais afectados”, realça Theocharis Plomaritis. E quais serão as zonas do país mais atingidas? O cientista responde que há “alguma variabilidade na costa portuguesa e que ainda não se verificou se essas diferenças são estatisticamente significativas”.

“Os países mais afectados serão o Suriname e as ilhas Comoros”, nota Theocharis Plomaritis. Num resumo sobre o artigo também se indica que a Guiné-Bissau e a Gâmbia estão entre os países que terão mais perdas. Aí, poderão desaparecer cerca de 60% das praias arenosas. Já a Austrália poderá ficar com menos 12.000 quilómetros de praias. Quanto às regiões mais afectadas, concluiu-se que serão a Amazónia, o Leste e Sudeste da Ásia e o Pacífico Tropical Norte.

“Há muitas hipóteses e generalizações que podem mudar o resultado desta análise tanto qualitativa como quantitativamente”, disse à agência de notícias AP Andres Payo, cientista dos Serviços Geológicos Britânicas e que não participou no trabalho. O investigador acrescentou ainda que “as afirmações [deste estudo] devem ser tratadas com muito cuidado”. Os próprios cientistas do estudo esperam agora que mais investigação aperfeiçoe estas estimativas, assinalam no resumo.

Mas Michalis Vousdoukas, do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia e primeiro autor do artigo científico, refere que as perdas estimadas nesta investigação “são um pouco cautelosas” e os valores podem até ser maiores. De uma coisa se tem a certeza: “As mudanças projectadas para a linha costeira terão um impacto substancial na forma da linha costeira do mundo”, escrevem os autores no artigo. Por isso, os avisam que é preciso criar e executar medidas efectivas de adaptação para estas mudanças. “Além do turismo, as praias de areia oferecem com frequência o primeiro mecanismo de protecção contra as tempestades e as inundações, pelo que sem elas os impactos dos fenómenos climáticos extremos vão ser provavelmente mais fortes”, alerta ainda Michalis Vousdoukas. “Devemos preparar-nos.”