Nuno Serro
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Megafone

Sobre a memória dos tambores

De noite, os tambores quiseram voltar a falar. Seguimos pela rua Almirante Reis numa caminhada infinita até ao Parque da Alameda. Uma das funções da memória é dar fundamento aos sonhos. O Carnaval é a nossa ideia mais viva de utopia.

Tambores, como todos sabem, são objectos que possuem memória. Ao serem accionados num lugar que reconhecem, acendem-se de uma tal maneira que parecem até tocar sozinhos. Falam com seus duplos do passado, há muito desaparecidos. Podem recuperar anos de silêncio, em instantes. Aconteceu no Rio de Janeiro, em lugares como a Lapa e a Pequena África, pontos importantes da história do samba, que após décadas de vazio voltaram a brilhar quando recomeçaram a tocar por lá. Porque os tambores nunca se esquecem das ruas onde foram felizes.

Foi no Largo da Rosa, em Lisboa, no bairro da Mouraria, que eles começaram a chegar. Era uma percussão feita de muitos nomes: alfaias, caixas, abês, agogôs. Brasileiros carregavam-nos. Brasileiros pretos. Brasileiros pardos. Ou brancos no Brasil, mas não aqui. E uns poucos que passam por europeus. Até abrirem a boca e mostrarem suas vogais expandidas. Alguns estão aqui há muitos anos. Outros acabaram de chegar. Há os que vieram para ficar. Os que já tem data para voltar. E os que não tem a menor ideia. Resolveram esperar. Quem sabe as próximas eleições. Se essas acontecerem, claro.

Tocavam maracatu, o ritmo afro-brasileiro de registo mais antigo, pelo menos desde 1711 seu nome já era utilizado. Possui por berço o estado de Pernambuco, mas criou raízes e germinou no restante do Brasil. Não faz muito tempo chegou em Lisboa. O Baque do Tejo foi fundado em 2015. O Baque Mulher, criado na cidade do Recife em 2008, aportou por aqui em 2019. Naquele domingo de Carnaval, os dois grupos ocupavam juntos as ruas da Mouraria. E quando os tambores se acenderam, logo começaram a falar por conta própria.

Talvez se enganassem. Pois nós também, enquanto subíamos aquelas ladeiras, corpos carregados de brilho e fantasia, cercados de casas com imensas janelas, o povo a nos espiar passar, debaixo de um sol que rompeu os 20 graus em pleno inverno, também poderíamos pensar estar em outro lugar. A ladeira do Amparo em Olinda, o Pelourinho em Salvador, o Morro da Conceição, no Rio de Janeiro.

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Mas os tambores sabem por onde passam. E não foi à toa que se sentiram em casa ali. Na Mouraria, terra que há 900 anos foi destinada aos árabes e africanos que permaneceram na cidade que fora deles por tanto tempo. Também aqui conservaram os seus tambores: darbukas, tablebes, pandeiros, bongôs. Sabe-se lá por quantos séculos ficaram em silêncio. A aguardar serem invocados por aquele encontro. Como testemunha, já não sei explicar mais nada. Só dizer que foi bonito. Meu primeiro Carnaval em Lisboa. 

Fechamos nosso cortejo com uma festa em uma associação cultural em Arroios. De noite, os tambores quiseram voltar a falar. Seguimos pela rua Almirante Reis numa caminhada infinita até ao Parque da Alameda. Uma das funções da memória é dar fundamento aos sonhos. O Carnaval é a nossa ideia mais viva de utopia. Nosso sonho feliz de cidade. Onde os pedestres predominam aos carros, os amores são celebrados por igual, o tempo se expande de acordo com as nossas vontades. No Parque da Alameda, naquele domingo, longe dos nossos fantasmas, sonhamos um bocadinho mais. 

Despertamos no dia seguinte com a notícia dos cinco policiais a agredir uma brasileira na saída de um bloco no Cais do Sodré. Lembramos, então, de onde estamos. De onde viemos. E que não importa o lugar em que nossos pés aportem, o caminho será sempre longo, demasiado longo. Que os tambores nos guiem e nos unam. 

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