Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Que desporto (e sociedade) estamos a construir?

É necessário tomarmos medidas, claras e objectivas, para que o desporto em geral — e o futebol em particular — não se transforme no cancro da sociedade. Nós, os clubes, a Liga, a Federação Portuguesa de Futebol, os dirigentes, os treinadores, os jogadores, os árbitros e os comentadores, não nos podemos escudar nas vitórias e fingir que está tudo bem.

Nos últimos tempos, temos assistido a um conjunto de acontecimentos desportivos que merecem reflexão. Em pleno século XXI, é perigoso ir a um estádio ou a um pavilhão, local onde se atiram tochas aos jogadores e onde se agridem dirigentes. Estamos a educar os nossos miúdos a “fintar” os árbitros para que eles pensem que é falta um lance onde, na realidade, nada aconteceu; podemos encostar a cabeça a um árbitro e não existem consequências (nem um simples cartão amarelo, por vezes); o abandono precoce nas mais variadas actividades aumenta de forma exponencial.

Em pleno século XXI, tudo é lícito para se vencer. E tudo isto acontece numa altura em que o desporto vai ocupando um lugar central nas sociedades hodiernas. É por isso que pergunto: que comunidade, aliada ao desporto, queremos construir?

O Papa Francisco, recentemente, referiu que o desporto é um meio privilegiado, fácil e eficaz para ensinar o que é a vida, numa cultura dominada pelo individualismo. Acrescento que o desporto ensina o que é a verdadeira liberdade e que esta pressupõe regras, uma enorme responsabilidade e um verdadeiro sentido do outro. O desporto também desmistifica a ideia de que podemos conquistar os nossos objectivos quando estamos centrados apenas em nós mesmos. A sociedade implora por relações, por uma vida comunitária, e o desporto vai ao encontro dessa necessidade.

No desporto, tal como na vida, somos seres humanos que ambicionam expressar-se de forma a que cada um possa revelar aquilo que tem de grande e de belo, almejamos a superação através de acções e movimentos que apontam para horizontes vastos, somos mais humanos porque subordinamos o próprio ao todo e, assim, tornamo-nos verdadeiramente livres.

No desporto, tal como na vida, preparamos os nossos corações para a humildade e para a coragem, tornamo-nos mais solidários, passamos a conhecer o valor da palavra competitividade e, dia após dia, desejamos mostrar o nosso melhor, dando sentido às vitórias e às derrotas, partilhando-as com os outros. O desporto é também um lugar de encontro com a beleza, com a justiça e com a integridade.

No outro dia, a propósito do projecto 100 oportunidades, procurei reflectir, não só sobre as mais variadas modalidades, mas, também, sobre o estado actual do futebol. Sinto que é fundamental acompanharmos o desenvolvimento do meio que o rodeia. O mundo pede complexidade, a minha geração procura a multidisciplinaridade e o futebol não pode ser excepção — há pouco tempo, conheci um surfista licenciado em relações internacionais, que toca contrabaixo e é cantor lírico, o João Kopke. Para que se transforme num pilar significativo para a formação do ser humano, o desporto — e, neste caso, o futebol — tem a obrigação de se abrir ao mundo, de comunicar com a música, a literatura ou a gestão. Se simboliza a própria vida, se serve para explicar o comportamento humano, não deve fechar-se em si mesmo; não pode, na minha opinião, continuar a compactuar com a ideia de que “o balneário é uma ciência oculta” e só quem viveu nele o entende.

Nada impede que sejamos seres múltiplos, desde que o façamos com brio, seriedade e humildade. Se eu, por qualquer razão, desejar ser licenciado em filosofia (e o fizer bem), se aprender a tocar um instrumento (e o fizer com afinco), se eu gostar de ler e escrever (vivendo seriamente aquilo que leio e escrevo), isso só pode significar que me tornarei mais completo e, por isso, serei melhor treinador, atleta, político, advogado, pintor ou educador. E nunca o contrário.

É necessário tomarmos medidas, claras e objectivas, para que o desporto em geral — e o futebol em particular — não se transforme no cancro da sociedade. Nós, os clubes, a Liga, a Federação Portuguesa de Futebol, os dirigentes, os treinadores, os jogadores, os árbitros e os comentadores, não nos podemos escudar nas vitórias e fingir que está tudo bem. Porque não está, mesmo que continuem a existir momentos em que seja demonstrada a nossa excelência.

Somos responsáveis por colocar o desporto no seu devido lugar, para que qualquer derrota do clube X não seja elevada a assunto de interesse nacional nos telejornais. Somos responsáveis por construir uma verdadeira cultura desportiva, e não aquela que inventa comunicados a criticar a arbitragem, semana após semana. Somos responsáveis por contribuir para a formação de muitas pessoas que olham para nós como exemplos a seguir.

Temos a responsabilidade enorme de demonstrar que o futebol é um jogo, e que é para jogar que cá estamos. Nem mais nem menos do que isso.