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A pesca está a ameaçar o boto-cor-de-rosa da Amazónia: “Não queremos que os golfinhos passem a ser apenas uma lenda”

Por ano, são mortos cerca de 2500 botos-cor-de-rosa no estado do Amazonas para servirem de isco para pescar outras espécies — o que os coloca numa situação vulnerável. Mas há um grupo de investigadores que quer impedir o seu desaparecimento.

O boto-cor-de-rosa da Amazónia é um mamífero inteligente e amigável, que parece, à semelhança de um humano, sorrir e corar quando está entusiasmado.

Mas há quem esteja preocupado com aqueles que são os maiores golfinhos de água doce: no Brasil, há pescadores que os caçam e matam ilegalmente, transformando-os em isco para um peixe-gato a que chamam piracatinga. Tal está a pôr a espécie numa situação vulnerável.

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Em Janeiro, deixou de estar em vigor uma moratória contra a pesca de piracatinga. Ambientalistas e investigadores têm apelado à sua renovação — entre eles, Vera da Silva, que há 25 anos trabalha para a preservação do boto cor-de-rosa.

“Nunca deixei de estar encantada por estes golfinhos. São animais fascinantes”, diz, enquanto a sua equipa usa uma rede para apanhar golfinhos que serão, posteriormente, examinados, medidos, marcados e libertados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

“Captámos uma mãe e uma cria e vimo-los a chamar um pelo outro. Eles têm uma relação muito forte até aos três anos da cria, quando ela se torna independente”, explica.

Tal como outros golfinhos, eles fazem sons de assobios através de espiráculos, para comunicar debaixo de água. O que os distingue é a lenta transformação de cinzento para cor-de-rosa, à medida que vão envelhecendo. O seu comportamento e exposição à luz solar também têm influência na mudança de tom do boto cor-de-rosa — ou “boto vermelho”, como é conhecido no Brasil.

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A sua grande capacidade de acasalar e “cortejar” deram origem a uma lenda na Amazónia, que diz que o boto cor-de-rosa se transforma num belo homem durante a noite, para seduzir as mulheres da vila.

A reserva de Mamirauá, dirigida pelo instituto de investigação Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia (INPA), ocupa uma área de 11 quilómetros quadrados de floresta tropical inundada. Com uma corda, cuidadosamente colocada à volta dos bicos, os golfinhos são levados para o centro de investigação, onde os colegas de equipa de Vera da Silva recolhem amostras de sangue e usam uma seringa para retirar e testar o leite das mães.

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Pescadores contratados pela equipa de investigação procuram botos-cor-de-rosa REUTERS/Bruno Kelly

A gravidez dos golfinhos dura, normalmente, 13 meses. E uma cria é amamentada até aos dois anos. Por ser um período de amamentação tão longo, as fêmeas apenas se reproduzem a cada três ou cinco anos, explica Vera. O que também os torna vulneráveis. E os procuradores do estado do Amazonas já avisaram que, por ano, estão a ser mortos 2500 golfinhos, para serem transformados em isco.

Ainda que sejam relativamente abundantes e facilmente encontrados nas águas do Amazonas e Orinoco, Vera teme que esta espécie possa deixar de existir — da mesma forma que os golfinhos do rio Yangtze, na China, desapareceram em 2006, depois de anos de pesca intensiva e poluição. “Não queremos que os golfinhos passem a ser apenas uma lenda da Amazónia”, atira. 

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