O Trash Traveler canta todos os dias sobre o lixo que apanha em Portugal

Dois anos depois de se mudar para Lisboa, Andreas Noe despediu-se do emprego para viajar com um propósito: recolher lixo todos os dias e com ele criar uma canção bem-humorada sobre a problemática. O Trash Traveler quer mudar consciências com uma mensagem positiva.

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Nuno Ferreira Santos

Garrafas, sacos, latas, cotonetes, pacotes de cigarros, copos descartáveis, despojos de pesca, palhinhas, tampas, guardanapos, beatas. Centenas e centenas de beatas. Há cinco meses que, praticamente todos os dias, Andreas Noe se mete a apanhar o lixo que os outros deixam pelo caminho. Na Costa da Caparica e nas ruas de Lisboa, da Alemanha a Portugal, ou na Costa Vicentina.

São quase 450kg de lixo recolhidos em mais de 140 dias que, no final de cada jornada, pesa numa balança portátil e aponta nas redes sociais. Os números não lhe interessam tanto quanto a mensagem que quer transmitir, de uma forma alegre e humorada, em pequenos vídeos onde encena uma canção com o lixo que recolheu naquele dia. Se tudo correr como planeado, é este sábado que estreia a música que cantou à Fugas naquele final de tarde junto às dunas da praia da Saúde, na Costa da Caparica.

Sentado na autocaravana, com o cavaquinho entre os braços e um sorriso, momentaneamente envergonhado, Andreas quer “pedir desculpa aos portugueses” se estiver a interpretar indevidamente uma das canções mais popularizadas por Amália Rodrigues. “É a minha primeira experiência com o fado.” Aos primeiros acordes, adivinha-se uma letra adaptada à temática com a ajuda de um amigo português. “É uma praia portuguesa, com certeza / Com certeza, é uma praia portuguesa / Eu limpo a praia portuguesa, com certeza / Com certeza, eu limpo a praia portuguesa / Há tanto plástico no mar, com certeza / E a portuguesa gosta de peixe à mesa / O peixe come plástico, com certeza / Com certeza, acabará na tua mesa”.

Natural de Constança, uma cidade alemã localizada na fronteira com a Suíça, Andreas Noe mudou-se para Portugal há cerca de dois anos e meio, depois de passar férias no país (“três vezes em zonas diferentes”). “Para mim, é um dos países mais bonitos da Europa.” A variedade paisagística e cultural torna-o “muito interessante e especial”. E Lisboa, para capital europeia, “tem o tamanho perfeito e a envolvente natural perfeita, com o oceano”.

Andreas, hoje com 31 anos, decidiu cumprir um sonho e vir de autocaravana para Portugal. “Adoptou” a Pinóquio depois de responder a um anúncio de venda e convencer os proprietários a emprestarem-na por uns anos; em troca, trata dos impostos e da manutenção – “um exemplo de como é possível alcançares o que queres mesmo sem dinheiro”. Depois de um ano a pagar “rendas altas” no centro de Lisboa, mudou-se definitivamente para a carrinha. “Foi bastante engraçado combinar o mundo empresarial com este estilo de vida mais livre.” De manhã, o fato engomado. Ao final da tarde, o fato de neopreno e a prancha de surf.

Cantar para alertar

A casa começou a mover-se entre a Costa da Caparica e a Fonte da Telha. A natureza fez-se sala de estar. E a sala de estar, reparava cada vez mais, tinha lixo por todo o lado, fosse qual fosse o cenário escolhido naquele dia. Primeiro criticava, tentava ignorar, à medida que traçava o caminho oposto, procurando viver com menos desperdício (já consegue tomar dois duches com os oito litros de água do chuveiro portátil que tem ao lado, aponta), menos plástico e embalagens (“é quando tentas fazê-lo que te apercebes como é realmente estranho o mundo em que vivemos, porque praticamente já não é possível sem que faças um grande esforço para isso”). Desde miúdo que é vegetariano (“aos quatro anos perguntava à minha mãe se aquilo era um animal no meu prato e se ela dissesse que sim já não queria comer”), no caminho do veganismo. Mas abria a porta da caravana e via sacos a esvoaçar pelas dunas, garrafas enterradas na areia, “tantos pedaços de plástico” a caminho das ondas. “Isto do plástico e da poluição começou a estar sempre na minha cabeça.”

Em Setembro do ano passado, Andreas despediu-se do emprego como consultor na área da biologia molecular. “O trabalho das 9h às 17h num escritório, em frente a um computador, não me preenchia neste momento.” Queria “fazer alguma coisa pelo ambiente”. Pegar na carrinha e viajar. Com um propósito. “Decidi combinar tudo o que amo e fazer alguma coisa a partir disso”: recolher lixo e fazer vídeos e músicas que alertassem para o problema da poluição de uma forma “divertida e positiva”. Nascia, assim, The Trash Traveler. Primeiro para se manter motivado, depois para sensibilizar os outros.

Acredita que Greta Thunberg e outros activistas mais aguerridos estão a “fazer um trabalho incrível” – “todos admiramos o que ela tem feito e o que aconteceu nos últimos dois anos”. “É uma abordagem diferente e estou impressionado, mas não é da minha personalidade.” Para Andreas, talvez se apanhem mais poluidores com uma boa gargalhada. “Sei rir-me de mim próprio e fico feliz que as pessoas se riam de mim. Estou a divertir-me muito a fazer estes vídeos ridículos sobre lixo porque acredito que se estiveres relaxado e feliz também vais estar mais aberto a receber a mensagem.” Apontar o dedo, muitas vezes, activa mecanismos de defesa que o tornam contraproducente. Mas talvez algo lá dentro mude enquanto se riem de um alemão a adaptar Uma Casa Portuguesa ou quando os convida a dançar por “menos lixo” ao som do acordeão.

Para o projecto, Andreas não precisa de muito mais que luvas para apanhar o lixo, um cavaquinho e o telemóvel com um pequeno tripé Nuno Ferreira Santos
Para o projecto, Andreas não precisa de muito mais que luvas para apanhar o lixo, um cavaquinho e o telemóvel com um pequeno tripé Nuno Ferreira Santos
Para o projecto, Andreas não precisa de muito mais que luvas para apanhar o lixo, um cavaquinho e o telemóvel com um pequeno tripé Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Por vezes, começa a gravar ainda sem ter ideia “do que vai sair dali”. Entusiasma-o a criatividade do improviso e o desafio de publicar algo novo todos os dias. Com um cavaquinho, um acordeão, lixo, um telemóvel e um pequeno tripé, às vezes um drone, e os truques que vai aprendendo sobre edição de vídeo. Mas o cenário que encontra é, muitas vezes, aterrador. Um dia, recolheu “127 pedaços de microplástico” num metro quadrado de areia na Costa da Caparica. “À primeira vista parece que a praia está limpa, depois olhas com mais atenção e percebes que não. É muito chocante para mim porque não é só um metro quadrado nem toda a linha de costa, são também os oceanos, porque o plástico vem de lá.” Encontrou litros e litros de lixo a flutuar num lago num “lugar lindo e idílico” em Espanha ou no meio do mato, depois de conduzir mais de uma hora por estradas de terra “no meio do nada”. Por mais remoto que seja o sítio, acaba sempre por encontrar lixo suficiente para encher um saco.

Depois de Portugal, o mundo

Até há umas semanas, o plano estava traçado: “começar a viajar e recolher lixo”. O bichinho das viagens surgiu antes de entrar na faculdade, quando um amigo o desafiou a passar o Verão a trabalhar e a passear pela Austrália. Desde então, aproveita os estudos para viver noutros países e as férias para viajar longas temporadas (“uma semana é bom, mas não é suficiente para aprenderes sobre a cultura”). Austrália, Sudoeste Asiático, Suíça, Cambridge, África do Sul, Brasil, Portugal.

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Andreas decidiu despedir-se e "combinar tudo o que ama" para "fazer alguma coisa a partir disso" Nuno Ferreira Santos

Agora, a ideia era seguir pelo Sul de Espanha até Marrocos e, depois, quem sabe, continuar mundo fora. “Mas nos últimos meses viajava para Norte e voltava para Lisboa, conduzia em direcção ao Sul e dava por mim a regressar outra vez”, ri-se. Deixou-se enamorar pela região portuguesa, fez amigos, uma vida. E desde que o projecto ganhou maior visibilidade – ainda lhe custa crer que se transformou numa espécie de influencer –, surgem projectos, convites para colaborações, recolhas de lixo colectivas (já organizou uma de beatas em Lisboa: apanharam mais de 25 mil em dez horas), ideias e mais ideias. “Há tantas coisas que posso fazer neste momento, que estou um bocadinho confuso e a apontar cada possibilidade e aquilo que quero.”

Existe a hipótese de colaborar com uma start-up ambientalista sediada em Lisboa, fazer uma exposição com os vídeos já publicados, dar palestras sobre o tema nas escolas ou fazer consultoria em empresas sobre como reduzir o uso de plástico e combater o desperdício. Está a “gostar tanto” de alimentar o The Trash Traveler que vê o projecto “durar para sempre”. Mas a ambição cresceu: quer “criar um verdadeiro impacto”. Com um projecto grande ou muitas iniciativas pequenas.

Por agora, não pensa voltar à biologia molecular, mas isso não significa que o interesse pela área esmoreceu. Continua a ler artigos científicos, a acompanhar os últimos desenvolvimentos tecnológicos e descobertas. Talvez volte à investigação na área da hematologia ou da malária ou enverede pelo estudo da leucemia. “Só de estar a falar nisto já me sinto entusiasmado”, confessa. Acredita que um dia vai voltar ao laboratório, mas não sabe quando. Para já, sabe que quer ajudar a limpar o mundo. Uma canção de cada vez.

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