MAI pede inspecção sobre caso de mulher da Amadora que acusa polícia de agressão

O Ministério da Administração Interna enviou o pedido à Inspecção Geral da Administração Interna.

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LUSA/MANUEL DE ALMEIDA

O Ministro da Administração Interna pediu à Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI) a abertura de um inquérito para apurar os factos relacionados com a actuação policial que ocorreu no domingo, na Amadora, afirmou o MAI em comunicado. 

Segundo o ministério, a PSP transmitirá à IGAI todos os elementos da averiguação interna que tem estado a realizar. 

Cláudia Simões, 42 anos, acusou um polícia de a ter agredido no domingo, depois de uma intervenção em sequência de uma viagem de autocarro, o número 163 da Vimeca. Presente a tribunal na terça-feira por o agente ter, por seu lado, feito queixa dela, Cláudia Simões estava com a cara deformada e lábios com escoriações. É arguida e ficou com termo de identidade e residência. A PSP, por seu lado, afirma que a cidadã “se mostrou agressiva” e “mordeu o agente”. A Direcção Nacional da Polícia já abriu um processo de averiguação interna e irá “apurar se os danos físicos são consentâneos com uma actuação policial correcta ou se aparentam uso excessivo de força”. A advogada de Cláudia Simões pediu a incorporação neste processo do outro em que é queixosa e aguarda-se por saber se o polícia será constituído arguido. 

A cidadã portuguesa e angolana referiu ao PÚBLICO na terça-feira que as agressões pelo mesmo agente da PSP, Canha, ocorreram em dois momentos. O primeiro terá sido pouco depois das 20h30, na rua. Num vídeo que foi filmado por um jovem vê-se um agente da PSP a manietar a senhora, com as pernas dobradas em cima das suas costas e as mãos a agarrar no cabelo, puxando-o para trás. A voz dela balbucia palavras, mas vê-se o rosto de Cláudia Simões sem marcas ou feridas e uma voz a dizer: “Ela não está a resistir.” Num segundo momento, acusa, o polícia agrediu-a no carro da PSP, com ela algemada, enquanto a insultava: “‘grita agora sua filha da puta, preta, macacos, vocês são lixo, uma merda’”.

Segundo se queixou, a PSP deixou-a inconsciente à porta da esquadra. Segundo disse ao PÚBLICO o comandante dos Bombeiros da Amadora, Mário Conde, os meios foram accionados “como queda”, por iniciativa da esquadra. Cláudia Simões estava fora da esquadra quando lá chegaram, pelas 22h. No local, foi visível que se tratava de outro motivo – os bombeiros referiram que tinha existido um conflito entre a cidadã e a PSP, afirmou. 

Segundo contou, tudo se iniciou no autocarro 163, da Vimeca, que faz o percurso Colégio Militar-Massamá. A filha esquecera-se do passe e Cláudia disse ao motorista que o filho estaria na paragem de saída com o documento (os passes de ambas estão em dia, mostraram ao PÚBLICO, mas de qualquer forma até aos 12 anos as crianças não pagam, apenas precisam de ter o documento). Sentaram-se e tudo decorreu normalmente, até que entrou uma senhora brasileira com a neta de quatro anos e o motorista forçou-as a sair por a menina não ter passe. Gerson Calveto, o sobrinho que assistiu a tudo, disse ao PÚBLICO que de seguida o motorista começou a gritar: “‘isso é na tua terra, vocês estão aqui a dar cabo do nosso país’. E começou a gritar nomes: ‘seus pretos, andam a estragar o nosso país, pensam que isso é só chegar e andar sem passe’.” Contactada pelo PÚBLICO, a Vimeca ainda não comentou nem deu explicações sobre o caso.

Quando chegaram à paragem de destino o motorista chamou um polícia que os abordou perguntando se queriam agredir o motorista. Houve troca de argumentos e a gota de água terá sido um comentário que Cláudia fez acusando o agente de estar “a cheirar a álcool”, diz Gerson. “O tipo agarrou o pescoço da minha tia e jogou-a ao chão de imediato.”

Segundo o comunicado oficial da PSP, o agente foi chamado pelo motorista e entrou dentro do autocarro por a cidadã se recusar a pagar o bilhete de transporte da filha, e de o ter ameaçado e injuriado. Afirma ainda que Cláudia Simões estava “agressiva” e empurrava o agente. Baseado no auto de notícia, o comunicado refere que “o polícia, que se encontrava sozinho, para fazer cessar as agressões da cidadã detida, procedeu à algemagem da mesma, utilizando a força estritamente necessária para o efeito” e que foi necessário prestar-lhe assistência hospitalar.