Trabalhadores e sindicato denunciam “esquecimento” das bibliotecas municipais de Lisboa

Trabalhadores denunciam degradação das bibliotecas geridas pelo município. Câmara refuta as críticas, que considera exageradas, e admite mesmo que tem “investido imenso” nestes equipamentos.

Biblioteca de Marvila
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Em Marvila, a mais recente biblioteca, o ar condicionado nunca funcionou Fabio Augusto

Os reparos que o Sindicato de Trabalhadores do Município de Lisboa (STML) faz à gestão da hemeroteca e do arquivo histórico estendem-se também à forma como a autarquia tem gerido as bibliotecas sob sua alçada, onde se verificam “problemas idênticos”. A câmara diz, por sua vez, que as críticas são exageradas. 

No final de Novembro, o sindicato fez chegar à Câmara de Lisboa uma exposição em que dá nota das conclusões do périplo que fez pelas várias bibliotecas da cidade. Um dos reparos é transversal a todos os equipamentos e prende-se com a “enorme falta de pessoas, nas várias carreiras e especializações implícitas a esta realidade sectorial”.

Para o sindicalista Luís Dias, esta constatação revela “algum esquecimento das bibliotecas”. Dias está particularmente preocupado com a abertura da nova biblioteca de Alcântara, que deverá ocorrer nos próximos meses, e com a possível falta de meios humanos para assumir esse trabalho. 

As falhas apontadas não se prendem apenas com a falta de pessoal, mas também com degradação de vários equipamentos. Neste ponto, tendo em conta a avaliação feita pelo sindicato, é a Biblioteca Camões que “assume o primeiro lugar”, nota Luís Dias. No rol de falhas está falta de climatização adequada no espaço, problemas de iluminação, casas de banho degradadas. Segundo o sindicalista, foram recentemente feitas “intervenções mínimas, mas que não resolvem os problemas de fundo”. 

Alguns trabalhadores ouvidos pelo PÚBLICO fazem eco do que diz Luís Dias. Referem a inexistência de planeamento anual e queixam-se que as bibliotecas não têm orçamento próprio, estando sempre dependentes de autorização superior para realizar até a mais pequena despesa. Isso torna-se particularmente problemático nos casos em que há deficiências nas instalações, sublinham, exemplificando com as casas de banho danificadas nas Galveias ou o ar condicionado que não funciona em Marvila.

“Há uma disparidade total entre aquilo que se diz e o que se faz”, afirma um funcionário, contrastando a forma como a câmara comunica publicamente sobre estes equipamentos e a forma como são geridos. “Lisboa deve ser das poucas cidades sem uma biblioteca com horário alargado”, comenta outro trabalhador para exemplificar onde se nota a falta de recursos humanos.

Luís Dias lembra ainda as condições de trabalho “deploráveis” do Serviço de Aquisições e Tratamento Técnico (SATT), o grande depósito da autarquia nos Olivais onde milhares de livros e periódicos são catalogados no rés-do-chão e garagens de um prédio. Na visita que fez ao local, o sindicato descreve que encontrou estantes cheias de pó, salas com evidentes marcas de infiltrações e humidade. 

O director municipal de Cultura, Manuel Veiga, reage com indignação às críticas, pois considera que elas são muito exageradas. “Se há uma área em que a câmara tem trabalhado e investido imenso é nas bibliotecas”, afirma. Neste momento há “dois concursos a decorrer” para contratação de pessoal e o alargamento de horários “é um dos objectivos”, refere. “O grau de satisfação dos leitores com as bibliotecas é elevadíssimo”, garante, refutando também que os funcionários tenham más condições de trabalho.

Luís Dias insiste que os problemas que têm aparecido nestes equipamentos “são problemas que com algum planeamento e estratégia se resolvem, assim haja vontade política”. E lembra que mais do que estar a oferecer más condições aos trabalhadores, a autarquia está a degradar o serviço público que presta aos seus munícipes. “Não é à toa que dizemos que a câmara está a desvalorizar aquilo que é o património histórico, cultural, a memória da cidade e da sua população.”