Opinião

O que fazer com comentadores mentirosos?

Trump mentiu 2700 vezes em 2019. As velhas regras do jornalismo continuam a fazer sentido? É triste, mas já nem o New York Times podemos ler sem cuidados extremos.

É um lugar comum dizer que Donald Trump criou um “novo normal” em relação a coisas que, até à sua chegada à Casa Branca, considerávamos impossíveis. Agora que passaram quatro anos, continuam a cair estilhaços. Um deles é sobre o jornalismo: o que fazer com comentadores mentirosos?

Uma das regras do jornalismo é procurar equilíbrio. “Fazer o contraditório” é um caminho para se chegar lá. Se alguém diz que é boa ideia, damos voz a quem acha que a ideia é má. Um partido faz uma proposta, damos voz a partidos com ideias diferentes. Um cliente protesta contra um produto, ouvimos a empresa. Um cidadão queixa-se de um serviço público, ouvimos o Estado. Como se fosse um slide: o jornalismo é a disciplina da verificação e ouvir “o outro lado” é o seu cimento. É assim desde Heródoto.

A CNN diz que Trump mentiu 2700 vezes em 2019. Neste “novo normal”, as velhas regras do jornalismo continuam a fazer sentido? Dois casos recentes mostram que os media de referência americanos estão a dar voz a gente cuja intenção não é debater, mas apenas intoxicar. E que já nem o New York Times podemos ler sem cuidados extremos.

Em 2016, a CNN contratou Corey Lewandowski para comentador político da estação, dias depois de ele ter sido despedido do cargo de director da campanha presidencial de Trump — não por terem visões diferentes do mundo, mas porque Lewandowski tinha uma atitude “demasiado autoritária” em relação aos jornalistas (baniu o Washington Post) e tornara-se inconveniente. E assim, nos últimos três anos, Lewandowski apareceu com frequência a defender Trump na CNN.

Até que chegámos a Setembro de 2019 e Lewandowski foi chamado a depor no processo de impeachment. No Congresso, sob juramento, ao ser confrontado com uma contradição flagrante de declarações suas na televisão, respondeu: “Não tenho obrigação de ser honesto com os jornalistas.” O “ohhhh...” de incredulidade que se ouviu na sala pareceu genuíno, mas admito que possa estar a ser ingénua.

Imaginar-se-ia que Lewandowski fosse banido do espaço público. Nope. Na manhã seguinte, estava de novo a comentar na Fox e na CNN. A Fox ignorou a questão da mentira e, na CNN, quando lhe fizeram perguntas sobre isso, ele gritou que “os colaboradores da CNN também são mentirosos!”. A mentira, já agora, não era despicienda num impeachment que inclui a acusação de obstrução à justiça: saber se Trump lhe pedira para passar mensagens ao Attorney General sobre a investigação de Robert Mueller (aos jornalistas disse que não, no Congresso disse que sim).

O outro caso foi logo a seguir. A 9 de Outubro, o New York Times publicou um texto de opinião na primeira página assinado por Peter Schweizer (What Hunter Biden Did Was Legal — And That’s the Problem), sobre os negócios do filho de Joe Biden na China e na Ucrânia, sugerindo que o potencial rival de Trump nas presidenciais de Novembro favoreceu o filho com meios do Estado. É um texto de opinião duro, com muitos factos e uma clara tese anti-Biden.

Na última linha, Schweizer é identificado como “jornalista de investigação e autor do recente livro Secret Empires: How the American Political Class Hides Corruption and Enriches Family and Friends. Como estamos a ler o New York Times, não há razão para duvidar.

O artigo teve 1027 comentários e o primeiro pergunta: “Não mencionar os filhos de Trump neste contexto é uma omissão incrível. Porque é que os excluiu?” Outro leitor responde: “Ele excluiu os filhos de Trump porque trabalha para uma organização de direita financiada por bilionários que ficariam zangados se ele mencionasse Trump.”

De que “organização de direita” está o leitor a falar? Estará a falar do Breitbart News, o site de extrema-direita criado por Steve Bannon e que é tão imparcial que foi retirado da lista de “fontes credíveis” da Wikipedia? Talvez sim. Schweizer é “senior contributor” do Breitbart e em 2017 era “senior editor-at-large”.

Ou o leitor está a falar do Government Accountability Institute (GAI), uma organização ultra-conservadora, cujo principal doador é Rebekah Mercer, conhecida como “First Lady of the Alt-Right” (primeira-dama da direita radical), e cujo presidente é Schweizer?

Rebekah Mercer, que nasceu em 1973 mas é considerada “a mulher mais poderosa da política republicana”, é filha do bilionário Robert Mercer, que em 2014 comprou a Cambridge Analytica e investiu um milhão de euros a recolher e tratar 87 milhões de perfis do Facebook de modo a construir um sistema que permitisse identificar o perfil dos eleitores norte-americanos e com isso tentar manipular o seu voto. Nos últimos anos, Rebekah Mercer deu milhões de dólares a organizações conservadoras, entre as quais o GAI. Foi com esse dinheiro que o GAI produziu o livro “Clinton Cash”, cujo autor é Schweizer. Nem Clinton nem Biden são meninos de coro. Schweizer escreveu várias mentiras entretanto desmontadas, mas também algumas verdades. Mas é errado o Times branquear Schweizer como se ele fosse um jornalista independente.

As velhas regras do jornalismo continuam válidas: ouvir “o outro lado” é sagrado. Mas o “novo normal” exige medidas severas e urgentes. As eleições estão à porta.