Torne-se perito

Compras de 200 mil milhões garantem trégua no comércio para a China

Acordo comercial entre EUA e China não baixa taxas alfandegárias, mas garante trégua no conflito dos últimos dezoito meses entre os dois países. Trump chamou-lhe esta tarde “o maior negócio alguma vez visto”

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Reuters/KEVIN LAMARQUE

É com a promessa de, durante os próximos dois anos, aumentar em 200 mil milhões de dólares o volume de compras de bens produzidos nos Estados Unidos que a China garantiu o desejado acordo comercial com Donald Trump.

O entendimento atingido não elimina todas as taxas alfandegárias entretanto criadas, mas para já evita o cenário mais temido tanto em Washington e Pequim como noutras capitais mundiais, de uma escalada da guerra comercial entre as duas maiores potências do globo.

Ao fim de dezoito meses de um conflito que incluiu o agravamento das taxas alfandegárias sobre a maior parte dos bens transaccionados entre os EUA e a China e que trouxe impactos negativos para a actividade económica e para o desempenho dos mercados financeiros um pouco por todo o mundo, Donald Trump e o vice-primeiro ministro chinês, Liu He, assinaram esta quarta-feira em Washington um acordo comercial, que se espera que garanta a entrada da economia mundial num período de maior acalmia.

É o denominado “acordo fase um”, que fica longe de resolver todos os diferendos existentes entre as duas partes, mas que define as bases mínimas para que se possa, durante os próximos meses, possivelmente até às eleições presidenciais norte-americanas de Novembro, assistir pelo menos a uma trégua no conflito comercial.

E a chave para este entendimento mínimo está nos cerca de 200 mil milhões de dólares (179,6 mil milhões de euros ao câmbio actual) que, de acordo com a agência Reuters, a China promete acrescentar, durante os próximos dois anos, nas compras de bens e serviços que faz aos EUA.

Segundo a agência, que avançou os números antes da sessão desta tarde, são 80 mil milhões de dólares de reforço das compras de produtos manufacturados, como aviões, automóveis e peças automóveis, máquinas agrícolas e equipamento de saúde; 50 mil milhões de compras de energia; 35 mil milhões de serviços; e 32 mil milhões de produtos agrícolas. 

Do lado dos EUA, as promessas de compras feitas por Pequim são suficientemente impressionantes para poderem ser apresentadas por Donald Trump como o sinal de que o país saiu vitorioso do embate.

Caso se concretizem, podem ajudar a reduzir o desequilíbrio na balança comercial entre os dois países, que em 2018 atingiu um valor máximo de 420 mil milhões de dólares, reduzindo o descontentamento de alguns dos sectores que mais se vinham queixando da política comercial da Casa Branca, como o agrícola.

Mesmo antes da assinatura do acordo, o presidente norte-americano vinha já passando esta mensagem. “Os nossos agricultores vão sentir o efeito [deste acordo]. Eu estou sempre a dizer-lhes para comprarem tractores maiores”, afirmou Donald Trump, num comício durante esta semana.

Do lado chinês, por seu lado, a ideia é que ao prometer estas compras podem conseguir, com um custo relativamente limitado (o que deverá acontecer é uma transferência das compras de outros países para os EUA), aliviar a pressão a que o país vem sendo sujeito pelo resto do mundo para mudar radicalmente o seu modelo económico baseado no apoio público ao sector exportador.

É certo que no acordo, que tem 86 páginas, a China também assume outros compromissos, em questões de carácter mais estrutural. Promete, por exemplo, aumentar o nível de protecção da propriedade intelectual das empresas norte-americanas. E garante que os seus serviços financeiros ficarão mais abertos à entrada de operadores provenientes dos EUA.

Para além disso, em troca da sua saída da lista norte-americana de países manipuladores de divisa, a China compromete-se a não usar o valor do iuan para obter vantagens nas suas relações comerciais.

Hoje, Donald Trump, após 40 minutos de discurso em que basicamente se elogiou a si, à sua equipa e aos homens de negócios presentes na plateia da sessão esta tarde decorreu na Casa Branca, qualificou este como “o maior negócio alguma vez visto” e uma “mudança no comércio internacional”. Além de destacar as compras previstas de produtos agrícolas (com a china a abrir as portas a carne de bovino e porco e cereais) e energéticos (avisando já que em breve vai permitir novas explorações petrolíferas no Texas), o presidente dos EUA salientou a “protecção de propriedade intelectual muito forte” que o acordo prevê. 

O valor das compras de produtos agrícolas norte-americanos pela China, contudo, teve esta tarde valores distintos: a Reuters estimou-os em 32 mil milhões de dólares antes da cerimónia de assinatura, Trump garantiu que seriam 50 mil milhões, por diversas vezes na sua intervenção, e vice-primeiro ministro chinês, Liu He, que co-subscreveu o acordo, falou em 40 mil milhões de dólares na altura em que discursou, já depois do presidente dos EUA. 

Uma trégua, não o fim da guerra

No entanto, todos estes compromissos são, neste acordo, ainda relativamente vagos. Este tipo de promessas e garantias já vinham, aliás, sendo oferecidos por Pequim ao longo dos últimos anos. O que o acordo agora faz é definir que, caso a China falte à sua palavra, o acordo deixa de ser válido, abrindo a porta a mais uma sequência de subidas de taxas alfandegárias por parte dos EUA.

O sinal mais claro de que o acordo é essencialmente uma trégua é o facto de a maior parte das subidas de taxas alfandegárias realizadas durante o último ano e meio se manterem em vigor.

O máximo que faz é garantir que a última ameaça de agravamento de taxas por Washington (de 7,5 pontos percentuais para importações no valor de 120 mil milhões de dólares) não irá avançar. Mas todas as outras medidas entretanto tomadas e as respectivas retaliações continuam em vigor.

Um qualquer retrocesso a este nível apenas poderá acontecer num eventual “acordo fase dois” a ser negociado entre os dois países, existindo a expectativa generalizada que tal apenas possa vir a acontecer já depois das eleições presidenciais norte-americanas. 

Não é por isso de espantar que os mercados, embora mais serenos com o fim do clima de guerra comercial aberta, sejam moderados no entusiasmo que revelam relativamente ao acordo. Vários sectores de actividade nos EUA, que dependem de importações que foram sujeitas a taxas alfandegárias mais elevadas, vão continuar a sofrer com este custo adicional e, na China, o sector exportador vai continuar a estar sob pressão e a ser um motivo de preocupação para aqueles que temem uma travagem mais brusca da economia.

Nos outros pontos do globo, sejam as outras economias asiáticas, a América do Sul ou a Europa, é difícil ainda projectar qual o efeito deste acordo. É certo que a estabilização que temporariamente traz pode ser benéfica, mas ainda não se sabe o que pode significar o desvio das compras da China para os produtos norte-americanos.

Em última análise, apesar da trégua atingida, o “acordo fase um” não elimina – e até se pode dizer que confirma - os receios de que um conflito permanente entre os EUA e a China pela supremacia economia e geoestratégica (com um foco particular no sector tecnológico) está para durar, devendo ser visto de forma permanente como um dos principais factores de risco que irá enfrentar a economia mundial nas próximas décadas.