Curta sobre projecto que ensina meninas a andar de skate no Afeganistão vai estar nos Óscares

Uma “carta de amor ao Afeganistão”: é assim que a realizadora Carol Dysinger descreve a curta-metragem que acompanha um projecto de integração de crianças e jovens através do ensino de skatebording. Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), de Carol Dysinger, está nomeado para o Óscar de melhor curta-metragem documental.

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Filmada ao longo de um ano, a curta documental Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl) — Aprender a andar de skate num cenário de guerra (se fores uma menina), numa tradução livre para português — segue o progresso de um grupo de meninas no projecto de inclusão e educação para meninas Skateistan, em Cabul, no Afeganistão. As crianças são retratadas enquanto progridem na sala de aula e no skatepark, navegando os desafios da educação e um mundo cada vez mais instável. A curta de 39 minutos, realizada por Carol Dysinger, centra-se no refúgio para jovens onde há liberdade de expressão sem medos e com oportunidades para brilhar, e integra a lista de nomeados para o Óscar de melhor curta-metragem documental, apresentada esta segunda-feira, 13 de Janeiro. Está também nomeado para o BAFTA na mesma categoria, prémio que já venceu no Festival de Cinema de Tribeca, nos Estados Unidos, em 2019.

Em entrevista ao The Moveable Fest, no festival de cinema nova-iorquino Doc NYC de Novembro de 2019, Dysinger, que tem vindo a trabalhar no Afeganistão desde 2004, disse ter ficado feliz por lhe terem proposto o projecto: “É algo que eu já queria fazer há muito tempo”. Reforçou ainda a vantagem de ser uma mulher cineasta no Afeganistão, já que podia filmar coisas que homens não podiam, por lhe ser permitido acompanhar meninas e mulheres.

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Carol Dysinger chama à curta-metragem “carta de amor ao Afeganistão” e afirma ter lá ido “não pela guerra, mas pelo país”. “Estava cansada de ver filmes que retratavam as raparigas como vítimas”, algo que lhes reconhece com facilidade, mas às quais atribui “uma enorme resiliência”. Para conseguir permissão para filmar, pediu a uma directora de fotografia de ascendência afegã, Zamarin Wahdat, que lhe redigisse as perguntas para as entrevistas. “Pedi-lhe que lhes contasse que tinha abandonado o Afeganistão quando era bebé e queria descobrir como teria sido caso tivesse continuado lá”, recorda.

A curta começa com enfoque nas meninas e só depois se debruça sobre o Skateistan: a aprendizagem do skateboarding é algo que fascina a realizadora. Através deste projecto, os instrutores “dão confiança” — e esperança — às crianças e aos jovens. Dysinger espera que “não se volte a dar cabo de tudo como nos anos 90”. “Não podemos largar e deixar de apoiar a educação das raparigas, as clínicas e os hospitais (...) porque estas raparigas têm uma hipótese. Não estão a sonhar.”

Carol Dysinger vai a meio de uma trilogia sobre o Afeganistão e os Estados Unidos pós-11 de Setembro, que se iniciou com o documentário Camp Victory, Afghanistan, de 2010. Tem uma carreira diversa: finalizou o vídeo-concerto John Lennon Live in New York City, filmado em 1972, e escreveu o telefilme The Christmas Star para a Disney, em 1986; já em 2001, montou o drama Rain, do qual Martin Scorsese foi produtor executivo. É ainda professora-adjunta na Tisch School of the Arts na Universidade de Nova Iorque.

Learning to Skateboard in a Warzone (If You're a Girl) é descrito pelo produtor executivo Orlando von Einsiedel (vencedor do Óscar de melhor curta metragem documental com Os Capacetes Brancos, da Netflix, em 2017) como um “bonito retrato de esperança, sonhos e superação de medos”. Orlando Von Einsiedel já tinha realizado uma curta sobre o projecto, Skateistan: To Live and Skate Kabul, em 2011

“Não há maneira certa ou errada de andar de skate

O Skateistan, uma organização sem fins lucrativos, já remonta a 2007 e define-se, no site oficial, como a “combinação do skateboarding com uma educação criativa e assente nas artes, que dá às crianças a oportunidade de se tornarem líderes para um mundo melhor”. A ideia nasceu, então, há 13 anos, com a chegada do australiano Oliver Percovich a Cabul. A 29 de Outubro de 2009 abriu-se a primeira escola de skate na capital afegã, incluindo salas de aula, escritórios, um campo de desporto coberto e o primeiro skatepark do país. Seguiu-se uma segunda escola, em 2013, mais a Norte, em Mazar-e-Sharif. No Camboja, uma escola nasceu dois anos antes, em Phnom Penh; e em 2016 chegaram à África do Sul, em Joanesburgo.

Na escola de Cabul, segundo dados da organização, contam-se actualmente 656 alunos regulares, 31% dos quais meninas, 92% de origens humildes. Destes, 10% do total são crianças com deficiências, o principal enfoque da iniciativa. A ideia é gerar “espaços seguros [para estes cidadãos dos cinco aos 17 anos], onde se possam divertir, ganhar capacidades e confiança e derrubar barreiras sociais à medida que fazem novos amigos”. 

“Munidos de uma maior noção de comunidade e ferramentas para progredir académica e profissionalmente”, muitos destes jovens adultos tornam-se voluntários e colaboradores na associação. Passam então a fazer parte de uma comunidade global activa e empenhada, isto sem nunca perder de vista os valores de igualdade, educação e inclusão. “Não há maneira certa ou errada de andar de skate”, dando-se asas à criatividade e auto-expressão que não se encontram noutros desportos — até porque, no geral, o skateboarding não é uma modalidade de competição. Garante-se então que podem praticar à vez e que, acima de tudo, podem celebrar os sucessos de todos. 

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