Os anónimos cidadãos-deuses da Europa de Jacinto Lucas Pires

O escritor estreia-se na encenação do seu texto Canto da Europa. Até 26 de Janeiro, no Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa, há um teatro de qualidade musical a reflectir sobre a Europa de hoje.

Foto
Filipe Ferreira

Esteve para ser um espectáculo grandioso, numa co-produção entre os teatros nacionais D. Maria II e São Carlos na temporada 2015/16, enchendo o palco com um coro falado sobre uma partitura musical. Os coralistas do São Carlos haviam de dizer o texto de Jacinto Lucas Pires, acompanhados pela música escrita por Nuno Maló e dirigida pela maestrina Joana Carneiro, e encenados pela dupla Ana Borralho e João Galante. Só que, mesmo depois de anunciado o ambicioso projecto, a ideia perdeu-se nas trocas entre os gabinetes e ficou moribunda numa qualquer gaveta. A gaveta de onde Tiago Rodrigues, director do D. Maria II, a retirou ao perguntar a Lucas Pires se consideraria apresentar o texto (que tinha completado na altura) sob uma forma teatral. “E eu disse que sim”, conta o autor ao PÚBLICO, agora que Canto da Europa ocupa a Sala Estúdio do Nacional até 26 de Janeiro.

A aceitação implicava também Jacinto Lucas Pires estrear-se na encenação. Ele, que já escrevera vários textos para o palco, passava a ser também responsável pela forma como a palavra se levantaria em cena. E diante do seu próprio texto, escrito com a musicalidade inevitável do propósito original, a primeira questão que tomou em mãos tinha uma dimensão bastante prática: “Será possível fazer música sem música, sem instrumentos, sem um coro, sem profissionais da música?” Foi esse o desafio que Jacinto, o encenador, se colocou a partir da escrita de Jacinto, o autor, sem ter mexido numa única vírgula no texto que tinha escrito há cinco anos.

Essa qualidade musical (e extremamente visual) do texto é o motor de Canto da Europa. Interpretado por um conjunto de 12 actores, vestidos de forma idêntica, só tangencialmente identificados com personagens, aquilo que escutamos é uma narrativa de respiração literária, mas contada com uma vivacidade e uma dinâmica que só o palco permite. Há música no ritmo do débito, na gestão dos silêncios, na forma como o coro evoca o teatro clássico grego – embora evoque também as formações corais e as multidões que se expressam nas ruas. O coro, aqui, não procura tanto o uníssono, como era comum nas tragédias gregas. Em Canto da Europa, o coro “funciona um pouco por contraste – mas há um ponto de contacto que é o de lançar certos avisos”, compara o autor e encenador. “Nos outros sentidos, é um coro em que as vozes individuais o estilhaçam e o próprio coro parece não ter noção de si próprio enquanto voz única. Vi o coro mais como a representação em cena do povo de uma cidade.”

PÚBLICO -
Foto
A cenografia é sucinta, a atenção centra-se no texto Filipe Ferreira

A figura do coro remete também para uma ideia de anonimato, de dissolução da individualidade no colectivo. Esse anonimato, neste caso, leva a que acabem por emergir pequenas histórias de cidadãos comuns (de Dierdre, a rapariga que decide ser actriz a partir do momento em que vê o actor Michel Piccoli à saída de um café, a Paola, deprimida trombonista à procura do seu momento de glória e a Robert, pai de uma rapariga fugida para a Síria), narradas por todos. “Interessou-me, enquanto escritor do texto, partir das Metamorfoses de Ovídio, da ideia de como uma história se pode transmutar noutra e, no fim, sentirmos que é uma só história, um só movimento a atravessar várias vidas. Se calhar, se passarmos por todas as pequenas histórias, sentimos esse sopro a que depois os historiadores chamarão uma época ou um período.”

Centro da Europa

O período de pousio a que o Canto da Europa foi obrigado, entre o momento da escrita e a sua concretização em palco, não foi especialmente calmo no contexto europeu. Estalou o “Brexit”, as crises migratórias atingiram um pico insuportável, os nacionalismos tornaram-se ainda mais robustos e a avolumou-se a perda de pontos das democracias em favor das autocracias. Daí que Jacinto Lucas Pires entenda que o seu texto se tornou “mais urgente”. Se existe, no seu entender, um fechamento dos indivíduos sobre si, ditado pelos omnipresentes smartphones e pelos auscultadores que levantam barreiras de observação e comunicação com o mundo, também as nações se fecham cada vez mais no interior das suas fronteiras. “Isso é até mais notório hoje do que há cinco anos”, diz Lucas Pires, “quando as questões financeiras estavam mais na ordem do dia.”

Contra a alienação a que cada um voluntariamente se entrega, Jacinto Lucas Pires responde com a palavra. Daí que o dispositivo em palco seja de uma extraordinária simplicidade – 12 actores (dos mais experimentados Ivo Alexandre, José Neves, Paula Mora, Lúcia Maria, Paula Diogo e Anabela Faustino, aos estagiários Anabela Faustino, André Simões, Carolina Passos-Sousa, Diana Lara, Isaías Viveiros, Joana Pialgata e Pedro Moldão) – e concentre toda a atenção no texto. É uma forma, acredita o encenador, de reclamar a palavra como criadora de “um espaço de escuta, em que estamos todos mais uns com os outros” em resultado dessa partilha.

No fundo, pela cabeça de Jacinto Lucas Pires passa um Canto da Europa que pensa nos seus pequenos heróis como cidadãos-deuses, autores dos seus próprios destinos, potenciadores daquilo que cada um tem de único e de melhor. “O problema é que muitas vezes a Europa não é esse espaço”, reconhece. “Precisamos de uma Europa mais política, mais democrática, mais transparente, em que as pessoas sintam que as decisões dos políticos têm que ver com as suas vidas e em que se sintam representadas.” Ou seja, que em vez de habitarem um canto da Europa, os cidadãos possam, afinal, estar no seu centro.