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Arquitectura e o cinema de ficção científica

Com o vírus Star Wars a contagiar mais uma vez os cinemas em todo o mundo, chega a altura de discutir cinema, ficção científica e arquitectura.

A casa futurista onde mesas e cadeiras pairam sobre o chão polido, onde portas se abrem automaticamente com um zumbido pressurizado, é predominantemente branca, reluzente e inundada de luz artificial. Este foi por defeito o estilo adoptado pelo cinema na última metade do século passado para ilustrar um futuro não tão distante. Os cenários exteriores são caracterizados por extraordinárias praças arqueadas, sobrepostas por pontes, que se perdem no horizonte apoiadas em estruturas tubulares de vidro por onde correm elevadores em atarefadas diligências. Este é um cliché cinematográfico que se tornou previsível e que dita que nada envelhece mais rápido que o futuro. É, no entanto, cada vez menos usado.

Outro tipo de casa recorrente no cinema de ficção científica inspira-se num olhar mais retrospectivo: desde arquitectura vitoriana (em filmes como os da saga de Harry Potter, que começou em 2001) passando pelas aldeias de tijolos de barro do deserto do Norte de África (de Stars Wars - A New Hope, de 1977) ou ainda uma espécie de art déco revivalista com contornos de arquitectura brutalista (presente em A Laranja Mecânica, de 1971).

Outra visão comummente adoptada em filme é a casa modernista, real mas não muito conhecida, estranha, mas familiar o suficiente para corresponder a uma visão futurista. A Ennis House, em Los Angeles, de Frank Lloyd Wright, foi cenário de filmagens de Blade Runner (1982) e Twin Peaks (1990), entre outros.

Nos anos mais recentes acumulam-se visões cinematográficas de futuros apocalípticos, distopias, mundos onde as ruínas predominam a paisagem citadina. Ready Player One (2018) mostra um subúrbio repleto de “prédios” feitos de autocaravanas amontoadas e The Road (2009) retrata personagens que se abrigam em casas que reconhecemos como as dos dias de hoje, mas num mundo onde a civilização perdeu a habilidade de se consertar ou reconstruir. Esses lares decadentes são indicador de uma sociedade moribunda e disfuncional; os personagens não habitam, apenas se vão abrigando de casa em casa, fugindo do perigo ou buscando comida. Desta maneira, a casa perde a sua verdadeira essência – o sentimento de pertença, segurança e de lar.

Curiosamente, essa sensação de decadência – as paredes descamadas, os tijolos nus, as poças inundando o chão — tornaram-se um pano de fundo dos filmes de terror, metaforizando os interiores a um estado de decadência moral e física. Em Blade Runner, Deckard, personagem principal, persegue e executa réplicas (robôs geneticamente concebidos), ao mesmo tempo que o realizador sugere que ele próprio possa ser também uma réplica. O apartamento de Deckard surge sempre em sombra, acentuando a dúvida com uma simples sugestão visual. Esta homenagem ao género noir é ainda mais clara no bloco em que J.F. Sebastian, criador das réplicas, vive recluso. O seu grande apartamento, de tecto alto, mas negligenciado, é também um lugar de escuridão.

O cinema pode ser uma ferramenta importante em avaliar o pulso com que se encara o futuro da arquitectura a nível civilizacional. A nossa incapacidade de imaginar a estética do futuro é, em parte, resultado de nossa saturação com imagens do futuro do passado. O que nos dizem esses interiores, essas estranhas recorrências do familiar no futuro? O futurismo branco e de vidro da casa espacial está muito distante da nossa experiência quotidiana. Para nos fazer sentir verdadeiramente inquietos, o futuro precisa de acontecer em lares que reconhecemos, mas que são diferentes — decadentes ou arruinados.

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