Mag Rodrigues
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Mag Rodrigues
Conto

Quando não havia dinheiro para presentes

Resta uma fotografia minha, felicíssima, sentada no banco junto ao quadro feito pelo pai, com o bebé careca ao colo. Estava quase a completar cinco anos. Longe de saber das dificuldades dos adultos.

Na minha família, o Natal foi sempre um pretexto para se esbanjar tudo o que não tínhamos durante o ano inteiro. Talvez por isso, assim que no calendário se anunciava Dezembro, punha-me a contabilizar o tempo no sentido decrescente, ansiosa por riscar os dias que antecediam a data. A véspera de Natal era, sem dúvida, a noite mais emocionante da minha vida. Não só porque podia aceder a brinquedos inalcançáveis ao bolso do pai, como podia partilhar o entusiasmo frenético com a minha pequena irmã. Vê-la sentada no chão da sala a abrir perto de uma dezena de embrulhos, dispostos em pilha numa vocação equilibrista, fazia-me acreditar que dias generosos existiam, mesmo para famílias remediadas como a nossa.

“Antes gastá-lo aqui do que na farmácia”, dizia a mãe, depois de comprar para essa noite vários presentes muito acima do orçamento familiar. O pai não se manifestava, permitindo, num silêncio contrariado, mas cúmplice, que a mãe esbanjasse numa noite aquilo que lhe saía do pêlo num ano inteiro à chuva, à torreira do sol, como calhasse acontecer à meteorologia. Habitualmente, e graças à incapacidade da mãe para esconder embrulhos, eu já sabia o que me iria calhar nessa noite. Descobria sempre os presentes antes da data, nalgum armário da casa ou no topo do móvel da sala, onde estavam, por exemplo, uns walkie-talkies dentro da caixa ainda por embrulhar.

Penso que nunca desconfiaram que dava com os brinquedos antes de tempo e, para mim, não fazia diferença tê-los descoberto antecipadamente. Não tinha de me esforçar para mostrar verdadeiro contentamento quando desembrulhava o que já esperava, em nada diminuía o meu entusiasmo – finalmente ia poder brincar com coisas novas, e nunca seria capaz de defraudar os pais com uma reacção morna, sabia o quanto lhes tinha custado. Por isso, mesmo perante um par de peúgas às riscas, descobertas dias antes num saco, punha-me aos saltos com genuína alegria, talvez ligeiramente exacerbada, mas que não deixava de ser real.

Há, contudo, um Natal inesquecível, registado numa fotografia. Ainda antes de eu ter uma irmã e da nossa família ter uma casa só para nós. No tempo em que ainda vivíamos os três num quarto, em casa da minha avó materna. Quando o pai tinha o ofício de carpinteiro, mas perdido o emprego, e a mãe estava doente há meses, presa a uma melancolia paralisante e química. Quase não havia dinheiro para comida, muito menos para esbanjar em prendas. O pai construiu, então, um quadro grande com uma moldura de madeira e uma ardósia, mais um pequeno banco para eu me sentar e dar largas à imaginação através de um pau de giz. Não houve papel de embrulho nessa noite, apenas um lençol a cobrir o quadro, o banco e um boneco careca desencantado pela mãe, vá-se lá saber à custa de ter cortado em quê para o conseguir comprar.

Quando penso no presente feito pelas mãos do pai que, hoje sei, deviam tremer com a responsabilidade de levar às costas a família, e no bebé careca que a mãe arranjou vá-se lá saber onde, sinto uma comoção inexplicável. Talvez tenha sido o Natal mais imperfeito, e o mais inolvidável, mesmo que a distância temporal tenha apagado detalhes. Resta uma fotografia minha, felicíssima, sentada no banco junto ao quadro feito pelo pai, com o bebé careca ao colo. Estava quase a completar cinco anos. Longe de saber das dificuldades dos adultos. Uma menina, como as outras, a sorrir para o retrato, satisfeita com os seus brinquedos novos.

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