Siza Vieira sem expectativa de ver retomado projecto para a Avenida da Ponte

Plano foi abandonado em 2001, mas Nuno Grande junta-se a outras vozes que ao longo dos anos vêm defendendo a recuperação deste plano de pormenor.

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Siza Vieira não esconde a tristeza de não ter visto o projecto da avenida avançar Nelson Garrido

O arquitecto Nuno Grande, autor de um novo edifício entre a Rua do Loureiro e a Avenida da Ponte, no Porto, defende que a cidade deveria retomar o Plano de Pormenor de Siza Vieira para aquela Alameda, aberta nos anos 40, e que liga a estação de São Bento à Ponte Luís I, com as adaptações necessárias, face ao tempo decorrido desde a apresentação do projecto, no início deste século. Mas, contactado pelo PÚBLICO, o próprio Siza Vieira afirma que não tem “nenhuma expectativa” de que o município possa vir a recuperar o projecto que lhe fora encomendado por Fernando Gomes, no âmbito do Porto Capital da Cultura de 2001, mas que foi abandonado pelo executivo seguinte.

Para a cidade do Porto, diz Nuno Grande, o conjunto das obras previstas para toda aquela zona é comparável à intervenção de Siza na reabilitação do Chiado, em Lisboa, após o grande incêndio de 1988. Contudo, respondendo a algumas questões enviadas pelo PÚBLICO, o arquitecto que em 1992 foi galardoado com o prémio Pritzker admite que o actual presidente da Câmara, Rui Moreira, tocou no assunto “algumas vezes”, mas “nunca de forma concreta”, completou. 

O plano em causa nunca chegou a ser publicado em Diário da República, não tem por isso força legal no ordenamento urbanístico daquela zona, mas a sua existência – bem como a necessidade de resolver a “ferida” aberta pelas demolições feitas nos anos 40 para fazer destacar, na paisagem urbana de traço medieval, o morro da Sé e a própria Catedral – paira como um fantasma entre urbanistas e arquitectos. Nem que seja pelo peso da autoria da sua versão mais recente, e mais conhecida.

A força desse último plano de Siza – que já tinha feito um outro em 1968 - é tal, que Nuno Grande se sentiu na obrigação moral de lhe mostrar o seu projecto para a esquina entre a Rua do Loureiro e a avenida. Este era um dos pontos para onde Siza previa construções novas, aproveitando a área da ruína que lá estava mas, também, propondo, à sua frente, a implantação de um volume sobre a estação de metro (cujo desenho é, também, da sua autoria). Acontece que, como explicam Nuno Grande e o próprio Siza Vieira, há anos a autarquia vendeu a privados apenas uma parte deste terreno (a encostada à escarpa), e foi nele que se ergueu agora o monólito de betão bojardado desenhado pelo atelier Pedra Líquida.

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O novo edifício, desenhado por Nuno Grande, abre-se para o arranque da Avenida da Ponte, junto a São Bento Anna Costa

“A decisão da Câmara de vender um lote para construção que não inclui a totalidade do terreno para o remate (no extremo norte da avenida) previsto no projecto da minha autoria inviabiliza o que então foi proposto: uma construção com dois braços, sendo que um deles, elevado, seria cobertura de protecção da escada de acesso à estação do metro, contendo ainda o ascensor programado. Esse remate constituiria, juntamente com o cunhal do início da Rua Mouzinho da Silveira, a “porta” de acesso à avenida da Ponte, caracterizando a relação com a praça de Almeida Garret”, escreveu, num e-mail, o mais conhecido arquitecto português.

Siza considera assim que o “projecto do arquitecto Nuno Grande ficou condicionado por uma decisão que constitui um corte radical” face ao projecto desenvolvido em 2001. Naquele ponto, “a intervenção urbanística, nos moldes em que eu a a imaginei, foi inviabilizada”, acrescenta. Questionado pelo PÚBLICO sobre se antevê mais construções naquela zona, o autor do plano de 2001 admite que a sua expectativa é a de “venha a suceder o mesmo no remate sul da Avenida, fundamental para o acesso ao morro da Sé, de acordo com a envolvência iniciada pelo arquitecto Fernando Távora”.

Siza refere-se, neste caso, ao projecto de Távora, a Casa dos Vinte e Quatro, “reerguida” uns anos antes, no sítio onde antes existira, a poucos metros das paredes da Sé. Este gesto, mais do que reabilitar um edifício (o novo não tem essa pretensão), reabilita uma relação entre a Catedral e a envolvente, outrora apinhada de casas, como seria normal numa igreja implantada num núcleo medieval. No início deste século, num programa de televisão, com vista para uma enorme maquete de toda aquela zona do Porto, o primeiro Pritzker português relembrou a decisão dos anos 40, que em nome de um conceito de monumentalidade cara à Direcção dos Monumentos Nacionais do tempo da ditadura, e de uma necessidade de abrir o bairro da Sé, levou à demolição de dezenas de casas.

Para quem  não esteja familiarizado com o plano de Siza para a Avenida, esse programa é uma boa forma de perceber o que o arquitecto para ali previra, e as suas motivações. No projecto de 2001, para além dos remates nascente e poente no lado norte, mais próximo de São Bento, na subida para a Sé o autor apostava na colmatação urbana da ala poente, e, contrariando o que defendia em 1968, deixava parte da pedreira que hoje se vê no lado nascente sem construções, como ferida-memória daquele gesto violento dos anos 40. No lado aposto, nasceria, pela sua proposta, o Museu da Cidade, em vários volumes mais baixos, e, formando uma espécie de pórtico de acesso à catedral, edifícios de habitação, mais altos. Que, de algum ângulos, esconderiam o monumento, claro, mas criavam, em quem dele se aproximava, pela rua entre os novos prédios, um procurado efeito surpresa.

Era uma nova cidade, em cima da antiga, que a cidade nunca chegou a ver, para mágoa do seu autor. Em 2014, numa mesa redonda a propósito dos 90 anos de Fernando Távora, o outro Priztker português, Eduardo Souto de Moura, e Alexandre Alves Costa defendiam o retomar daquela iniciativa. “Aquilo é uma espécie de porta da cidade e tem um ar abandonado (...). Felizmente temos a intervenção do Távora junto à Sé, que faz uma espécie de pontuação, uma espécie de ponto e virgula porque não acaba. Não percebo porque é que esse projecto [o de Siza Vieira] foi chumbado”, questionava, então, Souto de Moura.