Opinião

2019: 50 anos da alunagem, 25 conferências do clima de atraso

A belíssima fotografia que ilustra este artigo foi tirada durante a missão Apolo 11 pelo astronauta Michael Collins, em órbita lunar a 20 de Julho de 1969. É um icónico amanhecer da Terra na Lua, um dos mais esplendorosos, entre as dezenas que foram captadas pela mão humana na sequência da exploração lunar durante o programa Apolo, entre 1968 e 1972. O primeiro amanhecer da Terra tinha sido fotografado pelo astronauta Bill Anders na véspera de Natal do ano de 1968 na Apolo 8. Os astronautas Bill Anders, Frank Borman e Jim Lovell foram os primeiros humanos a sair da órbita terrestre e a estar em órbita lunar. Como uma epifania, quando fotografavam a face oculta da Lua tiveram pela primeira vez a visão absolutamente incrível de um amanhecer terrestre – um planeta azul sobre uma Lua desolada e inóspita.

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Foto
NASA

Quando os astronautas regressaram à Terra e lhes foi perguntado o que de mais importante haviam descoberto na missão, estes responderam em uníssono – a Terra, o nosso planeta, o seu esplendor, a sua singularidade e fragilidade e o seu ineludível carácter de oásis, em contraste com uma Lua bela, desprovida de vida, e claramente hostil a esta.

O amanhecer que Bill Anders captou, confessamente por acaso, transformou profundamente a nossa visão da Terra, da sua singularidade e beleza. Esta transformação também se propagou na sociedade, mas só passados alguns anos estes amanheceres se tornaram símbolos maiores dos movimentos ambientalistas e da conservação da natureza. A fotografia de Bill Anders é, na realidade, considerada uma das mais importantes fotografias de sempre e a de maior relevância para os conservacionistas. Estas imagens têm a permanente capacidade de nos interpelar pela sua unicidade, vivacidade e vida que exibem.

Não deixa de ser curioso que a sensação de esplendor e de vida que pressentimos nesta imagem não se deva à presença directa de vida ou de animais, mas sim às nuvens e aos oceanos que sabemos constituídos pelo elemento chave da vida – a água. O que observamos é o sistema climático da Terra, no seu esplendor e complexidade, que é o principal forçador e possibilita a vida no nosso planeta.

A exploração espacial associada à ida do homem à Lua coincidiu e abriu caminho a um desenvolvimento enorme da capacidade humana para observar a Terra e, em particular, o sistema climático, através de tecnologias de satélite. A detecção remota por satélite explodiu com o programa Apolo e permite, desde então, e de modo crescente, observar e monitorizar a variabilidade do sistema climático. O período de exploração espacial fomentou também grandes avanços no domínio da electrónica e da computação, o que contribui, com os dados de satélite, para o desenvolvimento de complexos modelos de previsão do tempo e de modelos climáticos do sistema Terra.

É paradoxal que precisamente a partir da década de 60, no auge da exploração espacial e do programa Apolo, se tenha iniciado uma aceleração sem precedentes das emissões de gases de estufa e a escalada subsequente da temperatura média global. De 1961 a 2018 as emissões de dióxido de carbono praticamente quadruplicaram. A temperatura média global registou um aumento de cerca de 0,2 graus Celsius na década de 60, e nos últimos cinco anos ultrapassou um grau (em relação ao período pré-industrial), ou seja, uma anomalia da temperatura média global cinco vezes maior.

Este ano celebram-se os 50 anos da alunagem; e nestes dias pela 25ª vez os líderes mundiais reúnem-se numa COP, conferência de governança sobre alterações climáticas das Nações Unidas, para empreender acção política climática, que é decisiva para mitigar o aquecimento global e as suas consequências. As COP tiveram início em resultado da Conferência do Rio em 1992, cujo legado salientava a premência de se evitar a crescente influência do homem no clima, através da mitigação de emissões de gases de estufa, a necessidade de uma visão e tomada de decisão global comum, mas com responsabilidades diferenciadas por parte dos estados emissores, e, por último, a necessidade de um mecanismo de ajuda dos países desenvolvidos versus os países em vias de desenvolvimento.

Nos últimos anos, meses, semanas, diversos estudos (por exemplo, Emissions Gap Report 2019; Special Report Global Warming of 1.5 ºC) alertaram para a imperiosa necessidade de se diminuírem as emissões de gases de estufa no período de uma década. O programa Apolo emergiu de um repto, cientificamente fundamentado, do Presidente Kennedy, para que numa década o homem pudesse aterrar na Lua e regressar à Terra em segurança. Na sua mensagem especial ao Congresso sobre as necessidades urgentes nacionais, Kennedy revestiu a ida à Lua de uma forte carga – “which in many ways may hold the key to our future on Earth” (“que de muitas formas pode conter a chave do nosso futuro na Terra”).

Após 25 COP, tal como nos anos 60, em que os cientistas convenceram os políticos de que era possível levar um homem à Lua, será que em 2019 os investigadores e a sociedade, como um todo, conseguirão convencer os decisores políticos de que urge uma acção climática global responsável? E de que muito há a fazer para mitigar as alterações climáticas?

O amanhecer da Terra na Lua transmite-nos a força do engenho humano, do desenvolvimento tecnológico e a nossa capacidade inventiva e, ao mesmo tempo, expõe a vulnerabilidade e perigo a que as actividades humanas votaram o próprio sistema climático. Neste conturbado e escasso tempo é, mais do que nunca, imperioso resgatar o valor simbólico deste Amanhecer Terrestre e apropriarmo-nos da expressão de Kennedy para o combate às alterações climáticas.

Este artigo surgiu a 16 de Novembro de 2019 no âmbito das comemorações dos 50 anos da alunagem no Centro Cultural de Belém, organizadas por Joana Lobo Antunes e João Retrê