Há três filmes portugueses de animação na corrida aos Óscares

Tio Tomás – A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, Agouro, de Vasco Sá e David Doutel, e Don’t Feed These Animals, de Guilherme Afonso e Miguel Madaíl de Freitas, são os títulos que esta semana começam a ser votados em Hollywood.

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Tio Tomás – A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa DR
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Agouro, de Vasco Sá e David Doutel DR
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Don’t Feed These Animals, de Guilherme Afonso e Miguel Madaíl de Freitas DR

Já se sabia que A Herdade, de Tiago Guedes, é este ano a longa-metragem de ficção portuguesa candidata à nomeação para os Óscares de Hollywood. Mas nesta corrida que na já longa história dos prémios da Academia americana nunca sorriu ao cinema português há três outros filmes a representar o país, provindos da área da animação. São eles Tio Tomás – A Contabilidade dos Dias, de Regina Pessoa, Agouro, de Vasco Sá e David Doutel, e Don’t Feed These Animals, de Guilherme Afonso e Miguel Madaíl de Freitas.

O processo de selecção começa já esta sexta-feira, com uma primeira fase de votação, ainda exclusivamente reservada aos membros do sector da animação, que decorrerá até 10 de Dezembro, sendo os resultados da primeira shortlist de dez filmes divulgados no dia 16. Num segundo momento, na segunda semana de Janeiro, serão nomeados os cinco títulos que irão disputar a cobiçada estatueta, a conhecer a 13 de Janeiro. A cerimónia da 92.ª edição dos Óscares realizar-se-á a 9 de Fevereiro no Dolby Theatre, em Los Angeles.

São bem diferentes as circunstâncias em que cada um dos três candidatos está nesta corrida. Para Regina Pessoa, e para o produtor Abi Feijó (Ciclope Filmes), é a terceira vez que tentam chegar aos nomeados. As duas primeiras aconteceram com Histórica Trágica com Final Feliz (2006), que atingiu a primeira shortlist de dez, e com Kali, o Pequeno Vampiro (2012), que, não tendo chegado aos Óscares, conseguiu a nomeação para os Annie Awards, os prémios da divisão de Hollywood da Associação Internacional de Cinema de Animação (Asifa), em 2013. Também Tio Tomás - A Contabilidade dos Dias está este ano de novo nomeado para estes prémios, soube-se no início desta semana.

Diferentes vias de acesso

Cada um dos três filmes de Regina Pessoa chegou à lista de pré-candidatos à nomeação para a nomeação, digamos assim, através dos prémios conquistados em festivais que dão entrada directa nesse processo. No caso de Tio Tomás – A Contabilidade dos Dias, foram os grandes prémios conquistados nos festivais de Chicago, nos Estados Unidos, e Anima Mundi, no Brasil, e o Prémio Especial do Júri em Annecy, França, que garantiram o acesso.

Agouro entrou na corrida por via do grande prémio conquistado no festival de Busan, na Coreia do Sul. Já Don’t Feed These Animals chegou lá por outra porta: a exibição do filme, durante uma semana, num cinema na Califórnia.

As expectativas dos autores e produtores de cada um destes filmes são bem diferentes. David Doutel explicou ao PÚBLICO que teve conhecimento de que Agouro tinha entrado na corrida, mas que nem ele nem Vasco Sá tinham feito nada para que isso acontecesse. “Foi uma entrada automática, por via do prémio em Busan; não fizemos nada, nem estamos a fazer”. Pela razão simples de que esse não é um território que lhes interesse. “O nosso filme já fez o seu percurso pelos festivais, onde conquistou dezena e meia de prémios e menções”, acrescenta o realizador. “Os Óscares são um processo que não nos interessa, nem nos agrada”, e não apenas porque essa é uma aposta para a qual não têm “nem meios, nem fundos”. O cinema de David Doutel e Vasco Sá é de outro campeonato, e os realizadores estão já a trabalhar numa nova curta-metragem de animação tradicional, Garrano, que deverá ficar pronta em 2021.

O direito a sonhar

Consciente também do difícil caminho para chegar ao Dolby Theatre está Guilherme Afonso, co-realizador de Don’t Feed These Animals. O filme — a primeira experiência na curta-metragem da empresa Nebula Studios, fundada em Lisboa em 2008 e que até agora tem sobretudo trabalhado em publicidade e entretenimento — entrou na corrida dos Óscares depois de ter sido exibido entre 13 e 20 de Setembro no Monica Film Center, em Santa Mónica.

“Chegar à nomeação, claro que seria incrível, mas muito difícil. A concorrência é muito forte e, acima de tudo, os membros da Academia trabalham nos estúdios que fazem os filmes com os quais estamos a concorrer”, explica Guilherme Afonso. E cita o caso de estúdios como a Disney ou a Dreamworks, nos quais esses membros irão naturalmente votar. “Não sobra muito para o resto e, obviamente, é mais difícil a filmes de estúdios desconhecidos chegarem lá”, acrescenta o fundador e realizador da Nebula. “Ainda assim, penso que seja possível entrarmos na shortlist de dez. Seria algo super importante para a Nebula, tornaria tudo muito mais fácil no que toca a arranjar financiamentos para os nossos projectos”, diz Guilherme Afonso.

A mesma expectativa, agora reforçada pela acumulação da experiência passada, têm Regina Pessoa e Abi Feijó. Além da qualificação automática por via dos prémios já referidos, Tio Tomás e a Contabilidade dos Dias foi também exibido na última semana de Setembro em salas de Los Angeles e de São Francisco, onde a realizadora-animadora explicou a sua arte e o seu método de trabalho. Esta produção da Ciclope Filmes pode também usufruir da mais-valia proporcionada pelo trabalho conjunto com o prestigiado Office National du Film (ONF), do Canadá, e com o estúdio francês Les Armateurs, co-produtores da obra.

“A minha relação com a Academia [de Hollywood] não é de hoje. Mesmo se se trata de alguém de um pequeno país low profile como Portugal, sem reputação histórica em animação, a minha relação com o público americano tem vindo a crescer lentamente”, diz Regina Pessoa, que em 2018 se tornou também membro da Academia.

Confiante na coerência e consistência do seu trabalho, a autora não quer, apesar de tudo, “alimentar expectativas excessivas. “Os Óscares são uma festa da indústria, para celebrar a indústria [americana], e aí as produções da Disney, da Pixar e outras partem sempre à frente”. Mas reserva-se o direito de “desejar, e de sonhar”. Até porque, nota, a Academia tem mostrado nos últimos anos abertura a outras estéticas, “convidando a uma maior participação do exterior e quebrando um pouco aquele ciclo fechado de Los Angeles”.