Editorial

Um Outono em chamas

Poucos – com a excepção clara de Hong Kong - levantam bandeiras ideológicas neste Outono em chamas, a maior parte só quer mesmo viver melhor.

Olhar para o mapa neste Outono é olhar para os pontos que assinalam os países onde há gente na rua a protestar contra quem os governa. Cada país tem a sua história, regimes diferentes, políticos diferentes, mas o facto de partilharem o mesmo momento histórico, de coincidirem nas regiões onde sucedem, levam-nos a questionar se é possível uma leitura comum que nos ajude a ter uma compreensão para lá de cada caso.

Comum a quase todos os locais revisitados hoje pelo PÚBLICO é os protestos serem organizados nas redes sociais e pelas aplicações de mensagens, acelerando o tempo de resposta das massas, iludindo o controlo das forças policiais ou militares. Mas há muito esgotado o tempo do deslumbre tecnológico por estas novas formas de contestação, o que sobrevém, em muitos destes movimentos, é que a sua origem inorgânica os torna desprovidos de lideranças óbvias, de um programa claro e complica qualquer tentativa de encetar formas de diálogo através das quais se possam estabelecer consensos que desbloqueiem soluções.

A luta política que se organiza digitalmente cria desafios inéditos para as estruturas representativas de cada país. Não é de admirar que no Chile se tenha procurado responder à contestação com medidas semelhantes às que Macron usou para os “coletes amarelos”. Estamos ainda às apalpadelas e ninguém está livre de poder vir a enfrentar este problema.

Com os telemóveis na mão, estão populações que através deles podem contactar com um mundo de estabilidade e de prosperidade que lhes parece estar vedado. Há até quem tenha melhorado a sua situação nos últimos anos, como a Bolívia ou o Chile, saído de situações de guerra, como o Iraque, mas a comparação com os que vão à frente em qualidade de vida encurta a paciência, especialmente quando os governos continuam minados pela corrupção e são incapazes de estabelecer serviços públicos capazes, em áreas cruciais como a saúde, educação ou transportes.

E depois há as desigualdades que se aprofundam dentro de cada sociedade, continuando a revelar-se como uma das principais falhas de um capitalismo que, caída a utopia igualitária comunista, era a melhor promessa de progressão que estas sociedades conheciam. Poucos – com a excepção clara de Hong Kong - levantam bandeiras ideológicas neste Outono em chamas, a maior parte só quer mesmo viver melhor. Que esta ânsia e estes protestos avivem conflitos étnicos e religiosos e coloquem em causa a democracia, é a prova de que vivemos tempos que ameaçam profundamente a frágil estabilidade destas sociedades, à procura de respostas urgentes.