Com Deus, contra o comunismo e à espera de 500 mil assinaturas, Bolsonaro criou o seu partido

Presidente brasileiro deixou o Partido Social Liberal, com o qual se elegeu. Mas persistem muitas dúvidas sobre a viabilidade do seu Aliança pelo Brasil. Uma delas é se conseguirá concorrer às eleições municipais de 2020.

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Jair Bolsonaro na apresentação do novo partido Joedson Alves/EPA

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, lançou oficialmente nesta quinta-feira o seu novo partido, Aliança pelo Brasil, com um forte discurso a favor dos valores cristãos, contra a corrupção e contra o comunismo.

Na convenção fundadora do partido, realizada num hotel de Brasília, o Aliança foi apresentado como um partido “conservador e soberanista”, “contra as falsas promessas do globalismo” e a favor “das tradições históricas, morais e culturais da nação brasileira”, relata o jornal Folha de São Paulo.

Bolsonaro abandonou o Partido Social Liberal (PSL), com o qual se candidatou e ganhou as eleições presidenciais de 2018, aproveitando um forte sentimento anti-Partido dos Trabalhadores e anti-Lula da Silva e uma grande popularidade da operação anti-corrupção Lava-Jato. O PSL tornou-se o segundo maior partido com representação parlamentar, quando antes era praticamente insignificante, mas há inúmeras suspeitas de corrupção no uso de fundos públicos eleitorais, apresentando falsos candidatos ou candidatos inviáveis, simplesmente para ficar com o dinheiro. Este foi o motivo apresentado por Bolsonaro para se afastar do partido.

Bolsonaro disse esperar que a maioria dos 53 deputados e três senadores do PSL o sigam para o Aliança.

Mas esta saída de Bolsonaro do partido que o apoiou é arriscada. Sem saber com que apoios financeiros pode realmente contar, nem qual a implantação que pode ter a nível nacional, e com prazos apertados para concorrer às eleições municipais do próximo ano. O Aliança pelo Brasil terá de conseguir 500 mil assinaturas até ao fim de Abril de 2020 para poder registar-se para as municipais de Outubro.

“Estão a fazer um acto um bocado kamikaze”, comentou à Reuters Daniel Falcão, professor de Lei Eleitoral na Universidade de São Paulo. “Não me parece que seja possível, terão de trabalhar muito para conseguir essas assinaturas a tempo de serem analisadas”, afirmou.

Segundo a lei em vigor, as assinaturas terão de ser recolhidas num suporte físico, ou seja, em papel. É uma mobilização diferente do que a campanha de Bolsonaro está habituada a fazer, que é gerar entusiasmo nas redes sociais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no entanto, não autoriza assinaturas digitais.

Jair Bolsonaro, que será o presidente do partido – e o seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, o primeiro vice-presidente –, já anunciou que se o TSE não autorizar assinaturas digitais o Aliança pelo Brasil não concorrerá às eleições municipais, porque não haverá tempo suficiente para o processo de recolher e verificar as assinaturas.