Jornalista que denunciou as condições de refugiados em Manus está livre na Nova Zelândia

O convite para participar num festival literário em Christchurch foi essencial para que Behrouz Boochani deixasse a Papuásia-Nova Guiné e obtivesse um visto de um mês para a Nova Zelândia.

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Behrouz Boochani está na Nova Zelândia para falar do livro que escreveu em mensagens de WhatsApp DR

Behrouz Boochani, o jornalista refugiado que denunciou condições desumanas para os requerentes de asilo na ilha de Manus, na Papuásia-Nova Guiné, e da política australiana em relação às “chegadas ilegais”, está livre: após seis anos e três meses preso em Manus, aterrou na Nova Zelândia. “Só quero estar em algum lado em que seja uma pessoa, não só um número, não só uma etiqueta, ‘refugiado’”, disse ao diário britânico The Guardian.

Boochani documentou as condições no campo. Como modo de lidar com as condições precárias, para se manter saudável, fez o que sabia: foi jornalista. Escreveu, mensagem após mensagem de WhatsApp para um amigo, um livro sobre as condições na ilha e o sistema, destinado a semear competição entre os refugiados, obrigando-os a disputar bens raros. O livro Sozinho nas Montanhas (Ed. Casa das Letras), venceu, entre outros, o maior prémio literário da Austrália. O título é de um provérbio curdo – Behrouz Boochani é iraniano e curdo, e foram as suas reportagens e o seu apoio à independência do Curdistão que o levaram a fugir do Irão – e acabar preso já perto do local em que pensava poder ter refúgio.

Durante muito tempo foi reduzido a um conjunto de letras e números: MEG45, contou numa entrevista, também por WhatsApp, ao PÚBLICO.

“Depois de mais de seis anos, estou muito, muito cansado”, disse agora Boochani ao Guardian, já na Nova Zelândia. “Toda a gente em Manus tem tantas memórias dolorosas, nunca podemos deixá-las naquela ilha”, disse. “Mas estou tão feliz: sinto-me livre.”

O campo de refugiados de Manus, na Papuásia-Nova Guiné, e o da ilha de Nauru, na Micronésia, têm sido os exemplos mais terríveis da política de refugiados da Austrália, que paga milhares de dólares a estes países para prenderem as pessoas que tentam chegar de barco à Austrália, enquanto são decididos os pedidos de asilo. Ambos os campos têm sido criticados pelas suas terríveis condições, e foram encerrados.

O centro de Manus foi fechado no final de 2017, e Boochani, entre mais de 300 pessoas, levados para uma prisão, até que foi depois levado para outro centro na capital, Port Moresby. Cerca de três quartos dos detidos enviados pela Austrália para a Papuásia-Nova Guiné desde 2012 saíram do local. Sete pessoas morreram enquanto estavam detidas – mortas por guardas, falta de cuidados médicos, ou suicídio. Ainda hoje, 46 homens continuam na prisão de Bomana, na capital.

A vida de Boochani não está, no entanto, nada decidida: está na Nova Zelândia para participar num festival literário em Christchurch. A ajuda de organizações como o ACNUR e a Amnistia Internacional foi crucial para conseguir que viajasse.

O pedido de Boochani ser recebido nos EUA no âmbito de um acordo entre o então Presidente norte-americano Barack Obama e o então primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull foi aceite, mas o processo foi tão lento que decidiu sair e o modo encontrado foi este. O facto de ter saído de Manus poderá fazer com que perca o direito a ir para os EUA, nesse caso, Boochani tem esperança que haja um outro país que aceite recebê-lo.