Fernando Tordo canta no São Carlos com a Sinfónica e Jorge Costa Pinto

A Orquestra Sinfónica Portuguesa aventura-se na música popular, pela mão de Fernando Tordo e do maestro Jorge Costa Pinto. Este sábado, no Teatro Nacional de São Carlos, às 21h.

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Fernando Tordo e o maestro Jorge Costa Pinto no exterior do Teatro Nacional de São Carlos FRANCISCO ROMÃO PEREIRA

Um ano depois de ter surgido a ideia, eis que se concretiza: Fernando Tordo vai ser o primeiro cantor da chamada música popular a subir ao palco do São Carlos para cantar o seu repertório acompanhado pela Orquestra Sinfónica Portuguesa daquele teatro de ópera. A proposta, que teve bom acolhimento por parte da Orquestra (com Joana Carneiro como maestrina principal) e da Opart, partiu do maestro Jorge Costa Pinto, ligado ao jazz (foi um dos pioneiros do Hot Clube) e à música ligeira, mas também à música de câmara e à música sinfónica. E tinha por objectivo possibilitar que a Sinfónica do São Carlos fizesse também concertos com cantores da música popular. Fernando Tordo foi a primeira escolha, mas a ideia é que outros se sigam, como o cantor já dissera ao PÚBLICO: “É um abrir caminho para toda a gente. Para que outros possam fazer o mesmo.”

Musicar os poetas

O concerto, marcado para este sábado, às 21h, tem um foco essencial, como diz Fernando Tordo: “O projecto, desde o início, era fazer este concerto em torno da minha música, aproveitando uma altura em que eu estava a fazer mais canções para novo repertório. E com um processo que eu nunca tinha utilizado: ir buscar grandes poetas portugueses e musicá-los. Porque depois de trabalhar com o José Carlos Ary dos Santos, passei eu a escrever as minhas próprias canções.”

Assim, Tordo musicou António Botto, Antero de Quental, António Feijó, Carlos de Oliveira, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello e ainda José Jorge Letria e Tiago Torres da Silva. “O Tiago escreve para música, enviei-lhe os temas musicais (que são dois) e ele escreveu para eles. O José Jorge fui eu que lhe pedi, porque sabia que ele gostava muito de fazer, numa canção, uma homenagem ao Jorge de Sena e à Sophia de Mello Breyner. Ele escreveu e eu musiquei.”

Um quarteto de jazz

Jorge Costa Pinto, diz Tordo, é que escolheu os orquestradores: “Ele entendeu que, em vez de estar a orquestrar 17 ou 18 temas, independentemente de o poder fazer muito bem, podia distribui-los por mais quatro músicos: Luís Figueiredo, o jovem que fez a orquestração da música que ganhou o Festival da Canção com o Salvador Sobral, Amar pelos dois; Lino Guerreiro, com quem eu trabalho com frequência; Pedro Duarte; e Daniel Bernardes, que também vai estar em cena. Porque a orquestra, também por proposta do maestro, vai integrar um quarteto de jazz.”

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Um quarteto habituado a trabalhar com o maestro Jorge Costa Pinto, como este explica: “É gente que trabalha comigo. O Daniel Bernardes, que é um bom pianista de jazz; o João Espadinha na guitarra; seria o Nelson Cascais no contrabaixo, mas terá um substituto; e o Michael Lauren, que é o meu baterista, um americano. Um quarteto muito interessante.” A par das canções, o concerto terá mais três instrumentais, diz Jorge Costa Pinto. “Um concertino de piano como orquestra, onde tocará o filho do Fernando, o pianista Filipe Manzano Tordo, haverá uma outra peça e no início vamos fazer, com uma rapsódia, uma homenagem aos compositores do passado: o Raul Ferrão, o Raul Portela e Artur Fonseca, com Coimbra, Lisboa antiga e Uma casa portuguesa.”

Transmitir emoção

Já nas canções, a par das novas, foram também orquestradas algumas antigas, diz Fernando Tordo: “Estrela da tarde, Cavalo à solta, Adeus tristeza, Só ficou o amor por ti, A invenção do amor (que teve, no original, uma orquestração de maestro canadiano que viveu muitos anos em Portugal, Dennis Farnon), vou cantar uma coisa muito interessante do Ary dos Santos que é um poeminha anterior a eu tê-lo conhecido, de 1965 ou 1966, que se chama O meu é teu, e a Tourada, a fechar.”

Entre os poetas musicados agora por Fernando Tordo, há um cujo poema já teve outras roupagens musicais: Carta a Ângela, de Carlos de Oliveira. “Já tinha sido musicado pelo Luís Cília e já foi também cantado em fado tradicional”, diz Tordo. “E eu dei-lhe agora um outro tratamento, porque ouvindo este poema fica-se com um apetite à língua portuguesa absolutamente extraordinário. Não é pela cantiga, é pelo que isso diz ao público. E eu acho importante transmitir essa emoção.”