Opinião

Estão a chegar os anos 20, e vamos querer mais tempo

Nos anos 20 procuraremos algo que a evolução da tecnologia não consegue oferecer, mais tempo. E quereremos mais tempo.

Se nos últimos anos temos assistido ao surgimento de diversas inovações tecnológicas, que prometem mudar o nosso dia-a-dia, na próxima década elas irão mesmo fazê-lo. A década de 20 será marcada por uma transição definitiva para o digital e para as tecnologias de inteligência artificial que permitirão que tenhamos um estilo de vida mais confortável e ocioso, em que o acesso às experiências será cada vez mais valorizado, em detrimento da posse de bens. A tecnologia será utilizada para termos mais conforto e mais tempo livre.

Os anos 20 do século passado foram caracterizados pela euforia pós-primeira Guerra Mundial, onde as grandes inovações, nomeadamente a aviação comercial e o aumento exponencial de automóveis, se começaram a massificar. A “nossa” década 20 promete também ser marcante na história ainda recente do séc. XXI. Muitas das tecnologias emergentes nos últimos anos vão começar aos poucos a vulgarizarem-se no nosso quotidiano.

Os dados, que têm adquirido uma relevância cada vez maior na economia contemporânea, vão progressivamente ter um valor indispensável para qualquer organização. Com a evolução da IoT (Internet of things – “Internet das coisas”), existirão dispositivos ligados à web constantemente a produzir dados um pouco por todo o lado, que quando sistematizados, podem ser bastante relevantes para quem os analisar.

Em 1906, um proeminente matemático inglês, Francis Galton, observou numa feira que uma multidão quase acertou o peso exato de um boi (errou por menos de 1%), com a média de palpites de cada uma das pessoas presentes, quando um conjunto de especialistas falhou por larga margem. A esta observação, o matemático chamou de “a sabedoria das multidões”, que mostra que em diversas situações, uma multidão de leigos consegue efetuar uma previsão com mais exatidão do que peritos na área. Estatisticamente, quantas mais opiniões houver, a sua média irá convergir para o resultado certo, mesmo que o palpite ou observação, seja feita de forma empírica. No livro “Wisdom of Crowds” de James Surowiecki, o jornalista mostra como esta simples ideia é hoje em dia aplicada em várias áreas de negócio.

Na economia, a mesma ideia também pode ser aplicada, com a vantagem de termos o suporte da inteligência artificial e das técnicas e algoritmos de Big Data. Com a quantidade gigantesca de dados que as empresas, plataformas e aplicações terão ao seu dispor, os nossos gostos, comportamentos, hábitos de consumo e expectativas vão ser previstos com um grau de precisão bastante grande.

Nos próximos anos, a economia será definitivamente orientada por dados, pois será através da análise destes grandes conjuntos de dados, que as empresas poderão adquirir vantagens competitivas num mercado cada vez mais exigente e com as expectativas mais elevadas. Viveremos numa economia de vigilância, onde toda a informação que trocamos  e possuímos, é  recolhida e controlada na economia, sendo o nosso comportamento enquanto consumidores e cidadãos, controlado por essa análise de vigilância feita por algoritmos de grande volume de dados.

A década de 20 será também caracterizada por uma massificação dos carros movidos a energia elétrica, e progressivamente o abandono da necessidade de um condutor. As pessoas passarão a ser apenas passageiros dentro das suas viaturas, o que levará a que haja mais partilha dos veículos com outras pessoas, levando a uma diminuição gradual dos carros, em particular dentro das cidades. Com a significativa redução de veículos que circularão nos centros das cidades, e com a facilidade com que se poderão estacionar estes veículos em parques automóveis, também eles completamente automatizados, a arquitetura urbana mudará por completo.

As máquinas com inteligência artificial permitirão também otimizar os processos de produção, de distribuição e até de entrega, que beneficiará um mercado cada vez mais exigente e com a expectativa sobre os produtos e serviços cada vez mais elevada. A inteligência artificial, que estará cada vez mais presente no quotidiano das pessoas, irá ter um impacto na forma como realizamos as nossas tarefas, e isso permitirá que todos nós tenhamos um estilo de vida mais confortável, ocioso e com mais tempo, que será uma prioridade para o ser humano, como temos assistido com a nova geração millennial, já orientada a esses valores.

O paradigma do trabalho mudará significativamente nesta década. Em particular, na área tecnológica e nas novas profissões onde se trabalhará semanalmente menos horas. Como ainda recentemente se viu numa experiência efetuada pela Microsoft no Japão, a produtividade aumenta com menos horas de trabalho, e a felicidade dos funcionários, naturalmente, também.

Nos anos 20 procuraremos algo que a evolução da tecnologia não consegue oferecer, mais tempo. E quereremos mais tempo. Mais tempo para viajar, para estar com a família, para a realização de novas experiências, e para isso não teremos tempo a perder. Os millenials ditarão cada vez mais os novos padrões e tendências de mercado. Nativos tecnológicos e digitais, com alto poder aquisitivo, serão o grande segmento consumidor nos anos 20. Consequentemente, os modelos de negócio por subscrição continuarão a sua ascensão na economia mundial. A subscrição de vários serviços será algo comum nos próximos anos para qualquer pessoa. As novas gerações não quererão perder tempo a resolver um problema, particularmente algo que pode ser contratado por um simples serviço.

A antecipação do futuro sempre criou muita apreensão. Mas, como disse Einstein: “Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais”. E, acrescento, será seguramente um futuro melhor.