O que eles deixaram no manicómio (III)

A última viagem do capitão de longo curso

Um ano depois de ter sido internado no Manicómio Bombarda, Manuel de Avelar Rodrigues consegue que lhe devolvam a caneta de tinta permanente. Com ela escreverá centenas de linhas sobre a sua viagem a bordo do Angra. Pode uma travessia de barco enlouquecer?

Quando era criança, Manuel fugia das aulas. Mesmo com a escola primária ao pé de casa, mesmo com “a criada” que os pais mandavam para o “acompanhar”, conseguia escapar-se. “Metia-se em qualquer barco que encontrasse livre (fosse ele de quem fosse) e ia para o alto-mar sem temer coisa nenhuma. (...) Voltava molhado e cheio de frio.” Outras vezes, não aparecia à hora das refeições em família, porque andava pelos campos “aos ninhos”. Acontecia-lhe dormir “em palheiros e casas em ruínas”. “A casa, chegava sempre satisfeitíssimo com as suas aventuras.”