Francisco Romão Pereira
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Francisco Romão Pereira

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Web Summit: vendedora de ilusões

A Web Summit não é mais que uma espécie de centro de turismo tecnológico. Não deixa de ser turismo porque não produz nada.

Segundo dados da Informa D&E, noticiados no transacto ano, cerca de uma em cada três startups portuguesas encerra ao fim de um ano. Entre outros factores, é apontada a falta de financiamento como um dos principais constrangimentos para o sucesso destas microempresas. Mas, afinal, o que nos traz a Web Summit? Além de um mediatismo vazio de conteúdo, o que pode realmente oferecer uma conferência que apresenta oradores como Tony Blair ou Ronaldinho? Ou mesmo o negociador da União Europeia para o “Brexit"?

Desde o início deste evento em Portugal questiono qual a sua real utilidade se não lavar a cara suja do capitalismo selvagem e pintá-lo como se de uma geração cool se tratasse. Actualmente, é cool ir à Web Summit, embrenhar-se por aplicações adentro e expurgar todos os males do mundo a partir de um computador. Vendem-se as mais burlescas ilusões de que se não formos nós a criar o nosso emprego ou a desenvolver a nossa microempresa (de preferência tecnológica) estaremos condenados para sempre a viver à luz de relacionamentos laborais arcaicos e caducos que mais não fazem do que contribuir para o desperdício de tempo, enquanto podíamos estar a realizar algo de mesmo importante para o planeta, para o mundo e para a sociedade.

É deste tipo de ilusões que se pretende alimentar a sociedade — aponta-se o caminho do instantâneo, do digital, porque o resto dá muito trabalho e não releva. Não ouvi ninguém na Web Summit a criticar as políticas de baixos salários praticadas pela Google ou pelo Facebook, dirão que é outra forma de trabalho e que, portanto, o conceito de remuneração será diferente. Mentira, onde há trabalho há necessariamente direito a um salário, a condições laborais e a uma relação laboral entre patrão e trabalhador. A Web Summit ajuda a mitificar a ideia de que não existem relações laborais como as que até aqui tinham lugar, até porque devemos ser cada vez mais flexíveis, a saltar de um desafio para o outro. Dizem eles desafio, dizemos nós explorações.

Na Web Summit não se paga a quem ajuda a construir o evento, são voluntários. Mas porquê voluntários? Não terão receita para poder pagar a trabalhadores? Ou estamos perante mais uma forma de exploração, desta feita dupla, pois consegue-se explorar pessoas economicamente, explorando o seu lado mais fantasioso, aquele que as leva a acreditar que estão realmente a contribuir para algo que pode fazer a diferença nas nossas vidas.

As startups portuguesas não têm conseguido vingar porque, mais uma vez, estão a competir com o grande capital, ou seja, se te endividas ou gastas o pouco que tens na criação de uma destas microempresas tecnológicas, és rapidamente arredado por aquelas que realmente contam com financiamento de milhões para levar a cabo o seu objectivo. Com isto, fizeram-te perder um ano ou dois da tua vida, vendendo-te a ideia de uma economia tecnológica florescente que, no fundo, apenas floresce para os mesmos de sempre e, quiçá, roubaram-te uma ou outra ideia que ruma direitinha para o seu sucesso. Não seria inédito.

A Web Summit não é mais que uma espécie de centro de turismo tecnológico. Não deixa de ser turismo porque não produz nada.