Elena Ferrante tem um novo romance e os direitos estão a ser negociados para Portugal

La vita bugiarda degli adulti foi colocado à venda à meia-noite em Itália mas ainda não tem data de publicação em Portugal. A editora Relógio D’Água, que edita as obras da autora em Portugal, está ainda negociar os direitos.

,Meu amigo brilhante
Foto
O novo romance de Ferrante chega cinco anos depois da publicação em Itália do último volume da tetralogia A Amiga Genial MIGUEL MANSO

Um novo romance de Elena Ferrante intitulado La vita bugiarda degli adulti chegou esta quinta-feira às livrarias italianas e ainda não tem data de publicação em Portugal. Francisco Vale, da Relógio D’Água, que edita a obra desta autora, está a negociar os direitos para o nosso país.

O livro, que chega cinco anos depois da publicação em Itália do último volume de A Amiga Genial, foi colocado à venda em Itália à meia-noite e teve direito a eventos como aqueles que desde 1997 aconteceram com o lançamento dos livros da saga Harry Potter, de J.K Rowling​. Houve noites Ferrante em várias cidades italianas com as livrarias abertas para a compra de livros.

A acção de La vita bugiarda degli adulti , que ainda não tem título em português, mas pode ser traduzido por  A Vida Mentirosa dos Adultos, decorre em Nápoles, tal como acontecia na tetralogia de A  Amiga Genial, mas agora passa-se numa das zonas burguesas da cidade. O romance, tal como os anteriores, é também narrado na primeira pessoa. E, pela maneira como termina, quem já o leu diz que poderá também vir a ser uma saga com vários volumes.

A personagem principal de La vita bugiarda degli adulti  é  Giovanna Trada. Tem 12 anos no início da narrativa e 16 no seu final. É filha única e os seus pais são professores do liceu. A mãe, Nella, de latim e grego, e o pai, Andrea, de história e filosofia. São de esquerda, não baptizaram a filha e são os mais escolarizados das suas famílias. E há ainda a personagem da tia Vittoria, empregada doméstica em casas de ricos, de quem a família se afastou.

Due anni prima di andarsene di casa mio padre disse a mia madre che ero molto brutta” (dois anos antes de sair de casa, o meu pai disse à minha mãe que eu era muito feia), é a primeira frase do livro onde uma adolescente percebe que o mundo dos adultos, que ensinam aos mais pequenos que não se deve mentir, é afinal cheio de falsidades.

PÚBLICO -
Foto
Edição italiana do novo livro de Elena Ferrante

Na recensão do Corriere della Sera,  Paolo Di Stefano considera que a inspiração para este ponto de partida pode ter vindo de Madame Bovary, o romance de Gustave Flaubert onde Emma também diz que a filha é feia. O crítico lembra que, em 2005, Ferrante se referiu à força devastadora das palavras de Bovary no romance do escritor francês.

No jornal italiano La Republica, o escritor e dramaturgo Stefano Massini comparou este romance a um outro do mesmo Gustave Flaubert, A Educação Sentimental, dizendo que La vita bugiarda degli adulti lhe parece uma educação sentimental, na qual o personagem Fréderic Moreau (do romance de Flaubert) é declinado no feminino e o bisturi é enterrado entre as hipocrisias da moderna burguesia intelectual napolitana.

Só a apresentação do livro à imprensa já foi uma acção de marketing. Em Itália, apenas alguns jornalistas e críticos literários receberam há um par de dias uma versão digital do livro por correio electrónico, era quase uma hora da manhã, segundo contaram nos textos que escreveram posteriormente. Para lerem o ficheiro de 303 páginas precisavam também de ter uma chave que desencriptava o texto dada pelos assessores de imprensa da editora. E, por fim, o editor do romance em Itália enviou-lhes uma mensagem onde dizia que a leitura das 3030 páginas se fazia em cinco ou seis horas. Os jornalistas passaram a noite a lê-lo para que os jornais conseguissem publicar as recensões ao livro ao mesmo tempo que este chegou às livrarias.

Elena Ferrante é um pseudónimo de um autor ou de uma autora que desde o início acredita que os livros, se forem bons, bastam-se a si mesmos e não necessitam dos autores para a sua promoção. Nunca participou em debates ou conferências, não foi receber prémios nem apareceu em programas de televisão. As entrevistas que deu foram feitas por correio electrónico e respondidas por escrito. Com a publicação deste livro continuará a proceder assim.

 A única diferença é que, em 2016, o jornalista italiano Claudio Gatti publicou no New York Review of Books e no Il Sole 24 Ore um artigo onde revelava a possível identidade da escritora Elena Ferrante. Através de uma investigação que o levou aos pagamentos feitos pela editora o/e chegou ao nome da tradutora Anita Raja, mulher do escritor Domenico Starnone, autor que há anos entrava nas listas daqueles que a imprensa considerava suspeitos de serem a verdadeira Elena Ferrante.