Katherine Maher: “Temos de ir devagar e construir coisas que durem”

Presidente da Wikipedia deu a enciclopédia online como um exemplo de colaboração que pode ser alargada aos grandes problemas globais.

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Katherine Maher Francisco Pereira
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Uma parede na sede do Facebook, na Califórnia, em 2013
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Uma parede na sede do Facebook, na Califórnia, em 2013 Robert Galbraith/Reuters

Não foi um remoque subtil aquele com que a responsável máxima da Wikipedia atacou na Web Summit a postura da indústria da tecnologia em geral e do Facebook em particular.

“A Wikipedia é construída em torno de um modelo de poder partilhado. Se olharmos de perto, o poder partilhado é uma confusão. Significa reconhecer que nenhum de nós individualmente tem as respostas”, disse Katherine Maher, a presidente executiva da Wikimedia Foundation, a fundação sem fins lucrativos que gere a conhecida enciclopédia online. “Significa inverter o mote da indústria de tecnologia: em vez de andar depressa e partir coisas, temos de ir devagar e construir coisas que durem”, acrescentou.

“Mexe-te depressa e parte coisas” foi durante muito tempo uma espécie de mote não oficial do Facebook, talvez o gigante tecnológico que nos últimos anos mais reflexão suscitou sobre os problemas causados pelas tecnologias de informação e sobre o poder que as grandes multinacionais alcançaram.

A tirada de Maher foi uma de várias que apontou ao sector da tecnologia, onde as empresas frequentemente afirmam ter soluções para todo o tipo de problemas, onde mudar o mundo parece ser uma obsessão transversal a pequenas startups e enormes multinacionais, e onde muitos empreendedores aspiram ao estatuto de visionário.

“Nenhum de nós em particular vai salvar o mundo. E mudar o mundo não é o mesmo que salvá-lo”, argumentou Maher, que deu a Wikipedia como um caso de sucesso colaborativo que deveria ser alargado. A crise climática, exemplificou, é um “falhanço de acção colectiva”, em que “a colaboração beneficiava todos, mas não a conseguimos fazer acontecer.”

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Maher no palco da Web Summit

Crise de confiança

Naquela que foi a intervenção final do segundo dia da Web Summit, Maher lançou para a plateia a questão: “Está o mundo numa crise de conhecimento?”. A resposta, opinou, é negativa: “É uma pergunta difícil. Quase todos os dias ouvimos falar de notícias falsas, da morte do discurso cívico ou do esboroar da própria verdade. Percebo que as pessoas se questionem. Mas não acredito que o conhecimento está em crise.”

Em vez disso, argumentou que o mundo atravessa uma crise de confiança. “E isto é um problema real. Porque a confiança é uma condição essencial para o funcionamento das sociedades modernas: confiamos em sistemas que não conseguimos ver ou tocar; confiamos em pessoas com quem nunca falámos ou nos encontrámos; confiamos em ciência que não compreendemos.” Dos governos à imprensa, da medicina à ciência, “as pessoas estão a voltar as costas às fontes tradicionais de credibilidade”, notou Mayer.

E também aqui exaltou os benefícios do esforço colectivo dos voluntários que editam a Wikipedia e que a tornaram numa fonte de informação de confiança para milhões de utilizadores, ainda que nem sempre esteja correcta: “[A Wikipedia] é uma colaboração. Cada artigo é escrito por voluntários, às vezes a trabalharem sozinhos, às vezes a trabalharem juntos. Qualquer pessoa nesta sala pode participar. O que é uma maluquice, certo? Quando foi a última vez que tiveram a oportunidade de tornar a Internet melhor?”