O triunfo da política anedótica

O Livre corre o risco de afirmar a sua diferença não por aquilo que efectivamente o distingue como ideário e respectivos temas de luta mas pela facilidade com que recorre às provocações caricaturais

Regressei ontem a Portugal depois de cinco dias em Paris e pus-me logo a ler em ritmo acelerado os jornais que deixara para trás. A experiência foi bastante instrutiva – o que talvez não tivesse acontecido se, por exemplo, me fizesse acompanhar de um computador para seguir com regularidade a actualidade portuguesa. Não quis misturar sensações, informações e experiências, ocupando-me a desfrutar, por exemplo, três exposições verdadeiramente memoráveis: a de Francis Bacon, no Pompidou, a de El Greco, no Grand Palais (onde também se pode ver uma muito decepcionante retrospectiva de Toulouse Lautrec) e a da surpreendente e quase desconhecida fase figurativa de Mondrian, um dos maiores abstraccionistas, no museu Marmottan Monet (onde também pude matar saudades do próprio Monet, um dos meus impressionistas favoritos).

Ora, o que acabou por dominar claramente a leitura da nossa imprensa foi o espectáculo parlamentar de Joacine Katar Moreira, a deputada do Livre, e as polémicas que suscitou (sobretudo com Daniel Oliveira mas sem esquecer João Miguel Tavares), sobrepondo-se a outras questões supostamente mais relevantes, como as pistas lançadas pelo programa do Governo (e respectivo secretariado-geral, como já aqui lhe chamei).

O caso da deputada do Livre, a que se seguirá inevitavelmente o de André Ventura e eventualmente o do deputado da Iniciativa Liberal, são ilustrativos da tendência anedótica que parece querer dominar a cena parlamentar saída das últimas legislativas. Três deputados solitários, representando três tendências ideológicas bastante diversas e minoritárias (pelo menos por enquanto), tendem a criar um extravagante fenómeno folclórico que se sobrepõe à agenda política e mediática dos principais partidos.

Há aqui qualquer coisa que ameaça o bom senso mais elementar, independentemente da atracção de certos meios jornalísticos por raridades bizarras e enfaticamente promovidas pelos seus criadores. E, nesse aspecto, o caso de Joacine ultrapassa todos os outros (mais banais ou previsíveis). Temos assim uma deputada que associa a sua cor à sua gaguez como uma causa comum de combate (e lançando com isso a suspeição de racismo anti-negro ou preconceito contra a gaguez, tomada não como diferença mas como deficiência segundo os padrões politicamente incorrectos).

Além disso, para que não faltasse um irresistível elemento complementar, a deputada exibiu como seu assessor nos corredores do Parlamento uma personagem que, sendo embora do sexo masculino, aparece vestida de saia. Eis mais uma provocação aos horrores do politicamente incorrecto: porque é que um homem não pode usar uma saia em vez de calças quando uma massa imensa de mulheres trocou há tanto tempo as saias pelas calças?

Mas o problema com o Livre e Joacine não é o desafio que lançam às convenções de uma sociedade tendencialmente preconceituosa, racista ou homofóbica. É o de tornarem esse desafio um truque publicitário para chamar as atenções e acicatar as reacções em detrimento daquilo que deveria ser essencial na definição do seu discurso político. Por outras palavras: o Livre corre o risco de afirmar a sua diferença não por aquilo que efectivamente o distingue como ideário e respectivos temas de luta mas pela facilidade com que recorre às provocações caricaturais. Escolher uma deputada negra e gaga pode ser uma opção perfeitamente legítima e justificada contra os preconceitos dominantes, mas desde que essa opção não se revele – como parece estar a acontecer, até pelo relevo público que lhe é atribuído – uma sinuosa e hipócrita encenação para ocupar o palco das originalidades políticas. Será que estamos mesmo condenados ao triunfo da política anedótica?