Opinião

Os anti-racistas são sempre radicais

Rosa Parks era tudo menos uma “americana comum” no Alabama da década de 1950, onde os negros como ela tinham lugares marcados nos transportes públicos, e em que ter lugares marcados nos transportes públicos era o menor dos problemas dos negros como ela.

O futuro do agora superfamoso Alexander Hamilton nas notas de dez dólares norte-americanas já estava traçado naquele dia 16 de Setembro de 2015, quando os 11 principais candidatos do Partido Republicano chegaram à Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, na Califórnia, para o segundo debate da campanha eleitoral que iria deixar um deles mais perto da Casa Branca.

Sabia-se que a nota de dez dólares tinha de ser alterada, num reforço do combate à falsificação, e os ventos de mudança na sociedade norte-americana levaram o então secretário do Tesouro a fazer uma pergunta ao país: saindo Hamilton, que mulher deveria passar a figurar nas notas de dez dólares?

No centro do palco da Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, no lugar destinado ao candidato que liderava as sondagens da campanha no Partido Republicano, Donald Trump foi convidado a responder a essa pergunta.

“A minha filha Ivanka, porque está aqui sentada há três horas”, disse Trump, aparentemente em jeito de brincadeira, depois de dois outros candidatos terem proposto os nomes das respectivas mulheres.

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Rosa Parks sentada num autocarro em Montgomery, Alabama, depois de o Supremo Tribunal ter declarado ilegal a segregação na rede de transportes públicos da cidade Bettmann/Getty Images

“Sem ser a minha filha, escolho Rosa Parks”, disse depois, olhando com um sinal de aprovação para os senadores Marco Rubio e Ted Cruz, que também escolheram a famosa activista do movimento cívico nos Estados Unidos da América para figurar nas notas de dez dólares.

“Devia ser Rosa Parks”, disse Ted Cruz, clarificando que preferia manter Alexander Hamilton nas notas de dez dólares e pôr Rosa Parks nas notas de 20 dólares — em substituição de Andrew Jackson, o 7.º Presidente norte-americano, um esclavagista que liderou o país na primeira metade do século XIX.

“Foi uma pioneira com convicções que ajudou a mudar este país e que ajudou a tratar a injustiça racial”, concluiu o senador Ted Cruz.

“Rosa Parks”, disse também o senador Marco Rubio. “Uma americana comum que mudou o curso da História.”

O problema é que Rosa Parks era tudo menos uma “americana comum” no Alabama da década de 1950, onde os negros como ela tinham lugares marcados nos transportes públicos, e em que ter lugares marcados nos transportes públicos era o menor dos problemas dos negros como ela.

“Os americanos estão convencidos de que conhecem esta heroína dos direitos cívicos”, escreveu, em Dezembro de 2015, Jeanne Theoharis, professora de Ciência Política na Universidade da Cidade de Nova Iorque.

“Nos livros da escola e em documentários, ela é a dócil costureira que olha calmamente através da janela de um autocarro — um símbolo do progresso e do tanto que já avançámos. Quando morreu, em 2005, a palavra ‘tranquila’ foi usada na maioria dos obituários e elegias. Habituámo-nos à Rosa Parks que costumamos ver, mas que raramente escutamos.”

A discussão sobre a vida e o activismo de Rosa Parks tinha ganho um novo fôlego nos meses que antecederam o debate do Partido Republicano e o concurso virtual para a substituição de Alexander Hamilton nas notas de dez dólares.

Em Fevereiro de 2015, os historiadores tiveram acesso, pela primeira vez, a um conjunto de textos escritos por uma jovem Rosa Parks, nas décadas anteriores ao seu famoso protesto num autocarro do Alabama. E o que leram fê-los questionar a imagem que milhões de alunos norte-americanos, agora adultos e alguns deles candidatos à Casa Branca, aprenderam sobre a “dócil costureira que olha calmamente através da janela de um autocarro” — a “americana comum que mudou o curso da História”, como diria o senador Marco Rubio no debate de Setembro de 2015.

“Eu queria vê-lo a matar um ku-kluxer. Ele disse que o primeiro deles a invadir a nossa casa seria morto”, escreveu Rosa Parks, recordando os tempos de criança em que viveu com o avô no Alabama rural, quando o Ku Klux Klan andava à solta a aterrorizar, a espancar e a matar a população negra.

Num dos textos conhecidos uma década depois da sua morte, Parks conta como a sua “adorada avó” ficava preocupada quando ela “falava de forma insolente para os brancos”.

“Preferia ser linchada do que viver para ser maltratada e não poder dizer que não admito certas coisas”, disse a jovem Rosa Parks à sua avó quando foi repreendida por pegar num tijolo para ameaçar um branco que a humilhara.

Malcolm X, outro activista dos direitos cívicos cuja acção é muitas vezes apontada como sendo a antítese da não-violência pregada por Martin Luther King Jr., era um “herói” para Rosa Parks. No seu livro The Rebellious Life Of Mrs Rosa Parks, de 2014, Jeanne Theoharis escreve que a activista “não via nenhuma contradição na admiração que tinha tanto por King como por Malcolm X”.

“Para Parks, a acção directa não-violenta e a legítima defesa estavam interligadas, e eram ambas essenciais para a conquista de direitos pelos negros e para a manutenção da sua dignidade”, escreve Theoharis. Malcolm X era, para Rosa Parks, “um homem brilhante, cheio de convicção e orgulho na sua raça”.

“O poder de responder na cara do racismo e da opressão era fundamental — e ela percebeu que negar esse direito é a chave para a continuidade do poder branco”, disse a professora Jeanne Theoharis no texto publicado em Dezembro de 2015 no jornal Washington Post.

Quase dois anos depois, quando Donald Trump já estava na Casa Branca, e quando a popularidade do musical Hamilton já tinha ajudado a manter Alexander Hamilton colado às notas de dez dólares por muitos e longos anos, o novo secretário do Tesouro veio pôr água na fervura num novo concurso virtual, desta vez para a renovação das notas de 20 dólares.

Em causa estava a proposta, deixada pela Administração Obama, de substituir o esclavagista Andrew Jackson pela abolicionista Harriet Tubman.

“Não é algo em que eu esteja focado neste momento”, disse o novo secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, em Agosto de 2017. “Temos assuntos muito mais importantes para tratar.”