Neste museu sente-se na pele como era a vida dos mineiros

O Museu Mineiro de São Pedro da Cova retrata a história de uma população que viveu para as minas durante anos. Nele há uma série de actividades dedicadas a miúdos, mas que os graúdos também podem descobrir.

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Os mineiros usavam o gasómetro como fonte de iluminação dentro das minas. Anna Costa
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Galeria recriada no Museu Mineiro de São Pedro da Cova Anna Costa

Durante 140 anos, o panorama laboral e sociocultural de São Pedro da Cova foi moldado pelas minas de carvão mineral existentes naquela pacata freguesia do concelho de Gondomar. A sua actividade encerrou nos últimos anos da década de 1960. Hoje, tudo o que sobra é história, é legado e identidade. E é no Museu Mineiro de São Pedro da Cova, de entrada gratuita, construído há 30 anos, que se encontra tudo isto.

O edifício que o alberga já teve outrora outra função: “Alojar mineiros provenientes de outras regiões e lugares distantes”. Chamavam-lhes os malteses e, por isso, as casas onde eles ficavam alojados durante a semana ficaram conhecidas por Casas da Malta. Esta onde agora está instalado o museu é a única que ainda existe.

No chão ainda se vêem as marcas das paredes que delimitavam os quartos onde os mineiros dormiam. As janelas, que se encontravam fora do campo de visão dos operários e que na prática serviam apenas para trazer luz para as divisões, eram consideradas uma forma de opressão, tal como o ambiente que se vivia nas minas. Mas era assim a vida dos operários da Companhia das Minas de Carvão e das suas famílias – opressiva. O trabalho era pesado e feito em péssimas condições; os salários eram baixos e havia meios de controlo disciplinar. Os filhos dos mineiros eram obrigados a trabalhar aos 14 anos ou a família corria o risco de perder a casa, pois a Companhia era a dona das casas dos bairros mineiros. Os homens que não morriam em acidentes nas minas, morriam eventualmente de silicose, uma doença provocada pela inalação do pó de sílica, presente nas minas. 

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Micaela Santos explica como funciona o gasómetro. Anna Costa

Micaela Santos conduz as visitas guiadas do museu e vai dando estes detalhes. Em conversa com a Fugas, conta que “é muito difícil para as crianças compreenderem a realidade da vida mineira” e que, por essa razão, quando são elas o público-alvo, opta por “elaborar actividades relacionadas com a parte industrial”, durante as quais se explica, por exemplo, como era feita a exploração mineira, como era tratado o carvão e quais as profissões que existiam no sector: mineiros, enchedores, vagonetes, escolhedeiras e britadeiras.

Ao passo que ouvimos estas histórias, há fotografias, inscrições nas paredes e objectos que as ilustram. Há picas, pás e martelos perfurados usados na extracção do carvão, duas vagoneiras cheias de antracite (o tipo de carvão extraído em São Pedro da Cova). E as maquetes recriam bem a aldeia mineira nos anos 1960.

PÚBLICO - A Zorra usada para o transporte de carvão de São Pedro da Cova a Massarelos, no Porto.
A Zorra usada para o transporte de carvão de São Pedro da Cova a Massarelos, no Porto. Anna Costa
PÚBLICO - Antracite é a qualidade do carvão mineral produzido nas minhas de São Pedro da Cova, Gondomar.
Antracite é a qualidade do carvão mineral produzido nas minhas de São Pedro da Cova, Gondomar. Anna Costa
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Ao longo das visitas guiadas pode-se passar por uma galeria com linha férrea ali recriada, segurando um gasómetro e cheirando o insuportável cheiro que liberta e, ainda, tentar empurrar uma berlina cheia. No exterior do museu pode observar-se a zorra, um eléctrico que transportava carvão de São Pedro da Cova a Massarelos, no Porto, e também uma cesta de cabo aéreo que transportava carvão para a Central Termoeléctrica das Medas, em Gondomar.

O serviço educativo do Museu Mineiro é vasto e pode ser consultado online. As actividades vão “desde a parte geológica à exploração mineira” e, com alguma adaptação, podem ser feitas por pessoas de qualquer faixa etária. Micaela reforça que é importante haver marcação prévia, quer para as visitas guiadas, quer para as actividades, por forma a que o museu faça “as devidas preparações”. Estão disponíveis a grupos (escolares ou não) até 30 pessoas, a famílias e a qualquer pessoa suficientemente curiosa em conhecer a história de São Pedro da Cova e da sua população.

Entre as várias actividades, “uma das mais solicitadas” pelas escolas “é a toupeira humana”: assim eram apelidados, no passado, os mineiros, uma vez que passavam mais tempo debaixo da terra do que à superfície. Nesta actividade, conta Micaela, recebe-se “informação detalhada sobre as condições de trabalho nas minas” e no fim “miúdos e graúdos vestem-se com as roupas dos operários” do sector.

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PÚBLICO - Maquete da pacata aldeia mineira nos anos 60.
Maquete da pacata aldeia mineira nos anos 60. Anna Costa
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“Fósseis: Era Paleozóica” é também “bastante popular”. Aqui são explorados as trilobites do espólio doado ao museu pelo coleccionador Firmino dos Santos Jesus. Pretende-se que as crianças consigam, através do processo de moldagem, criar uma trilobite e a levem, eventualmente, para casa. Mas engana-se quem acha que não há actividades ao ar livre. Estão também disponíveis, diz Micaela Santos, os “Percursos Pedestres, que exploram o património mineiro ainda existente na freguesia, nomeadamente o antigo complexo industrial mineiro, onde ainda se encontra o cavalete de São Vicente, o elemento mais emblemático em São Pedro da Cova”. Não esquecer ainda a actividade o “Museu vai à escola”, que leva às crianças a descoberta do carvão. 

Texto editado por Sandra Silva Costa