Crónica

Os guetos de luxo

É enganador pensar que existem lugares ou lógicas sociais que originem sentimentos de pertença em todos da mesma forma. Haverá sempre excluídos. Mas criar um mundo à parte, uma ilusão de vida total, também é uma fantasia.

Há quem não viva sem eles. Refúgios de semelhança. Dá-lhes uma vaga sensação de segurança. Pode ser num país, cidade ou aldeia. Nas redes sociais, no grupo de amigos ou nas sociabilidades informais. Os que vêm de fora, os que são vistos como diferentes nessas esferas, são encarados com estranheza.

Com a proliferação e circulação de informação e pessoas, existiu um tempo em que se projectou que nos iríamos tornar mais curiosos, aptos para a troca desinteressada ou para integrar novas realidades. Mas os períodos de mudança geram também confusão e medo e, como reacção, aconteceu o contrário. Intensificaram-se proteccionismos, redes de interesses, bairrismos, tribalismos. A reprodução social em circuito fechado.

Nas grandes cidades existiu um período em que o sonho dos ricos era viver num condomínio privado luxuoso, sair de manhã e entrar ao fim do dia num carro topo de gama, cumprimentando fugazmente os vizinhos, avançando directamente por vias rápidas ao lado de bairros carenciados, esquivando-se ao envolvimento com os que não pertenciam ao seu cosmos social. Hoje não é diferente. Talvez os condomínios já não estejam tanto em voga, mas a procura entre iguais acontece através da estetização do espaço urbano, de consumos associados a certos estilos de vida, em lugares, zonas ou bairros que favorecem a distinção. No centro destas lógicas, o capital.

É enganador pensar que existem lugares ou lógicas sociais que originem sentimentos de pertença em todos da mesma forma. Haverá sempre excluídos. Mas criar um mundo à parte, uma ilusão de vida total, também é uma fantasia. Podemos afastar-nos da desordem que torna a vida urbana inesperada ou desconcertante, mas ainda assim, inevitavelmente, acabaremos por contactar com desconhecidos, de diferentes condições económicas, origens, credos, opções e estilos de vida muito distintos dos nossos. Precisamente por isso nunca percebi os guetos voluntários, ou quem habita ou circula em meios uniformes, apenas na companhia daqueles que acha serem os seus semelhantes. Com eles pode comunicar de forma ligeira, sem se expor ao conflito, mas sem esse esforço de traduzir formas de estar inteiramente diferentes, também se privará de compreender como é inevitável num espaço de multiplicidade.

Tudo o resto, é desistir. Como fez, por exemplo, a Câmara Municipal de Lisboa ao colocar uma vedação à volta do miradouro do Adamastor, símbolo de divisão e erradicação de todos aqueles que não são reconhecidos e não duplicam os comportamentos previstos por determinados grupos sociais.

Não nos iludamos. Uma cidade é feita de imensos e soberbos estímulos, mas também de tensões, equilíbrios instáveis e conflitualidades. Não vale a pena isolarmo-nos dessa desarrumação, procurando ilhas de correspondência num oceano de diferenças. Esse sonho que parece alimentar muita gente – viver num mundo rasurado, sem perturbações e temores – simplesmente não existe. O melhor que se arranja é saber existir com isso. É a aprendizagem com e sobre o outro. É perceber como edificar com ele, assumindo que por vezes é desconfortável e difícil. Mas insistindo, nunca renunciando a esse desígnio.

Estranho mundo este, onde os que vivem assombrados com medo dos guetos reais, optam por criar e habitar na sua redoma, numa espécie de guetos de luxo, renunciando ao que a vida tem de mais audacioso e prazenteiro.