Opinião

Internet saved the Radio Star

A rádio persiste e continua a ser um dos meios de comunicação social com mais audiência e com mais alta taxa de penetração no mercado.

A rádio, que tem sido ameaçada de extinção sempre que surge uma nova inovação tecnológica, está mais viva que nunca. E, é a tecnologia, a grande responsável pelo crescimento do número de ouvintes que tem acontecido nos últimos tempos.

Se em 1981, os one-hit-wonders The Buggles abriam a primeira emissão da MTV preconizando o fim da rádio, com o seu Video Killed the Radio Star, os últimos anos têm mostrado que a internet lhe deu um novo fôlego, tornando-a mais acessível e mais versátil, conseguindo alcançar as diferentes faixas etárias através das diferentes plataformas.

De acordo com a terceira vaga de 2019 do estudo Bareme Rádio da Marktest, do passado mês de junho, cerca de 83% dos portugueses residentes em Portugal continental com mais de 15 anos (mais de 7 milhões de pessoas), ouvem rádio regularmente, sendo que 58% ouvem todos os dias. Em agosto foi inclusivamente batido o recorde de ouvintes através da internet. Perto de 1,9 milhões de portugueses, dizem que são consumidores regulares do meio rádio através da web, o que representa cerca de 21% de todos os ouvintes.

Com o surgimento das plataformas de streaming como o Spotify, Youtube Music ou Apple Music, voltaram a pairar nuvens negras sobre o futuro da rádio. A possibilidade de se ouvir qualquer música que já tenha sido lançada, a criação de listas personalizadas, serviços sem publicidade e subscrição de podcasts, são argumentos mais que suficientes para levar qualquer fã de música a esquecer definitivamente a rádio. Contudo, a rádio persiste e continua a ser um dos meios de comunicação social com mais audiência e com mais alta taxa de penetração no mercado.

A internet permitiu que os conteúdos da rádio tivessem uma diversidade maior. O conteúdo não se esgota após a sua transmissão. As rádios, os locutores e animadores complementam o conteúdo transmitido através da criação de outros nos seus sites, redes sociais e canais Youtube. Enriquecem-no, fazendo com que os ouvintes comecem a ouvir rádio no carro de manhã, e os acompanhe ao longo do dia no trabalho ou em casa, no computador ou no telemóvel, numa rede social ou numa notícia, levando a uma fidelização muito superior.

Para se medir a popularidade e notoriedade que a rádio tem adquirido nos últimos tempos, basta perceber como são hoje as suas figuras que transitam para estrelas da TV, devido ao impacto que adquiriram no meio rádio, e não o contrário, como se assistia há uns anos. Adicionalmente, com o público e audiência que esta permite alcançar, é a própria rádio, que consegue atualmente, atrair apresentadores, humoristas e entertainers para os seus conteúdos, que vêem nela, um veículo para chegar a mais público.

Os locutores e animadores de rádio adquiriram um estatuto equivalente ou superior aos protagonistas da televisão, sendo seguidos por centenas de milhares nas redes sociais como o Instagram, Facebook ou Twitter. Nos diferentes posicionamentos das rádios em Portugal, Nuno Markl, Vasco Palmeirim, Ana Galvão, Pedro Fernandes, Mafalda Castro, entre outros, tornaram-se verdadeiras estrelas da rádio, algo que anteriormente era pouco comum, e apenas reservado a locutores com várias décadas de trabalho no meio radiofónico.

A proximidade e a companhia com que a rádio sempre se caracterizou e diferenciou, ganhou ainda mais importância com a internet. Os ouvintes deixaram de ter um papel passivo e pouco participativo, fazendo parte integrante dos programas das rádios. Através de mensagens nas redes sociais, gravações áudio no WhatsApp ou de outra aplicação de conversação, os ouvintes tornaram-se eles próprios, conteúdo da programação da maior parte das rádios em Portugal, e é esse um dos principais fatores do seu sucesso.

Outra das principais vantagens da rádio, é a sua capacidade de transmitir conteúdos e notícias no imediato, no instante em que as coisas acontecem. Algo que, como sabemos, o público da internet aprecia e valoriza, o que também pode ajudar a explicar a razão pelo qual as pessoas que estão nas faixas etárias compreendidas entre os 18/24, 25/34 e 35/44 são as que mais ouvem rádio e mais confiam na rádio como fonte de conteúdos informativos. Num estudo de maio de 2019 da EBU-European Broadcasting Union, a rádio continua a ser o meio de comunicação em que as pessoas mais confiam (59% da população europeia), tendo aumentado a distância para a TV, imprensa e internet, relativamente aos anos anteriores.

Com a evolução da tecnologia nos carros, a rádio tem deixado de ser apenas FM para ser ouvida também através da internet, e com isso outras ameaças surgirão. No entanto, a rádio já mostrou que se consegue adaptar a situações muito distintas e de crises quase existenciais. A internet veio apenas mostrar a versatilidade que a rádio tem, conseguindo levar ouvintes para qualquer dispositivo que se ligue à web. Quanto às estrelas da rádio, não morrerão, apenas terão que se adaptar, tal como a rádio, o fará.