Comité Central do PCP culpa “ataque” de militantes pela derrota eleitoral

Comunicado da reunião daquele órgão comunista ataca, sem nomear, membros do partido que, de forma anónima, têm contestado num blogue as opções políticas do PCP, tanto pela aproximação ao PS como pela estratégia de comunicação.

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Em causa estará um blogue crítico da direcção do partido, denominado "Que Fazer?" LUSA/JOÃO RELVAS

Pode ser um incentivo a uma espécie de caça às bruxas dentro do PCP: o Comité Central (CC) responsabiliza “alguns ex-membros e membros do partido” por um “prolongado e sistemático ataque dirigido contra” o partido, que ajudou a que a CDU tivesse uma redução de votação (uma perda de cerca de 115 mil votos) e de deputados (eram 17, são agora 12). Embora não identifique nomes nem correntes em que essas pessoas se inserem, tudo aponta para que seja uma referência a quem anima um blogue crítico da direcção do partido, denominado Que Fazer?.

No comunicado da reunião desta semana, em que analisou os resultados das eleições, o CC fala de um “processo” de “animação de ideias e concepções retrógradas e populistas, em que se inclui o branqueamento do fascismo e do que ele representou” e cita “operações provocatórias que a partir de estruturas e movimentações diversas visam dividir os trabalhadores e descredibilizar a sua luta e as suas organizações representativas de classe”.

Como o PÚBLICO noticiou em Abril, aquele blogue é alimentado por militantes descontentes com o rumo da actuação do partido, parte deles da Direcção da Organização Regional de Viseu (DORV), mas também de outros pontos do país. Nessa altura, terá sido enviada uma carta à Comissão Central de Controlo do Comité Central assinada por quatro dezenas de militantes mostrando o descontentamento de algumas entidades regionais por não terem sido ouvidas sobre a assinatura, em 2015, da posição política conjunta entre o PCP, o PS e o Governo.

Ainda há um mês, num longo texto sobre o “deve e o haver” das posições políticas conjuntas, os autores do blogue concluíam que o “entendimento político” do PCP com o PS que permitiu a aprovação dos quatro orçamentos esta legislatura serviu “fundamentalmente os interesses do capital”, e resultou num “entendimento [do PCP] com essa burguesia fazendo algumas concessões aos trabalhadores”. Mais: as medidas que Jerónimo de Sousa insiste terem sido “avanços” e “conquistas” só possíveis pela acção dos comunistas são classificadas como um “rol de migalhas para conter a pressão social e enganar o povo”, e pela aprovação dos orçamentos os comunistas receberam em troca “uma mão cheia de nada para os trabalhadores”.

“Em boa verdade, as medidas positivas dependeram mais das negociações de bastidores com o PS do que da luta de massas. Era necessário que a luta de massas tivesse ido muito mais além, linha essa tolhida pela posição política do PCP”, lê-se no texto, afirmando-se que “os trabalhadores continuaram a ser iludidos quanto à possibilidade de poderem resolver as suas reivindicações pela via eleitoral”.

Afirma-se que o PCP ajudou a branquear o PS como partido de esquerda e que “enfraqueceu a posição eleitoral da CDU”. “O PCP descredibiliza-se ainda mais quando, pela voz do seu secretário-geral, nega ter havido uma ‘maioria de esquerda’ e ter apoiado o governo do PS, contando que o povo veja branco aquilo que é preto”, afirmam os críticos. “O PCP não deveria meter-se em negócios com o PS, mas conduzir a luta política e económica das massas com total independência de classe”, defendem.

E vincam: “Os trabalhadores passaram a ver o PCP como partido do sistema, igual aos outros, envolvido em negociatas parlamentares com o PS que não resolvem verdadeiramente o seus problemas, comprometido com as trapalhadas parlamentares, sacrificando os princípios, esbatendo as diferenças entre um partido revolucionário e os demais partidos da democracia burguesa, pondo em causa o prestígio conquistado pelo seu glorioso combate contra a ditadura fascista e pelo seu papel de grande motor das conquistas do 25 de Abril. A confiança das massas no seu partido de classe vai-se perdendo e com ela a perspectiva do socialismo, da infinita superioridade da democracia proletária sobre a democracia burguesa.”

Jerónimo de Sousa bem tem desvalorizado a existência de críticas e dúvidas no seio do PCP nestes últimos quatro anos sobre a ligação dos comunistas ao Governo socialista com a assinatura das posições políticas conjuntas de 2015. O próprio admitiu ao PÚBLICO, no final da campanha eleitoral, que também teve essas dúvidas. Nos comícios na campanha eleitoral, o secretário-geral comunista esforçou-se por justificar perante os militantes e simpatizantes que o PCP e o PEV não quiseram perder qualquer oportunidade para conseguir mais direitos e rendimentos.