Trump vai deixar a Turquia avançar no Nordeste da Síria, rompendo aliança com curdos

É uma enorme reviravolta na política para o Médio Oriente dos EUA. As forças curdas foram fundamentais no combate contra o Daesh, e gerem o campo de deslocados de Al Hol, onde estão 70 mil pessoas, entre elas muitos familiares de membros do grupo terrorista, incluindo europeus, para os quais não há destino a dar.

Operação militar conjunta entre os EUA e a Turquia no norte da Síria
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Operação militar conjunta entre os EUA e a Turquia no norte da Síria EPA/US ARMY/STAFF SGT. ANDREW GOEDL HANDOUT

Os EUA vão começar a retirar a sua presença militar do Nordeste da Síria, abrindo caminho para uma ofensiva turca contra as forças curdas. O objectivo de Ancara é criar uma “zona segura" e transferir para lá milhões de refugiados sírios que neste momento estão no seu território. Washington não colaborará neste objectivo turco, mas ao deixar de se opor ao avanço das tropas do Presidente Recep Tayyip Erdogan, faz uma profunda reviravolta na sua política para a região, onde até agora tinha nos curdos os mais importantes aliados na luta contra o Daesh.

A retirada foi anunciada na madrugada de segunda-feira (23h em Washington), quando a Casa Branca anunciou em comunicado que não iria envolver-se na operação planeada por Ancara. “As Forças Armadas dos Estados Unidos não vão apoiar nem envolver-se na operação e, tendo derrotado o ‘califado’ territorial do ISIS [acrónimo inglês do Daesh], não irão permanecer nas proximidades.” A notícia foi confirmada na manhã desta segunda-feira pelo Observatório Sírio dos Direitos Humanos, um grupo que tem uma rede de informadores na Síria. As forças norte-americanas – que não são mais que um milhar de soldados das forças especiais, com funções mais de apoio e treino do que de combate abandonaram a área entre as cidades de Tel Abyad e Ras al-Ayn. A coligação militar liderada pelos EUA não confirmou esta informação.

As Nações Unidas fizeram um apelo para que os civis sejam poupados à violência e a atrocidades durante o avanço das forças turcas e dos combates que se esperam. Há uma preocupação especial com o que acontecerá com os campos de refugiados, com péssimas condições, onde na prática estão detidos familiares do Daesh – e onde a organização terrorista tem conseguido infiltrar-se cada vez mais –​, e com as prisões onde os curdos mantêm membros do Daesh muitas vezes mantidos num limbo, porque são estrangeiros, e os seus respectivos países não os querem de volta.

“Estamos com esperança de que aconteça o melhor, mas a preparar-nos para o pior”, disse, citado pela Reuters, Panos Moumtzis, coordenador regional da ajuda humanitária da ONU para a crise na Síria, sublinhando que foi preparado um plano de contingência para fazer chegar ajuda à região. 

 Washington acrescentou que os prisioneiros capturados pertencentes ao Daesh passam a ser responsabilidade da Turquia. A Casa Branca acusou ainda a França, a Alemanha, e “outros países europeus”, de se terem recusado a aceitar combatentes do Daesh.

A retirada norte-americana reflecte uma reviravolta na política seguida até aqui pelos EUA, que contaram com o apoio das Forças Democráticas Sírias (SDF) no combate ao Daesh. Os curdos criticaram a decisão que há muito temiam e avisaram que o abandono dos EUA poderá permitir o regresso de alguns líderes do Daesh que permaneciam escondidos.

“As forças americanas não cumpriram os seus compromissos e retiraram das áreas fronteiriças com a Turquia”, afirmaram as SDF num comunicado citado pela Al-Jazira.

O telefonema de Erdogan

Não é a primeira vez que um telefonema entre Donald Trump e o seu homólogo turco, Recep Taiyyp Erdogan, precipita decisões relativas à guerra na Síria  da primeira vez, Erdogan plantou solidamente no espírito do Presidente norte-americano a ideia de que os EUA deviam retirar-se da zona, e precipitou a demissão do secretário da Defesa da EUA, James Mattis, em Dezembro de 2018. Agora, segundo Erdogan, também esta decisão da Administração norte-americana surgiu na sequência de um telefonema entre os dois chefes de Estado, no domingo, em que o líder turco explicou o plano em que se comprometeu a criar uma “zona de segurança” no Nordeste da Síria para fazer regressar refugiados sírios ao seu país. A Turquia acolheu 3,6 milhões de sírios desde o início da guerra civil, em 2011.

Para Erdogan, a saída dos EUA do terreno oferece uma oportunidade para atacar as SDF, que Ancara associa a grupos curdos no seu próprio país, e que classifica como terroristas, como o Partido dos Trabalhadores do Curdistão.

Os analistas alertam para o perigo de se estar a abrir uma nova frente de combate no conflito sírio, uma vez que os curdos podem procurar o apoio militar das forças governamentais sírias do Presidente Bashar al-Assad contra as tropas da Turquia.