Reportagem

Os jovens vão na “nova onda verde” dos partidos? “É de desconfiar”

Na “caça ao voto” dos jovens os partidos pintaram-se todos da mesma cor? Foram vários as bandeiras a agitarem-se nas greves climáticas que, relembra a organização, são apartidárias. “Esta luta é global, toda a política deveria ser ecológica.” Eles são bem-vindos. “Mas têm de cumprir.”

No dia em que fez 23 anos, Sofia Tavares saiu à rua para “defender um futuro”. “Onde mais é que poderia estar?”, provoca a estudante de mestrado em Toxicologia Ambiental, meio divertida, meio séria, no fim de uma “festa de anos” que reuniu cerca de 500 manifestantes no Porto, dados da PSP, numa marcha pelo clima que terminou nos Aliados, já de noite. “As mudanças já não vêm assim tão a tempo. A temperatura já subiu um grau. Nós já estamos a remendar.” Para ela, trata-se de uma emergência. Para os partidos que viu “acordar” para o tema nestas legislativas? “É muito à base da caça do voto”, atira, com um encolher de ombros. “Temos de ter atenção porque a maioria dos partidos acaba por dizer que tem medidas ecologistas quando, na realidade, são medidas que não têm qualquer impacto.”

Um grupo de cidadãos sem ligações partidárias analisou os programas eleitorais dos seis partidos com assento parlamentar rumo à neutralidade carbónica em 2050, anunciada por António Costa. “Concluímos que o grau de compromisso dos partidos é muito baixo e não estão à altura do que está a ser pedido”, explicava ao P3 Luís Costa, engenheiro biomédico de 29 anos e um dos coordenadores da análise Olimpíadas do Carbono - Os partidos postos à prova na redução de CO2.

Adriana Lima, 26 anos, procura votar “sempre num partido que se preocupe com as questões climáticas”. Na terceira manifestação pelo clima no Porto, não teve de procurar muito longe: as bandeiras agitam-se em frente a ela. Nem todas, no entanto, a “convencem”. “Sinto que os partidos fogem um bocadinho do tema. Ainda temos muito o romantismo do ‘as pessoas têm de reciclar, têm de usar menos água’ e estão a fugir do que realmente importa: o que efectivamente está a poluir são os combustíveis fósseis. E estou a ver poucos partidos a focarem-se nisto.” Teme que o reconhecimento do “estado de emergência climática em que o planeta se encontra”, palavras do programa eleitoral do PDS, não passe de uma “simples” declaração. O Bloco de Esquerda colou a expressão “Não há Planeta B”, mote do movimento estudantil, em cartazes por todo o país. O PS também a escreveu no programa onde diz ser o partido que “mais tem feito pelo ambiente e por uma política verde”. Já os jovens parecem gostar de escrever em cartazes, faixas e autocolantes um slogan com a visão da CDU: “O capitalismo não é verde”. E entoam: “Há medidas a tomar/ E o Governo anda a brincar!”

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"O capitalismo não é verde" é um dos principais slogans da greve climática em Portugal. Nelson Garrido

Adriana sabe a quem vai entregar o seu voto (de confiança). Mas ali não é nisso que está a pensar, diz: “Esta luta é global, toda a política deveria ser ecológica.”

Os jovens, uma maioria nas greves pelo clima que têm levado milhões a sair à rua por todo o mundo, não se cansam de frisar que o movimento global começado por uma única jovem sueca é “político-apartidário”. “Nós já lançamos comunicados a dizer que nos afastamos de quaisquer campanhas que possam existir”, lembra José Barbosa, 19 anos, um dos membros da organização “muito horizontal e descentralizada” do movimento. “Notamos que há partidos que utilizam mesmo a própria greve, que é apartidária, para fazer campanha.”

O estudante de Direito e membro da Juventude Comunista Portuguesa lembra que “o ambiente sempre foi tema” e cita, como exemplo, o artigo 66.º da Constituição de Republica Portuguesa. “Se foi levado a sério ou se os interesses pelo ambiente foram subjugados pelo interesse do lucro? Foram.”

O clima não é moda

Quando se viu frente a frente com um boletim de voto pela primeira vez, Francisca Pereira, 18 anos, estava a decidir para o Parlamento Europeu. A opinião da estudante de Línguas Aplicadas pouco mudou desde Maio. “Cada vez mais os partidos falam mais sobre ambientalismo, mas acho que não se preocupam realmente. Acho que é uma forma de angariarem pessoas mais jovens que não estão tão informadas.” No entanto, vê vantagens nas bandeiras que se erguem por entre os cartazes repletos de críticas aos governantes: “O programa deles não se foca nos jovens. Estarem aqui é uma forma de comunicarem e perceberem os nossos pontos de vista.”

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Ricardo Nogueira, 20 anos, espera que a marcha arranque na Praça da República, no Porto, sexta-feira, 27 de Setembro. Teresa Pacheco Miranda

Pedro Miguel, 20 anos, e membro da Juventude Socialista, não concorda que a os partidos políticos tenham vestido “a camisola de salvar o planeta por moda”. “Eu acho que a única coisa que foram buscar foi mais motivação, porque de resto os partidos sempre tiveram uma opinião do que deveriam de ser as políticas ambientais”, diz. “Não quer dizer que antes não tenha havido essa preocupação, mas tinha de haver mais e fico feliz por esta questão estar a ser debatida mesmo por vários partidos que estão aqui representados.” “É normal que se infiltrem, por assim dizer”, ri-se.

Ricardo Nogueira concorda. Mas sentado mais à margem dos manifestantes que se começavam a aglomerar, deixa um aviso: “É preciso ter cuidado com a forma como se publicita o estar nesta luta. Não podemos dizer que foi feita só por eles.” É tímido a atirar a palavra emergência. “Também percebo que a mudança tem de ser feita gradualmente, para as pessoas se habituarem. Mas não sinto que algum dos partidos tente trazer mesmo a verdade, porque assim também perderiam votos, pareceriam muito mais extremistas. Eu percebo que qualquer partido como partido tem de tentar… agradar.”

Tem assistido a debates políticos na televisão e procura outras intervenções e vozes nos podcasts do É Apenas Fumaça. Há quatro anos que participa em “todas as manifestações” que pode. Lista os temas que o movem e que vão merecer a cruz no seu boletim de voto, ainda por definir, “mas mais no espectro da esquerda”: “activismo ambiental”, “lutas sociais”, “activismo contra o racismo e a homofobia”, “revolucionar o método de ensino”, repensar “a forma como a cultura vem ao público”.

Com 20 anos, pertence aos 19% de eleitores entre os 18 e os 24 anos que não sabem ainda em quem vão votar a 6 de Outubro, segundo a Sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa feita para o PÚBLICO e a RTP sobre a intenção de voto nas legislativas. Nesta faixa etária, este grupo só fica atrás de um outro: os jovens que dizem taxativamente que não vão às urnas no domingo (21%). Mas se há a percepção de que a participação jovem em actos eleitorais é baixa, não existem dados oficiais que o comprovem.

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A segunda manifestação em Lisboa, em vésperas das Europeias, em Maio. Andreia Carvalho

Os estudantes saíram à rua para chamar a atenção dos governantes e líderes mundiais. Conseguiram. Já receberam o ministro do Ambiente deitados um protesto em Coimbra e já foram recebidos por João Pedro Matos Fernandes no ministério, em Lisboa.“Não viemos pedir para pôr mais ecopontos nas freguesias”, avisava Carolina, 20 anos, aluna de psicologia da Universidade de Coimbra, antes de entrar. 

“Nós queremos atenção institucional, porque é a nível institucional que pode haver alterações legislativas”, dizia José Barbosa, na última manifestação “aberta a todos”, a 27 de Setembro. “Agora vê-se carregadamente nas campanhas, debates televisivos, cartazes, mupis. É de desconfiar? As pessoas têm de fazer a sua leitura política, não esquecer o passado, para levar a justiça climática até ao voto.”

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Daniel Rocha