Carta e petição criticam tema de Valete por “banalização de violência contra mulheres”

Em causa estão a canção e o vídeo de B.F.F., novo single do rapper português cuja narrativa se centra num cenário de traição e na resposta violenta do protagonista contra a mulher e o amante.

Valete
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Valete Miguel Manso

A canção e o vídeo B.F.F., do rapper Valete, suscitaram uma carta aberta, assinada por mais de uma centena de associações e pessoas, e uma petição pública, ambas em protesto contra a banalização da violência contra as mulheres. “A violência contra as mulheres não é arte nem cultura”, lê-se na carta aberta divulgada esta terça-feira — Dia Mundial da Música — e assinada por associações de defesa dos direitos das mulheres e, a título individual, por dezenas de pessoas, entre artistas, psicólogos, jornalistas, professores, estudantes e técnicos. Os autores da carta aberta sublinham que “a reprodução clara de misoginia e a banalização da violência contra as mulheres não podem ser cronicamente escudadas na criação artística”.

Em causa está a música B.F.F, que aborda uma cena de violência conjugal, com o vídeo a mostrar um homem armado a ameaçar violentamente a mulher. No canal oficial de Valete no YouTube, o vídeo soma mais de 900 mil visualizações; a canção motivou críticas nas redes sociais e na comunicação social. Na carta aberta, os assinantes escrevem que “a violência masculina contra as mulheres e as raparigas não existe num vácuo: ela nasce e perpetua-se num ambiente social de banalização da violência, cresce e legitima-se num contexto cultural que promove uma masculinidade agressiva, conjugada com o escrutínio da sexualidade das mulheres”. 

Os autores dizem-se “conscientes de que a liberdade de expressão não significa imunidade à crítica e que a criação artística — sobretudo quando atinge um público jovem como é o caso de Valete — não é isenta de impacto (e por isso mesmo, responsabilidade) social”. E pedem ao rapper que “considere o alcance e as repercussões da sua mensagem, e repense a estratégia, o conteúdo e o alcance do vídeo referido”. A carta é assinada por, entre outras, a Associação de Mulheres Cabo-verdianas na Diáspora em Portugal, a Associação Mulheres sem Fronteiras e a Associação Portuguesa de Mulheres Juristas. 

Também a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) divulgou um comunicado no seu site no qual defende que os agentes culturais devem “assumir uma responsabilidade acrescida no combate à violência”, condenando a divulgação de conteúdos que contribuam para “naturalizar e reproduzir” a violência contra mulheres. No comunicado pode ler-se que a a CIG, “organismo público responsável pela promoção e defesa da igualdade de género e do combate à violência contra as mulheres e doméstica, condena a divulgação de quaisquer conteúdos que atentem contra a dignidade e a integridade física e moral das pessoas, contribuindo para naturalizar e reproduzir a violência contra as mulheres e doméstica”.  A CIG salienta ainda que, “considerando o impacto das mensagens de agentes culturais e criadores/as, sobretudo junto de públicos jovens e adolescentes, bem como a sua vocação para se constituírem como modelos para as gerações mais novas, devem aqueles assumir uma responsabilidade acrescida no combate à violência, e em particular a violência contra as mulheres”.

Em declarações ao PÚBLICO pouco depois de estalar a polémica, Valete defendeu que, em B.F.F., actuou "como um ‘novelista’ que escreve uma história e a transforma numa ‘obra cinematográfica'”. Em relação às críticas que vinham sendo feitas à canção e vídeo, invocava a sua liberdade artística enquanto músico. “Já fiz 500 sons de cariz social e continuarei a fazer, mas farei também outras coisas. Não vou cair na armadilha de ser um artista unidimensional”​, afirmou, defendendo que, se “apresentasse o mesmo num livro ou num filme, não haveria problemas”.

Por causa do mesmo vídeo de Valete, a organização Feministas em Movimento (FEM) lançou uma petição pública, que soma esta terça-feira perto de 400 assinaturas, apelando “a que todos os colectivos de intervenção feminista, organizações de intervenção social, partidos políticos e todas as pessoas digam não à violência": “Neste contexto, em que a violência contra as mulheres se encontra naturalizada, nenhum esforço ou acção no sentido de a erradicar é supérfluo, mas todos os actos ou acontecimentos que a banalizem têm de ser denunciados, contraditados e condenados!”, exclama o FEM no texto que lança a petição pública. A agência Lusa tentou esta terça-feira, sem sucesso, obter um esclarecimento do rapper Valete à carta aberta e à petição pública.

Na semana passada, a jornalista Fernanda Câncio, que entrevistou Valete para o Diário de Notícias sobre o tema B.F.F., revelou, no blogue Jugular, ter recebido mensagens do músico: “Valete aconselhava-me a ‘conter-me’ no Twitter onde, acusava, eu estava ‘numa intifada anti-Valete’. E terminava dizendo: ‘garanto-te que não queres comprar esta guerra.’”. Ao Observador, no dia seguinte, Valete confirmou o envio das mensagens, mas rejeitou que contivessem uma ameaça de violência física, dizendo que a “guerra” a que se referia era verbal.

No canal do Youtube, o rapper divulgou um vídeo no qual critica “um grupo de feministas burguesas, pessoal ignorante, pessoal que não respeita o rap [...]”, dizendo que vem de uma realidade em que “as mulheres são escuras de mais para terem empregos que não seja limpeza” e vivem “em sub-culturas onde a violência doméstica está completamente normalizada”. No mesmo vídeo, acrescenta: “Eu nunca vi nenhuma dessas feministas pop star aqui nos subúrbios a travar luta feminista com estas mulheres que são praticamente escravas em 2019.”

Antecedido por Colete amarelo, editado em Junho, B.F.F. é o segundo single de Em Movimento. Aquele que será o terceiro álbum de Valete (Educação Visual saiu em 2002, Serviço Público em 2006) será revelado canção a canção, com os respectivos vídeos, até se conhecer o seu alinhamento final.