Crítica

The Legend of Zelda: Link’s Awakening ocupa o jogador por inteiro, mesmo longe da consola

A nova versão não esquece o material original lançado em 1993, actualizando-o, dando-lhe uma estética irrepreensível e a modernização de algumas mecânicas.

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Há alguns videojogos que estendem a mão ao jogador, convidando-o desde os primeiros momentos para uma temporada inesquecível. A série The Legend of Zelda conta com inúmeras propostas assentes nesse princípio, oferecendo uma sensação de transporte para o mundo virtual que tão bem cria e nutre.

Publicado originalmente na portátil Game Boy em 1993, The Legend of Zelda: Link's Awakening está desde o dia 20 deste mês disponível também no catálogo da Nintendo Switch. Esta versão da aventura, porém, foi recriada cena a cena, mantendo o conteúdo original, mas apresentando-o com uma nova roupagem, adaptando-o à era moderna sem perder a sensação de escala e de acontecimento.

A obra começa com o herói, Link, a ir parar a uma ilha tropical depois de naufragar. Com a ajuda de Marin, o protagonista tem que encontrar e conquistar várias masmorras e recuperar os instrumentos musicais que lá estão encerrados. Quando todos estiverem recolhidos, Link poderá finalmente tocar a Ballad of the Wind Fish, acordar a baleia voadora que está adormecida dentro de um ovo no topo do Monte Tamaranch e deixar para trás Koholint Island.

Mais do que a coluna do arco narrativo, ficam na memória as incontáveis personagens que se cruzam com o caminho do aventureiro enquanto procura as oito masmorras (com a nona a ser um segredo da versão Game Boy Color da obra publicada no início de 1999 na Europa). Há uma sensação de evolução com o passar do tempo, tanto pelos locais visitados, como pelas várias habilidades que o protagonista vai desbloqueando.

Desde os momentos iniciais, Link tem acesso à sua espada e escudo, contudo, pouco tempo depois começa a desbloquear novas formas de interagir com o mundo de jogo. Por exemplo, com a Power Bracelet passa a conseguir levantar pedras e outros objectos pesados. As Pegasus Boots permitem ao protagonista deslocar-se mais rapidamente. Outro exemplo é o arco, que como provavelmente adivinharam permite atirar flechas à distância.

O arco, porém, é também um exemplo de como a Nintendo está ciente do legado criado. Link's Awakening conta com uma loja e o preço pedido pelo arco é exorbitante. Os jogadores, contudo, descobriram que o podiam roubar e agora, mais de vinte anos depois, é a própria casa nipónica que brinca com a situação, avisando o jogador no seu site oficial que “nem lhe passe pela cabeça” roubar o item.

A aventura de Link é acompanhada também por um gancho, por bombas e por um bumerangue, além de uma pena que lhe garante o salto como habilidade, entre outros processos que dinamizam a jogabilidade. Como a Switch apresenta mais botões do que a Game Boy, a nova versão permite um maior dinamismo na escolha entre itens. Isto é importantíssimo se tivermos em consideração que a sua conjugação está associada a abrir caminho até aos finais das masmorras, locais onde as batalhas e a resolução de puzzles andam de mãos dadas.

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Esta modernização dos controlos não torna a aventura mais fácil, torna-a sim mais em linha com o que é produzido em 2019, removendo da equação o fastidioso processo de equipar certos itens sempre que a sua utilização é necessária. Uma vez que o progresso em Link's Awakening não é sempre na mesma direcção, ou seja, há que regressar atrás várias vezes, ter acesso a novos itens permite também que sejam descobertos novos segredos a cada nova passagem.

A obra faz isto de uma forma brilhante. Exigindo ao jogador atenção constante, pois sabemos que não tardará a ser recompensada, o jogo cria uma espécie de intimidade com o fã. Link's Awakening, ainda que seja uma obra com um alcance grande, consegue capturar o micro, seja com estes segredos, seja com a forma como as personagens têm diálogos caricatos, seja ainda pela forma como as masmorras – mesmo depois de encontrarmos o mapa – giram em redor da experimentação e da descoberta até chegarmos ao confronto final com o boss. É também um jogo de paciência então, de morrer quando os corações se esgotam e de tentar novamente.

Não se pode, ou não se deve, começar a jogar Link's Awakening com a determinação que será terminado o quanto antes. Várias escolhas de design reminiscentes dos anos noventa e a própria cadência da aventura fazem com que seja necessário tempo para observar todos os detalhes e engenhos que a equipa da Grezzo, casa responsável pela nova versão e que já tinha assinado as adaptações de Ocarina of Time e Majora’s Mask para a Nintendo 3DS, colocou em cada cena que refez.

Inevitavelmente, os jogadores que estão a experienciar a obra pela primeira vez encontrarão momentos em que não sabem exactamente o que fazer a seguir. Porém, não só o título conta com personagens que dão ajudas, como dispõe também de uma biblioteca onde se pode ficar a saber mais sobre os processos. Na prática, nunca há uma parede tão elevada que nos leve a deitar a toalha ao chão, até porque a curiosidade de ficar a saber o desenvolvimento da história e a vontade de continuar a conviver com as personagens sobrepõem-se a estes ligeiros abrandamentos na progressão.

A principal novidade em termos de conteúdo é uma funcionalidade conhecida como Chamber Dungeons. A personagem Dampé propõe aos jogadores que construam as suas próprias masmorras num mapa disposto em quadriculado. Há certos requisitos a cumprir nas criações e só podem usar salas de masmorras que já tenham concluído no modo principal do jogo.

Na prática, as Chamber Dungeons não funcionam tão bem como a Nintendo terá idealizado, especialmente porque o conteúdo não é propriamente novo, ou seja, estão a terminar masmorras em que já estiveram. Para aliciar as prestações dos jogadores, depois de concluírem as criações podem ficar com as Rupees (a moeda do jogo) que coleccionarem. Contudo, é derradeiramente um modo secundário que não tem uma profundidade capaz de prolongar a longevidade durante muito tempo.

The Legend of Zelda: Link's Awakening é uma festa técnica, usando novas texturas e uma nova linguagem estética. Olhar para o jogo em movimento é a transmissão de bem-estar, mesmo nas situações mais complicadas ou menos luminosas. A obra é apresentada com uma vista aérea do cenário, contando esporadicamente com secções em duas dimensões. Tanto os inimigos, como as personagens secundárias e ainda os interiores das casas, tudo parece construído com uma incansável atenção ao ínfimo detalhe.

Isto é mais uma prova de que o design da obra original continua a ser marcante, mas em 2019 a Nintendo e a Grezzo foram inteligentes ao escolherem as cores para cada secção diferente da aventura. Isto faz com que as áreas sejam diversas, mas também com que fiquem na memória dos jogadores – as cores ajudam a formar essas memórias que depois vão buscar os tais pormenores. É uma mistura executada com mão experiente, que tem o dom de suavizar as tais secções mais complicadas, nunca mostrando a aventura de Link e companhia como algo tenebroso, mas sem esquecer os jogadores mais experientes.

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Há obras com vários estilos gráficos que revelam mundos dantescos, como a série Souls ou o mais recente Blasphemous. Link's Awakening permite viagens a locais pouco convidativos, mas mantém uma consistência gráfica. É uma estadia onde se está bastante bem, parando para admirar os efeitos das chamas ou da água, ou viajando tão profundamente que qualquer vislumbre de luz é uma alegria. O ponto a ser feito é que a estética da obra é deslumbrante, mesmo com algumas quebras na framerate quando jogado em modo portátil.

Também a sonoplastia foi trabalhada pela produtora. A banda sonora, que tinha marcado a aventura original, apresenta-se agora refeita com direito a orquestração. É imponente, marcante, capaz de acompanhar os momentos importantes, empolgando-os. Mas sabe também qual é o seu lugar, não querendo para si o protagonismo técnico quando são momentos onde é o grafismo a assumir esse posto. Tal como em quase tudo na obra, é um trabalho cuidado e atento ao contexto.

Com a sua chegada à Nintendo Switch, The Legend of Zelda: Link's Awakening está suficientemente diferente do original para que os fãs mais velhos consigam criar novas memórias, mas continua suficientemente fiel para que as memórias antigas não sejam apagadas. E quem nunca experimentou a vida em Koholint Island tem agora uma excelente oportunidade para partir numa aventura memorável. É, derradeiramente, uma obra com uma enorme alma e uma execução a condizer.