Aos dez anos, a Estrutura quis desmanchar a sua própria festa de aniversário

Festiva, a rentrée do Teatro Municipal do Porto acolhe um “espectáculo-prenda” em que a celebração vai ter à reflexão e ao questionamento.

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Por que é que o ser humano insiste em assinalar a passagem do tempo, mesmo que esta signifique a aproximação da morte? E como explicar o esforço e o trabalho investidos em eventos tão efémeros como uma comum (mas socialmente relevante) festa de aniversário? Estas foram algumas das questões com que Cátia Pinheiro e José Nunes se depararam na preparação de Party, espectáculo que teve como mote o décimo aniversário da Estrutura, a companhia de teatro que os dois fundaram no Porto.

Como em qualquer festividade, também neste espectáculo há música, convidados e prendas. No entanto, desengane-se quem achar que se trata efectivamente de uma celebração. As grandes questões contemporâneas parecem estar inscritas no ADN da Estrutura, pelo que a ideia de criar uma peça em que o tema central fosse “uma festa” soou, num primeiro momento, “banal e frívola” aos criadores. A partir daí, a palavra de ordem foi “desconstruir”. Decidiram abordar, por exemplo, o dispêndio excessivo de recursos impulsionado por um modelo capitalista exacerbado que cria a “necessidade de organizar eventos só porque sim”, e assim se distanciaram “da ideia de ‘festa’ num sentido comemorativo”, para se centrarem nos prejuízos que lhe são intrínsecos, como o consumismo.

No processo de criação do espectáculo, o paralelismo constante que Cátia e José tentaram estabelecer entre “o episódio festivo e o momento artístico” foi um elemento-chave: ambos são “momentos fugazes e efémeros” que exigem no entanto “grande preparação”. “Há esta ideia de preparação contínua que sentimos e que reflecte o nosso percurso. Estamos a produzir há dez anos e o espectáculo espelha isso: temos tanto tempo de ensaios e de repente chegamos aqui”, explica Cátia.

Outra característica comum aos dois contextos é a possibilidade de falha, uma problemática transversal a toda a peça que, na opinião dos criadores, está muito presente na contemporaneidade, principalmente na relação que passámos a ter com a imagem. “Todos querem ficar o melhor possível nas selfies, todos querem uma imagem imaculada. Nas artes é igual, o momento de apresentação tem de ser infalível, maravilhoso. Este espectáculo é uma grande apologia da falha.” Ainda que, ressalvam, fujam a “sete pés da moralidade”.

A analogia entre festa e espectáculo estende-se aos convites endereçados à “família alargada” que construíram ao longo da última década para integrar Party, o que se concretizou através de “encomendas” a vários artistas, como José Maria Vieira Mendes, Rogério Nuno Costa ou André Godinho. Estas chegaram sob a forma de textos, vídeos e outros elementos cénicos, contributos activos para a construção da peça que permitem revisitar marcos da Estrutura.

Também os colaboradores normalmente “invisíveis” ao público, responsáveis pela componente técnica, são chamados a palco. Uma forma que Cátia e José encontraram de destacar a ideia de “encontro”, que permaneceu desde os esboços iniciais, ainda que desconstruída, e de dar o devido valor a todas as linguagens artísticas, igualmente relevantes na hora de montar um espectáculo. “Um texto é tão válido como uma luz a incidir sobre um determinado sítio, ou como uma peça de cenário. Têm a mesma capacidade de construir semiótica, linguagem e comunicação”, argumenta José Nunes.

Sem fórmulas

Apesar de Party tocar em muito elementos característicos da Estrutura (nomeadamente a componente multimédia), e de ali se fazer uma reflexão sobre o caminho traçado nos últimos dez anos, os dois criadores recusam a ideia de que se possa retirar desta peça alguma conclusão quanto à identidade da companhia. Até porque se alguma coisa a caracteriza é o esforço constante “para não repetir fórmulas” e para que cada peça tenha a sua própria metodologia.

“Trabalhar com o que temos à frente dos nossos olhos e com o que nos rodeia” é quase um mantra para Cátia. Talvez por isso não se atrevam a antecipar o futuro da Estrutura. Ainda assim, os dois estão certos de que a incerteza e as dúvidas vão estar presentes, como sempre estiveram. Uma previsão “assustadora”, mas que não configura de todo um “problema” para estes criadores habituados a que os objectos artísticos “lhes saiam das mãos”.

Ao reflectirem sobre o trajecto já percorrido, os fundadores da Estrutura preferem destacar os aspectos positivos, principalmente a evolução do panorama artístico do Porto – ainda que numa primeira fase tenham “fugido para Lisboa”. “Criamos a companhia em 2009 e regressamos em 2012, a partir do momento em que o Teatro Municipal do Porto [TMP] volta com esta força e passamos a ter um interlocutor na cidade interessado no nosso trabalho”, resume José, que se regozija com a “força actual das artes performativas” no Porto. “Mesmo assim, e embora o contexto da cidade esteja a mudar”, ressalva, “ainda há muito por fazer”.

Party estreia-se este sábado no Teatro do Campo Alegre, onde a Estrutura é companhia residente. No entanto, as festividades da rentrée do TMP não se esgotam aqui: já esta sexta-feira, o Teatro Municipal Rivoli regressa à actividade com um duplo programa festivo. Israel Galván, coreógrafo e bailarino sevilhano, regressa aos palcos portuenses com La Fiesta, uma inesperada viagem à infância e à essência do flamenco; a seguir, o cantor Niño de Elche apresenta Colombiana, numa antecipação do que pode vir a ser o flamenco do futuro sob a influência dos sons da América Latina que no passado já “contaminaram” este género.

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