Cofina lança OPA sobre Media Capital para criar “grupo de media independente”

A dona do Correio da Manhã está oficialmente na corrida pela compra da TVI. Oferta é feita em duas pistas: na bolsa, oferece 2,33 euros por acção; fora de mercado fechou com a Prisa um preço de 2,13 euros. No total, negócio atinge os 255 milhões.

Cofina
Foto
A TVI é detida pela Media Capital Nelson Garrido

A dona do Correio da Manhã, a Cofina, acaba de lançar no mercado uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre as acções da Media Capital. De acordo com o comunicado divulgado pela Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) este sábado, a Cofina propõem-se pagar 2,3336 euros por cada acção da empresa que detém a TVI.

No anúncio da oferta preliminar, a empresa de Paulo Fernandes contabiliza o valor total da oferta em 10,4 milhões de euros (10.467.533,1528 euros), “ao qual se deduzirá qualquer montante (ilíquido) que venha a ser atribuído a cada acção, seja a título de dividendos, de adiantamento sobre lucros do exercício ou de distribuição de reservas”. 

Esta oferta é sobre os títulos que a Vertix (fundo que controla a Media Capital) não detém, isto é, sobre 5,31% do capital social da dona da TVI que estão dispersos no mercado. E o seu preço poderá ainda ser fixado através de um auditor independente designado pela CMVM, dada a baixa liquidez (poucas transacções) das acções no mercado.

No entanto, em paralelo, a Cofina diz ter fechado um acordo de compra e venda com a Vertix para adquirir os seus 94,69% por um valor de 2,13 euros por acção. Isto porque, justifica, “a Vertix declarou a sua intenção de não aceitar a oferta”. Este preço é inferior ao oferecido aos restantes accionistas da Media Capital porque não assume a dívida da empresa de media.

No total — preço em mercado (10 milhões de euros), contrato de compra e venda (cerca de 180 milhões) e dívida (cerca de 60 milhões de euros) —, a operação fica avaliada ligeiramente acima dos 250 milhões que tinham sido já noticiados.

A Cofina justifica a oferta com a sua “estratégia de consolidação dos media no plano global”, comprometendo-se a manter “no essencial a actividade destas sociedades e das sociedades que com estes estejam em relação de domínio ou grupo”, de forma a “potenciar o investimento na expansão digital, o lançamento de serviços inovadores e a promoção e desenvolvimento de conteúdos produzidos em Portugal”, prometendo manter a Media Capital “como um activo com identidade portuguesa”.

Sindicato de Jornalistas pede esclarecimentos

Quem voltou  a manifestar preocupação com este negócio foi o Sindicato de Jornalistas (SJ) que, em comunicado instou a a Entidade Reguladora para a Comunicação Social a pronunciar-se rapidamente sobre o negócio em curso. O SJ considera que "a excessiva concentração dos média tem repercussões ao nível da pluralidade e qualidade da informação”, lembrando que estão várias marcas de informação em causa. A Cofina é dona dos órgãos de informação Jornal de Negócios, Correio da Manhã, Record, CMTV, Sábado, entre outros. A Media Capital detém a TVI e a Rádio Comercial.

Num comunicado enviado às redacções  Paulo Fernandes, presidente da Cofina, justifica esta operação com “a visão que a empresa tem para os media e afigura-se como aquela que melhor é capaz de garantir o seu crescimento e a sua sustentabilidade, e está em linha com a tendência global para a consolidação do sector dos media nos últimos anos”. Adicionalmente, sublinha que “esta aquisição garante a existência de um grupo de media independente e capaz de reforçar o papel que os média têm enquanto pilar essencial à vida de uma sociedade democrática”.

Sobre a produção, Paulo Fernandes acrescenta que o caminho passará por intensificar a criação de conteúdos de perfil exportador, tendo em vista a transposição para a legislação nacional da designada ‘directiva Netflix'”. E assume a intenção de contar “com os melhores profissionais, seja nas áreas de televisão, rádio, imprensa e produção, garantindo a criação de condições de desenvolvimento pessoal e profissional, de forma sustentável”.

Após o lançamento desta oferta, a dona da TVI fica limitada na sua gestão, não podendo tomar decisões que alterem significativamente o valor da empresa, desde contrair nova dívida, vender activos, investir, aumentar salários, etc.

O negócio terá agora de passar pelo crivo das várias autoridades reguladoras, com especial atenção para o supervisor da Concorrência, que vai avaliar, por exemplo, se a junção das televisões dos dois grupos — CMTV e TVI — não representará um entrave à concorrência no sector. Também o regulador dos media terá uma palavra a dizer sobre esta união de dois grupos que, juntos, constituirão o maior grupo de media do país entre televisões, rádios, jornais e revistas, para além de uma das maiores produtoras nacionais, a Plural. Os accionistas da Prisa também terão de aprovar as operações. E num comunicado divulgado ao regulador de mercado espanhol, a CNMV, a Prisa anunciou hoje que estimava perder 76,4 milhões de euros com este negócio.

A Cofina explica ainda que o financiamento da operação será assegurado através “de um ou mais aumentos de capital social do Oferente por novas entradas em dinheiro, no montante necessário para, conjuntamente com a parcela de financiamento bancário a contrair pela Oferente, financiar a aquisição da participação da Prisa” pela empresa detida por Paulo Fernandes. Conforme já foi noticiado, a Cofina conta, neste negócio, com o apoio financeiro de Mário Ferreira, empresário que lidera a Douro Azul, e do banco espanhol Abanca, para além do financiamento bancário do Santander e Société Générale.

Recorde-se que a Cofina havia assinado com a Prisa, que controla actualmente a Media Capital, um memorando de entendimento que obriga o grupo espanhol a negociar em “regime de exclusividade” com a Cofina a “potencial aquisição da participação da Prisa na Media Capital”. Essa mesma informação foi enviada ao mercado no dia 14 de Setembro. Os rumores sobre o interesse da Cofina na Media Capital eram bem mais antigos, e começaram a circular poucos meses depois do fim do negócio com a Altice — que deixou expirar o prazo previsto no contrato de compra e venda para a conclusão do negócio sem tomar qualquer decisão.

Para a desistência da Altice muito contribuiu a imposição de remédios (condições para garantir a existência de concorrência) pela Anacom, que a Altice sempre se recusou a adoptar. Já no caso da Cofina, foram avançados os mais diversos cenários, desde uma participação no capital até à compra integral, passando por uma fusão. A partir deste sábado não há mais cenários: a Cofina pretende a compra integral da empresa.