Culpar os videojogos pelos ataques nas escolas é uma questão de cor da pele, indica estudo

Investigadores nos EUA concluíram que os jogos são mais vezes apresentados como uma possível causa quando o autor dos disparos é branco.

Alunos de um liceu americano treinam para a possibilidade de um tiroteio na escola
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Alunos de um liceu americano treinam para a possibilidade de um ataque armado na escola Rick Wilking/Reuters

Em 1999, quando dois alunos assassinaram 13 pessoas no liceu americano de Columbine, os videojogos surgiram nos jornais e televisões como uma possível explicação. Duas décadas depois, um ataque numa escola continua a fazer surgir no discurso público a questão dos videojogos violentos.

Porém, a investigação na academia já indicou que a violência no ecrã não é transposta para a vida real. Então, por que continuam os videojogos a serem dados como explicação para aquele tipo de crimes? A resposta podem ser estereótipos raciais e a necessidade de encontrar uma justificação quando o assassino é branco, indica um estudo recém-publicado, que analisou tanto o comportamento de voluntários em laboratório como milhares de artigos nos media americanos.

“Apesar de não haver investigação que relacione ataques em escolas e videojogos, os videojogos são frequentemente associados a ataques em escolas levados a cabo por autores brancos”, escreve um grupo de académicos de três universidades dos EUA, onde este género de episódios é mais frequente do que noutros países. “Como há uma associação estereotipada entre minorias raciais e crimes violentos, é possível que as pessoas muitas vezes olhem para os videojogos como a causa para tiroteios em escolas perpetrados por pessoas brancas que não se encaixam naquele estereótipo”, refere o artigo, publicado numa revista científica da Associação de Psicologia Americana.

A conclusão resulta de duas análises diferentes. Num primeiro estudo, os investigadores reuniram 169 voluntários (todos estudantes universitários e a grande maioria branca) a quem foram distribuídas notícias inventadas, que foram apresentadas como sendo fotocópias de notícias verdadeiras.

Uma daquelas falsas notícias era sobre um ataque numa escola, levado a cabo por um rapaz de 18 anos, que o texto descrevia como sendo adepto de videojogos. A notícia, contudo, não fazia referências à possibilidade de os videojogos terem motivado o crime. A acompanhar o texto havia uma fotografia tipo passe do autor dos disparos. Em metade dos casos, a fotografia era de um rapaz branco. Na outra metade, de um rapaz negro. Foram usadas ao todo seis fotografias diferentes, que tinham sido seleccionadas por terem obtido uma pontuação semelhante num teste em que foi pedido a voluntários que as classificassem em relação a questões como o aspecto violento ou perigoso.

Quando foi pedido aos voluntários para responderem a um questionário sobre as notícias, os investigadores notaram que a culpa era mais frequentemente atribuída aos videojogos no caso em que o autor dos disparos era branco. Além disso, a experiência também indicou que quem não jogava videojogos tinha uma maior tendência para os indicar como uma causa para os crimes. 

Num segundo estudo, os investigadores analisaram 6814 artigos de imprensa sobre tiroteios em escolas e noutros locais públicos, e que mencionavam videojogos. Ao todo, os artigos abordavam 204 episódios, ocorridos entre 1978 e 2018. Em 131 casos, o atirador era branco. Nos restantes 73, era negro.

A análise descobriu que os artigos raramente mencionavam videojogos quando o local dos disparos não era uma escola. Mas, quando se tratava de uma escola, os jogos eram referidos em 6,8% das notícias sobre casos em que o atirador era branco e em apenas 0,5% dos artigos sobre casos em que o atirador era negro.

“Tendo em conta que as descobertas do primeiro estudo e do segundo estudo são as mesmas usando amostras muito diferentes (estudantes universitários e notícias de jornais), parece provável que estes resultados sejam generalizáveis para a população dos Estados Unidos”, disse ao PÚBLICO o investigador Patrick Markey, que encabeçou a investigação.

No artigo, a equipa explica que os resultados podem decorrer de preconceitos raciais: “Académicos, legisladores e os media relacionam frequentemente os videojogos com os tiroteios em escolas, especialmente quando o autor é branco. Uma razão possível para esta relação são associações estereotipadas entre minorias raciais e crime violento. Isto pode levar indivíduos a procurar uma explicação externa (como videojogos violentos) quando tentam entender um acto de violência levado a cabo por alguém branco.”

Ao PÚBLICO, Markey argumenta que há mais factores para que os videojogos sejam apresentados como causas de violência: “Outra razão por que os jogos levam com as culpas, especialmente por parte de legisladores, é que servem para distrair de outros assuntos (como o controlo de armas, saúde mental, etc.), que normalmente são mais difíceis de abordar politicamente.”