Crónica

Dança na Rua Washington

Acabada a dança, os condutores cruzam-se à janela mas desta feita já não há risadas, só impropérios. Nos passageiros é ao contrário: aceitam a adversidade com alguma condescendência, estamos todos num filme do Jacques Tati e não nos avisaram.

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Vasco Neves (arquivo)

Foi na quarta-feira. Às oito da noite Lisboa estava com aquele seu ar de cidade marota, rosa dourado e sépia de quem alicia, piscadela de olho ao incauto que não lhe conheças as manhas. A cidade apetecia, punha-se a jeito para a noite, um convite quase descarado e luxuriante, falinhas mansas de sabidona.

Mas nem sempre o diabinho que trazemos ao ombro pode ter rédea solta. O anjinho, maior ou mais pequeno, não usa as artes da sedução, tem antes um espigão afiado que vai penetrando ritmada e ininterruptamente na consciência até que esta se convença de que a razão tem razões e não vale a pena contrariá-la.

Assim nos deparamos dentro de um autocarro, no caso vertente a carreira 735 da Carris, Cais do Sodré-Alameda, às vezes Hospital de Santa Maria, sempre assegurada por uns veículos que têm umas folhagens verdes do lado de fora, uma bizarra liberdade artística de que desconhecemos a origem.

Geralmente é assim: se não sair já cheio do Cais do Sodré, o autocarro vai relativamente vazio por ali fora, Rua do Arsenal, Praça do Comércio, Campo das Cebolas, até Santa Apolónia. Aí dá-se a grande enchente, toda a sorte de pessoas. Depois começa o calvário por Santa Engrácia acima, o carro a rugir em sofrimento, os turistas divertindo-se com as curvas do caminho. Carreira divertidíssima, sempre com um ou dois estarolas que animam o percurso.

Na quarta-feira foi diferente. Mal o autocarro saiu do Cais do Sodré deparou-se com um motorizado agente da Polícia Municipal, na esquina do Corpo Santo, óculos escuros e braço em riste a impedir a passagem. A Rua do Arsenal estava cortada. Mau augúrio, mas quando assim sucede os veículos desviam-se para a beira do Tejo e têm-se ali uns minutos, no incessante pára-arranca, em que o diabinho volta a insuflar-se com a perspectiva da cidade brilhante e do rio manso.

Fugaz sensação de escape, logo quebrantada com avanço do autocarro pela Infante D. Henrique, avenida que merece sorte e bom-gosto, coisas por que aguarda pacientemente. Parece retomada a normalidade: o 735 vira à esquerda em direcção a Santa Apolónia, pára, abastece-se de passageiros, prossegue pela esquerda da estação e lança-se pela Rua Vale de Santo António.

O desafio está logo ali, literalmente ao virar da esquina. Chama-se Rua Washington, é uma dessas artérias caprichosas que serpenteiam a colina como um invertebrado, curva, contracurva e depois uma extensa recta, prédios de um lado e carros do outro, se aqui se cruzam dois autocarros é um trinta-e-um.

Faz-se o veículo à curva, ainda não saiu do Vale de Santo António, depara-se logo com um imprevisto – há outro 735 mesmo em frente, a tentar subir, parado. Está imóvel porque vem a descer outro 735 e a rua não dá espaço para tudo. A coisa não se resolve facilmente. O autocarro descendente vem devagarinho, devagarinho, quase a rasar retrovisores e põe-se a jeito para sair do aperto. O nosso motorista engata a marcha atrás, ouve-se o pi-pi-pi, desce muuuuito leeentameeeeeeente e o que desce já consegue fazer a curva e ir-se embora. Ao cruzarem-se à janela, os condutores trocam risadas, dizem “isto hoje!” e seguem a sua vida.

Lá vai de novo o autocarro a fazer-se à curva, agora mais despreocupado porque — caramba! — já não deve haver mais surpresas. Afinal há. O tipo da frente ainda não se mexeu, que raio está ele a fazer parado? Vem outro 735 a descer e desta vez a coisa é ainda mais delicada. O motorista desse descendente tem de sair do carro para vir auxiliar na manobra, outra vez marcha atrás, outra vez pi-pi-pi, um homem à varanda regala-se com o espectáculo.

Acabada a dança, os condutores cruzam-se à janela mas desta feita já não há risadas, só impropérios. Nos passageiros é ao contrário: aceitam a adversidade com alguma condescendência, estamos todos num filme do Jacques Tati e não nos avisaram.

O autocarro da frente lá se mexe, o nosso também. Vence-se uma curva, vence-se a contracurva, entra-se na recta. Entretanto, sem darmos conta, esfumou-se o lusco-fusco, já é mesmo noite, quebrou-se o encanto da cidade marota.

E… que raio: vem outro 735 a descer.