LUSA/Niels Christian Vilmann
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Megafone

Combater o extremismo? Not working

Não há dúvida de que a crítica do extremismo é absolutamente necessária. Mas sozinha é terrivelmente ineficaz, mais ainda quando aliada a uma descredibilização dos eleitores.

Estamos fartos de ouvir falar de populistas, mas temos de reconhecer: é extraordinário como líderes de grandes países conseguem ser eleitos tendo a quase totalidade dos media contra eles. A ideia de que para ter um bom resultado eleitoral e ser popular é necessário cair nas boas graças das televisões, até hoje dada como evidente, foi subitamente desfeita em mil pedaços.

Resistindo à introspecção, jornalistas e políticos adoptaram uma postura de resistência: não houve um só dia de tréguas na luta aberta das televisões e jornais contra Trump, Bolsonaro ou LePen e, no entanto, as probabilidades de voltarem a ser eleitos (ou terem resultados eleitorais importantes) são elevadíssimas. A conclusão é inevitável: a estratégia não está a resultar.

Um traço característico do populismo é a vontade de encarnar a voz do povo. Se o povo opta por um líder populista é geralmente porque não sente que a sua voz é ouvida. E se não é ouvida é, certamente, porque não ecoa. Ora, os media são o mais importante vector de comunicação entre o povo e as elites e, como tal, a democracia vive em parte da sua capacidade em virar os holofotes para as necessidades das populações, denunciar os abusos e fiscalizar a capacidade representativa dos políticos. Mas os media perderam o rasto à maioria insatisfeita. Tanto que não a viram chegar. O facto de o Brexit ou a eleição de Trump ter apanhado os jornalistas de surpresa é precisamente prova desse enorme distanciamento. Ninguém esperava porque ninguém escutava. E uma população que não é escutada vota em quem lhe dá voz.

A solução seria quebrar o distanciamento, aproximar-se das populações, ouvindo e compreendendo o eleitor descontente. Colmatar o devastador défice de atenção, tirando o tapete aos líderes populistas que deixariam de monopolizar a atenção dos desatendidos.

Mas não.

O que se seguiu não foi uma aproximação à população, mas sim um ataque cerrado aos líderes eleitos. E quanto mais se critica, menos ouvidos e compreendidos se sentem os eleitores e mais tendem a virar-se para os extremos. Este é o círculo vicioso, alimentado pelo sentimento de injustiça, as desigualdades e a cegueira mediática e política que engorda o poder de um líder populista e o isola como única e falsa expressão da voz de uma maioria.

Com um tiro no pé, o ataque fez-se também directamente contra os eleitores. É natural que apenas uma parte dos conteúdos chegue ao meu feed de notícias, filtrado e customizado por aquilo que algum algoritmo sofisticado considera ser o meu gosto básico. Mas o facto é que tudo o que vejo sobre estes eleitores são vídeos de demonstrações racistas, entrevistas que procuram ridicularizá-los ou cenas de violência. A oposição política não ajuda, apressando-se a colar etiquetas de “racista”, “xenófobo” ou “transfóbico” a qualquer um. Outros mitos se lançaram, como a ideia de que quem vota em populistas é totalmente desprovido de inteligência e de educação. Esta postura é prova da incapacidade de media e políticos em reverter a situação e atender às populações. Não com aproximação, como se pedia, mas com crítica.

E assim se divide um país.

Não há dúvida de que a crítica do extremismo é absolutamente necessária. Mas sozinha é terrivelmente ineficaz, mais ainda quando aliada a uma descredibilização dos eleitores. Só indo ao encontro destas populações, compreendendo as suas necessidades e focando na origem dos seus desafios podemos combater o extremismo. Este não é, por isso, um tempo para a crítica cega e obsessiva. É um tempo para mudança de estratégia. É tempo para ouvir.