Risco de colisão com satélite da SpaceX obriga ESA a mudar de rota

A empresa de Elon Musk recusou mudar a rota do seu satélite. A alteração de trajectória foi feita com sucesso pela ESA, que teme aumento de casos devido ao crescente número de satélites em órbita.

O satélite <i>Éolo</i>, da ESA, foi lançado em Agosto de 2018
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O satélite Éolo, da ESA, foi lançado em Agosto de 2018 ESA/ATG

A Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla inglesa) teve de alterar a trajectória de um dos seus satélites na segunda-feira para evitar a colisão com um dos satélites Starlink, pertencentes à empresa de exploração espacial ​SpaceX, do multimilionário Elon Musk. Segundo anunciou a ESA nesta terça-feira, a SpaceX recusou-se a mover o seu satélite. 

Tudo aconteceu na manhã de segunda-feira, 2 de Setembro, a 320 quilómetros de altitude. A órbita dos dois satélites cruzava-se, o que fez com que o Éolo, satélite de observação da ESA, tivesse de activar os seus propulsores para se desviar e evitar uma possível colisão com o Starlink 44. Depois de “passar por cima” do Starlink 44, o Éolo voltou à sua trajectória habitual. 

“Pela primeira vez, a ESA fez uma manobra para evitar a colisão de um dos nossos satélites com uma ‘megaconstelação’” de satélites da SpaceX, anunciou a agência europeia no Twitter. Os peritos em resíduos espaciais calcularam o risco de colisão entre os dois satélites e determinaram que a opção mais segura seria aumentar a altitude e passar por cima do satélite da SpaceX. Pouco depois, “provou-se que a manobra foi um sucesso e que a colisão foi evitada”.

A ESA diz ainda que é “muito raro” fazer-se uma manobra destas com satélites em actividade – por norma, estas manobras são feitas quando existem “satélites ‘mortos’ ou fragmentos resultantes de colisões anteriores”. “Isto é expectável tendo em conta que dos 20 mil objectos criados pelo homem que estão hoje no espaço, só cerca de 2000 correspondem a satélites em actividade”, explica a ESA ao PÚBLICO. Em 2018, a ESA fez 28 destas manobras manuais, que “levam muito tempo a preparar”. 

“Não há regras no espaço”

Citado pela Forbes, o responsável pelo departamento de resíduos espaciais da ESA, Holger Krag, diz que o risco de colisão entre os dois satélites era de 1 em 1000. Pode parecer pouco, mas é dez vezes superior ao limite estipulado pela agência para que seja necessária uma manobra para evitar a colisão com outro veículo espacial.

Ainda que o Starlink 44 tenha sido lançado em Maio deste ano, nove meses depois de o satélite Éolo ocupar já aquela trajectória, a SpaceX recusou-se a mover o satélite depois de ter sido alertada do risco de colisão. O alerta tinha sido dado às duas agências pelos militares norte-americanos, responsáveis pelo controlo do tráfego aéreo. “Com base nisto, informámos a SpaceX que respondeu que não planeavam tomar medidas”, adianta o responsável da ESA.

Em resposta ao PÚBLICO, a SpaceX explica que houve uma falha no sistema que não avisou que havia um aumento da probabilidade de colisão. “A SpaceX está a investigar este problema e irá aplicar medidas correctivas. Ainda assim, se o operador da Starlink tivesse visto a comunicação, teríamos coordenado com a ESA para ver qual seria a melhor forma: ou eles continuarem a manobra, ou fazermos nós a manobra.”

Quando ainda não tinham sido dadas explicações por parte da SpaceX, Holger Krag afirmava que a decisão pudesse estar relacionada com o sistema de propulsão eléctrico dos satélites de Musk, “que podem não reagir tão rapidamente” quanto o de propulsão química do Éolo, o satélite europeu que tem como missão observar o perfil dos ventos à escala global. Em Maio, a SpaceX lançou 60 satélites Starlink para a órbita terrestre e o objectivo é lançar, nos próximos anos, 12 mil destes satélites que fornecem Internet de alta velocidade.

“Não há regras no espaço”, observa Krag. “Ninguém fez nada de mal. Não há uma regra que diz que alguém aqui estava primeiro. O espaço não está organizado e acreditamos que precisamos de tecnologia para monitorizar este tráfego.”

A ESA mostrou ainda preocupação por causa do aumento do número de satélites em órbita – incluindo estas “megaconstelações”, que podem ter centenas de satélites. A este ritmo, dizem, tornar-se-á impossível fazer manobras manuais deste género, daí que se esteja a equacionar o uso de inteligência artificial.

Notícia actualizada às 9h57 de 4 de Setembro: foram acrescentadas as respostas dadas ao PÚBLICO pela SpaceX e pela ESA.