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Bia não compra roupa há um ano. E o “consumo consciente” não lhe tira nada

Tornam todas as estações do ano um pouco mais verdes através das suas escolhas. No Verão, não abandonam a causa: fazer do mundo um lugar mais sustentável. Bia deixou de comprar roupa nova há cerca de um ano, mas sempre praticou um “consumo consciente”. Comprar não lhe deixa saudades — há muitas formas de renovar o armário.

Se Bia olhar para as roupas da filha que levou na mala de viagem, não encontra nada comprado por si: “Todas as roupas que trouxe para as nossas férias são roupas que eram das primas dela”, conta. O seu armário não é muito diferente: há cerca de um ano que não adquire uma peça nova, optando sobretudo por trocas ou compras em segunda mão. E antes de deixar de comprar de vez, já não o fazia com muita frequência: primeiro por uma “questão de estética” e de procura por um “look vintage”, que encontrava nas roupas em segunda mão; mais tarde, por perceber que ao comprar ou trocar roupa usada podia praticar um “consumo consciente”.

Foi durante a adolescência que Bia Farão, agora com 37 anos, se começou a preocupar com “a questão do consumismo e da roupa descartável”. Nasceu no Brasil, mas estava no Canadá, onde cresceu e estudou, quando uma manifestação contra o encontro da Organização Mundial do Comércio rebentou em Seattle, em 1999. Bia fazia parte de “um grupo de estudantes que trabalhava com questões de globalização” e fez parte desse “movimento anti-globalização”. Preocupavam-na as questões ambientais, bem como a “questão laboral, dos direitos humanos e da exploração dos trabalhadores nas fábricas” das grandes marcas.

De acordo com o relatório Changing fashion: The clothing and textile industry at the brink of radical transformation do Fundo Mundial para a Natureza (WWF - World Wide Fund for Nature) estima-se que a indústria têxtil emita 1,7 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono anualmente, sendo assim “um contributo significativo para o aquecimento global”. O impacto estende-se também aos recursos hídricos, uma vez que além de gastar “altos volumes de água” (para produzir um par de calças de ganga podem ser utilizados até 10 mil litros de água), o sector utiliza “químicos tóxicos” que provocam “danos na bacia hidrográfica, solo e biodiversidade”. E a pressão ambiental é exacerbada “de ano para ano”: “O consumo global aumentou o dobro entre 2000 e 2014”, lê-se no relatório divulgado em 2017. Em média, “cada pessoa nos países da OCDE compra 20 quilos de roupa por ano e um estudo no Reino Unido mostra que há 3,6 mil milhões de peças de roupa por vestir nos armários”. Por cá, indica a Agência Portuguesa do Ambiente, os portugueses deitam 200 mil toneladas de roupa para o lixo todos os anos

Bia não quer contribuir para estes números. Até porque não considera que seja preciso “um esforço” para não comprar peças novas: “Não sinto que me esteja a privar de coisas porque deixo de comprar na Zara ou na H&M. Não sinto falta disso”, refere. Há, aliás, várias formas de renovar o armário: em Coimbra, onde mora, participa em eventos de troca de roupa, organizados pela Casa da Esquina, associação da qual faz parte. É uma das formas de “ter acesso” a roupas que de outra forma não teria. O único “vício” do qual não se consegue livrar é o de comprar t-shirts para “ajudar equipas” adversárias de Roller Derby, desporto que pratica e do qual é treinadora. “Ao longo deste ano devo ter comprado duas ou três. Mas deve estar a fazer um ano que não compro roupa de dia-a-dia.”

Tem “a sorte de ter familiares com filhos mais velhos” o que significa que também não precisa de comprar roupa para a filha de três anos. “Tenho comprado muito pouca coisa para ela. No máximo compro coisas práticas, como cuecas e meias, coisas que não duram tanto tempo e não passam de pessoa para pessoa”, resume. E já começa a “semear” a ideia de que não são precisas tantas coisas novas, contrariando também as “estratégias das marcas”: “Uma coisa que está na moda na Primavera de 2019, na próxima Primavera já não vai estar e isso é uma estratégia para as pessoas continuarem a comprar.” Por isso, recomenda “remar contra essa maré”: “Deve-se optar por peças básicas, que são mais clássicas e não dependem de uma moda passageira.”

O primeiro passo é “olhar para o armário e ver o quanto se vai acumulando, o quanto já se tem e não se utiliza”, olhar para “o que está escondido no fundo da gaveta e ver se as peças ainda têm alguma utilidade” — “às vezes basta fazer rotatividade das roupas”. Depois, perceber se o que está estragado pode ser arranjado, ainda que seja “contraditório porque uma pessoa pode comprar uma roupa por três euros e pagar mais por remendar uma peça antiga”. Mesmo que a escolha não seja “economicamente tão clara”, é preciso perceber se uma peça estragada ainda pode ser transformada noutra qualquer: o chamado processo de upcycling (transformar resíduos ou produtos inúteis em produtos de maior valor ambiental ou qualidade). A nova meta de Bia é aprender a costurar para poder fazer as suas próprias roupas ou ser capaz de transformar as que já tem. Na Casa da Esquina, há aulas de costura gratuitas. 

Bia deixa ainda mais uma dica: “Criar, com um pequeno grupo de amigos, uma troca de roupa. Não só é uma forma de reciclar o guarda-roupa, como também é interessante conhecer a história das peças dos outros. Aquela roupa passa a ganhar uma nova casa e a ter uma nova história.” E, quem sabe, assim se fique mais perto de contrariar as previsões que dizem que em 2030 as indústrias têxtil e do vestuário vão utilizar “mais 50% de água, emitir mais 63% de gases de efeito de estufa e produzir 62% mais desperdício em comparação com 2015”.