Opinião

Uma História sem letras: o âmago do Museu

A nova definição de museu do ICOM torna-se demasiado erudita (no conceito), pós-moderna (no discurso) e regionalista; essencialmente, foge à linguagem dos museus e dos seus profissionais.

Em 2013, decidi propor ao departamento de História da Pontifícia Universidad Católica de Chile um novo curso optativo denominado Uma História sem letras. Este curso visava acabar com a dicotomia ainda vigente na América do Sul entre História e Antropologia (na qual se insere a Arqueologia), em que, tendencialmente, a primeira estuda os brancos (a sua história europeia e a da sua colonização na América) e a segunda estuda as comunidades indígenas. Pretendia, com este curso, acabar com esta separação estruturalista e demonstrar que as duas disciplinas devem ser complementares e que, na realidade, no caso chileno, a História em si, com o seu método clássico de análise documental, era insuficiente, inclusivamente para estudar a integridade da história do país nos últimos cem anos: os indígenas não usavam a escrita e mais de metade da população (população essa que, segundo os estudos, é essencialmente mestiça e, portanto, portadora de duas tradições), em 1920, não sabia ler nem escrever. A História no Chile sempre foi uma visão de uns poucos sobre a maioria, mas não será também assim noutros lados? O início foi animador: 25 alunos inscritos, com vários no final a optarem por fazer um minor em Antropologia e a interessarem-se pelo passado indígena e mestiço, mas a riqueza residiu, sobretudo, num crescente interesse pela materialidade, pelos fragmentos que, finalmente, são as “letras” que compõem um novo tipo de texto, uma narrativa diferente… alguns desses alunos estão hoje a desbravar os museus do país andino, o lugar onde se faz História e fazem histórias sem letras.

George Duby na sua obra seminal A História Continua, antítese estruturalista de O Fim da História e o Último Homem de Francis Fukuyama, indica-nos, numa reflexão final sobre o futuro da História, que “[…] os historiadores se apercebiam de que os objetos revelam da vida das gentes que outrora os usavam, tanto, ou mais, e de forma menos suspeita, do que os escritos”. Contudo, a narrativa dos objetos não é a mesma que a da escrita, nem se podem criar as mesmas expetativas interpretativas. Poderíamos falar de uma relação simétrica entre pessoas e objetos, algo que foi muito bem sintetizado pelo colega etno-arqueólogo Alfredo Gonzalez-Ruibal, que nos diz, num texto publicado na revista Complutum, que temos de tomar em consideração: “[…] a forma em que as pessoas se encontram materialmente involucradas no mundo e nas suas relações com os objetos e dar conta dessa experiência; […] conscientes de que o passado está povoado tanto por pessoas como por objetos estando estes estreitamente relacionados, não por indivíduos, nem entes abstratos […]” pois, como nos indica Chris Tilley em The Materiallity of Stone, entendemos os objetos socialmente do mesmo modo como nos relacionamos com as pessoas, eles são geradores de pensamento e de ações.

Na semana passada assisti, em Portugal, a uma excelente exposição que exemplifica esta situação de uma narrativa histórica através dos objetos: trata-se da exposição O Gosto pela Arte Islâmica, em exibição na Gulbenkian; nela vemos refletida a evolução do gosto europeu pelo orientalismo, o fim desta paixão, a passagem para o “islamismo” e a sempre pouco “académica” relação entre colecionismo e historiografia, tudo muito bem envolvido por uma expografia imaginativa, como é apanágio do Mariano Piçarra. Mas, se no caso desta exposição da Gulbenkian a prioridade dos curadores teve em conta que o conceito evolutivo da arte islâmica se insere num contexto museográfico, no qual os objetos ilustram ideias e sensações, o mesmo já não se pode dizer, por exemplo, do caso do Museu do Aljube, que não o consegue fazer e, provavelmente, não está interessado em integrar-se no conceito de museu. Nota-se um esforço por “copiar” bons exemplos, tentando imitar “layouts” do Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos, de Santiago do Chile, como se pode ver na mini-exibição presente na estação do metro Baixa-Chiado, mas é esse esforço suficiente? No entanto, quem conhece bem o Museo de la Memoria y de los Derechos Humanos nota a reprodução e as incongruências: no caso chileno, vemos um guião claro desde o seu início – indica o que vai retratar, contextualiza o período – e conjuga o arquivo com objetos, mas… é possível fazer um museu sem objetos? E fazer um museu sem guião (museográfico)? Sente-se, em alternativa, que estamos num lugar ou sítio de memória? Existem casos, é certo, como o antigo Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, e o Museu dos Coches, em Lisboa, não obstante, ambos acabariam por minorar as suas falhas e, de certa forma, sempre foram conceptualmente entendidos enquanto museus… mas o que é um museu, como se define o Museu?

Last bust not least, dentro de dias, em Quioto, no Japão, será votada uma nova definição de Museu pelo International Council of Museums (ICOM) – a não ser que os pedidos por parte de vários comités surtam efeito e adiem a decisão – uma reunião que não estará ausente de polémica, pois a versão apresentada pouco tem a ver com as definições que gradualmente têm vindo a ser alteradas desde a transformadora definição de 1974: aliás a última definição de 2007 é praticamente a mesma em comparação com a de 2001, que apenas acrescentou o património imaterial como “objeto” de museu, seguindo as também paulatinas evoluções da UNESCO em relação à evolução do conceito de património. Aqui deixo a atual definição de museu do ICOM: O museu é uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite.

O certo é que Suay Aksoy, nova presidente do ICOM, quis criar algo marcante, transformador, para isso criou um novo comité, o Committee on Museum Definition, Prospects and Potentials  (MDPP) e “entregou-o” a Jette Sandhal; com esta “entrega” não se poderia esperar uma definição moderada, todos os que trabalhamos em museus deveríamos conhecer o percurso da dinamarquesa e sobretudo a sua militância, ainda assim, não se esperava uma definição tão politizada, sem ter em conta o comité “teórico” do ICOM, o ICOFOM, cujo diretor, François Mairesse, já colocou o seu lugar à disposição. Aqui deixo a nova definição de museu proposta: Os museus são espaços democratizadores, inclusivos e polifónicos para um diálogo crítico sobre os passados e os futuros. Reconhecendo e enfrentando os conflitos e desafios do presente, custodiam artefactos e espécimes para a sociedade, salvaguardam diversas memórias para as futuras gerações e garantem a igualdade de direitos e a igualdade de acesso ao património para todos os povos. Os museus não têm fins lucrativos. São participativos e transparentes, e trabalham em colaboração ativa com e para várias comunidades, a fim de colecionar, preservar, investigar, interpretar, expor e ampliar o entendimento do mundo, com o propósito de contribuir para a dignidade humana e a justiça social, para igualdade mundial e o bem-estar do planeta.

A nova definição tem frases de alguma beleza, como o início do segundo parágrafo, contudo, no geral, torna-se demasiado erudita (no conceito), pós-moderna (no discurso) e regionalista (não tem em conta a realidade dos museus a nível mundial); essencialmente, foge à linguagem dos museus e dos seus profissionais, apesar de defender a aproximação à sociedade, afasta-se dela pelo discurso… polifónico.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico