SEBASTIAO ALMEIDA
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SEBASTIAO ALMEIDA

Megafone

Jogos patologicamente sociais

Parte substantiva do financiamento do SNS provém de cautelas ou chaves do loto. Como na ambígua definição de jogo social, a ironia está lá, tão ténue, que quase nos poderia fugir: o jogo fomenta a saúde.

Quem disse que a duplicidade é inerentemente má? Está visto que não foram os proponentes dos jogos sociais: vício e beneficência, em simultâneo. A não ser que a ironia lhes tenha passado ao lado: acontece aos melhores, como Alanis Morrisette, cujo embaraço semântico em 1995 se tornou um êxito global. “It’s a free ride when you’ve already paid” (...) “isn’t it ironic? Don’t you think?” Não, não pensamos, Alanis. Pensamos é na taluda.

Para chegar a um quinhão dos royalties que Morissette embolsou com Ironic, supondo que nadamos nas águas tépidas da classe média, das duas uma: ou trabalhamos um século extra, ou nos calha o Euromilhões. Se os dois euros forem um investimento terminante, basta um para chegar à raspadinha; menos dez cêntimos e já acedemos ao Totoloto. São os chamados jogos sociais, em suporte físico e digital, cujo lucro se endereça ao Estado.

Foram estes passatempos que, relata a parangona do PÚBLICO de sexta-feira, “renderam 327 mil euros por dia” ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). O total anual? 120 milhões de euros, verba afecta ao Plano Nacional de Saúde (PNS) e derivada de um novo máximo de três mil milhões de euros, gastos pelos portugueses no jogo. Ou seja, parte substantiva do financiamento do SNS provém de cautelas ou chaves do loto.

Como na ambígua definição de jogo social, a ironia está lá, tão ténue, que quase nos poderia fugir: o jogo fomenta a saúde. Isto em Portugal, um país cuja adição a raspadinhas motivou em 2017 atenção científica; em entrevista ao i, o psiquiatra Nuno Rodrigues Silva ajuda a traçar o quadro. Um pequeno cartão anuncia-se apelativo e lucrativo, é pago com uma só moeda, é raspado e revela de imediato o destino do comprador. Por evidência empírica, mais frequente que ganhar o prémio máximo é perder o microscópico investimento ou recuperá-lo. No último caso, provavelmente reinveste-se e, provavelmente, sem sucesso. Quer-se crer na sorte, pelo que a perda é consolada com nova tentativa… ad infinitum.

No breve tempo em que se sorve um café, ou se miram as bancas da papelaria, visualiza-se o ciclo destes jogos. Sociais enquanto fonte de receitas públicas, mas não menos pela dimensão sociológica que encerram: o jogo passa de diversão a miragem numa nébula financeira, antes de se talhar obsessão, em minutos.

Adultos minam as suas carteiras na ânsia da distracção frenética. Munidos de moeda ou colher, ferem o látex superficial de cartões alusivos ao Mundial ou a répteis aleatórios. A bem dizer, estes são submundos à tona, abrilhantados pelo diálogo sorridente e aromatizados com borras de café, onde o lançamento de uma nova raspadinha é mais esperado, e talvez mais chorado, do que um novo álbum de Adele.

Este é um problema subvalorizado pela aparência, sem espaço de manobra. No mesmo artigo o i relembra que a rede nacional de postos de venda é inescapável, e que o reconhecimento do vício não pode ser travado com auto-exclusão do sistema. Retrocedendo aos benefícios sociais, poderíamos imaginar um fluxo do jogo para o SNS, para suportar o tratamento da adição. Contudo, partir do problema para a solução é impensável, até porque Portugal — onde 65.7% da população joga — não o reconhece como problema.

Apesar de afectar mais recursos ao SNS, o aumento dos gastos com jogos sociais é uma luz vermelha e deve acrescentar um ponto aos objectivos do PNS. Será o cariz social uma justificação para não intervir, ou será a permissividade apenas miopia? Se o jogo fomenta a saúde, não podemos criar condições para a saúde fomentar o jogo.