Viciados no jogo devem ser tratados tal como os consumidores de drogas

SICAD emite orientações sobre tratamento a dar aos dependentes do jogo, numa altura em que a Organização Mundial da Saúde vai incluir esta dependência na lista internacional de doenças.

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Os viciados no jogo podem não apresentar sintomas físicos, mas os efeitos desta dependência podem ser tão devastadores quanto o consumo de álcool ou drogas ilícitas. A procura da adrenalina associada ao jogo pode pôr em risco o emprego, as relações sociais e familiares, provocar isolamento e falta de disponibilidade afectiva. E, haja ou não dinheiro envolvido, os sintomas de privação são “geralmente idênticos ao reportado por indivíduos dependentes de substâncias, nomeadamente os observados na dependência de álcool”, devendo, portanto, estes dependentes ser tratados na rede pública como qualquer dependente de álcool ou de drogas ilícitas.

Depois de décadas marcadas por alguma complacência social relativamente ao jogo, as perturbações a ele associadas têm vindo a aumentar, o que levou o SICAD - Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências a publicar pela primeira vez um conjunto de orientações para os profissionais que intervêm nos comportamentos aditivos.

“É uma dependência ainda muito invisível e que estava muito ligada ao estigma das pessoas que tinham muito dinheiro e perderam fortunas no jogo. Tende a arrastar-se durante muito tempo, até porque geralmente só quando há uma grande perda financeira é que se dão rupturas, no casamento ou no emprego. Mas agora as pessoas começam finalmente a perceber que o jogo é um problema de saúde mental e a afluir mais aos tratamentos”, situa o psicólogo Pedro Hubert, cuja tese de doutoramento foi dedicada a traçar o perfil dos jogadores patológicos online e offline.

Esta maior sensibilização vê-se no facto de a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) se preparar para incluir a dependência do jogo na lista internacional de doenças. E correlaciona-se com as mudanças verificadas no perfil dos jogadores. “Há quinze ou dezassete anos, tínhamos o jogador de casino, das slot machines ou da roleta, e de há uns doze ou dez anos para cá começamos a receber muitos estudantes universitários com dependência de videojogos, nos quais já não se coloca a questão financeira mas os problemas associados ao isolamento social, às depressões e às perdas de rendimento”, acrescenta Hubert.

Numa altura em que em muitos dos videojogos “são incorporados elementos de aleatoriedade e manipulação do utilizador, cuja natureza é semelhante à de slot machines, jogos de mesa ou apostas”, conforme alerta o SICAD, o manual agora publicado propõe-se ajudar os profissionais especializados em comportamentos aditivos quanto ao modo como a problemática do jogo “é observada, compreendida, diagnosticada e tratada”.

E, de caminho, pôr fim a uma “certa vacuidade” quanto à sistematização dos modelos terapêuticos mais eficazes na abordagem a este conjunto de perturbações. Trata-se, afinal, de uma patologia aditiva que, ainda que sem substância, envolve os circuitos e as regiões cerebrais tipicamente envolvidos nos demais comportamentos aditivos e dependências.

“Também no jogo a deterioração psicossocial tende a agravar-se, não apenas nas situações de jogo a dinheiro como naquelas que, frequentemente, isolam o indivíduo da relação com o meio envolvente, como o caso do jogo online”, frisa o SICAD.

Quer se trate de jogo a dinheiro (o chamado gambling que envolve mecanismos de apostas, montantes financeiros, riscos e pagamentos a jogadores) ou do simples gamming (que não envolve dinheiro e procura a interacção com outros jogadores e a progressão para níveis mais elevados), o diagnóstico da perturbação do jogo, que pode não ser patológico, ocorre quando aquele “domina a vida do indivíduo em detrimento de valores e compromissos sociais, ocupacionais, materiais e familiares”.

No caso do jogo a dinheiro, é comum que “aqueles que sofrem desta perturbação ponham em risco o seu trabalho, contraiam grandes dívidas e mintam ou violem a lei para obter dinheiro e evitar o pagamento das suas dívidas”, acrescenta o documento, oferecendo pistas para ajudar os clínicos a estabelecerem um diagnóstico.

Apenas 135 procuraram tratamento na rede pública

Sem estudos específicos de caracterização dos problemas de jogo em Portugal, há, ainda assim, extrapolações que se podem tirar a partir dos poucos inquéritos que tocaram a problemática e que mostram que a prevalência do jogo a dinheiro em Portugal é de 65,7% da população portuguesa, se considerarmos os jogos sociais como raspadinhas, lotarias e afins. Além de mostrarem que há mais homens do que mulheres a jogar (73,9% versus 58,1%), os dados sugerem ainda a existência de “uma relação directa entre a prevalência da prática de jogos a dinheiro e consumos mais nocivos de álcool e de outras substâncias”.

Quanto aos adolescentes, 20% dos jovens portugueses utilizam a Internet para jogar de forma regular (pelo menos quatro vezes nos sete dias anteriores ao último inquérito, feito em 2015). O jogo online parece ser muito mais comum nos rapazes (39%) do que nas raparigas (5%). O jogo a dinheiro online “verifica-se em 2% dos jovens, com maior predominância nos rapazes".

Poucos procuram cuidados especializados. Na rede pública de intervenção nos comportamentos aditivos e dependências, o SICAD contabilizou 135 utentes que, a 31 de Dezembro de 2016, ali tinham sido levados por queixas relacionadas com o jogo. Na Europa, 23% dos jovens recorrem à Internet para jogar de forma regular, sendo que a proliferação do jogo no contexto remoto tem retirado os jogadores dos casinos ou bingos para a esfera doméstica.

No Reino Unido, concluiu-se que, no final de 2016, 38% dos jovens entre os 16 e os 24 anos tinham jogado nas quatro semanas anteriores ao inquérito, numa percentagem que aumentou para os 48% na faixa etária dos 25 e os 34 anos. Já em França, 48% dos indivíduos haviam jogado a dinheiro, dos quais 3,7% observavam critérios de “jogador problemático”. Destes, 1,2% enquadravam-se na categoria de jogadores de risco moderado.

Independentemente do contexto territorial, “o facto de muitos destes jovens jogarem online e no contexto habitacional releva para a importância do domínio preventivo”, acentua o SICAD, para aconselhar os profissionais a promoverem a protecção junto das famílias. Uma fraca monitorização parental do comportamento em pré-adolescentes entre os 11 e os 14 anos é potenciadora “do risco de problemas de jogo no final da adolescência/início da adultícia”, precisa aquela direcção-geral, num documento em que enumera as diversas teorias explicativas para o problema das adicções, que abarca das motivações biológicas ou vulnerabilidade genética aos factores de natureza psicossocial e ambiental.

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