Organismos gelatinosos: estão a aparecer mais em Portugal e a culpa pode ser do clima

GelAvista é o nome do programa de “ciência cidadã” para monitorizar os organismos gelatinosos na costa portuguesa. Desde 2016, já recebeu mais de 3750 registos e 2019 foi, até agora, o ano em que houve o maior número de avistamentos.

Uma caravela-portuguesa (Physalia physalis) numa praia em Portugal
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Caravela-portuguesa (Physalia physalis) numa praia em Portugal Paula Duarte/GelAvista

Ao longo dos últimos anos, a probabilidade de ir a uma praia portuguesa e dar de caras com um organismo gelatinoso é cada vez maior. São várias as espécies que dão à costa em Portugal, entre as quais a famosa caravela-portuguesa e outras alforrecas.

As medusas (também conhecidas como águas-vivas ou alforrecas) surgiram nos mares há pelo menos 600 milhões de anos. Deslocam-se ao sabor da corrente ou por vontade própria e as suas formas e cores, que se misturam com o azul do oceano e a ondulação do mar, fazem destas criaturas seres atractivos e fascinantes.

Mas não se deixe enganar: apesar da sua beleza, estes animais podem ser venenosos e já várias pessoas foram picadas este ano em Portugal. Noutros países como a Austrália ou o Japão chegam mesmo a existir espécies mortais, cuja picada pode causar paragens cardiorrespiratórias.

Para monitorizar os organismos gelatinosos, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) criou em 2016 o GelAvista, um programa com “uma grande componente de ciência cidadã” que incentiva as pessoas a enviarem dados sobre a presença dos animais nas praias portuguesas. “O nosso objectivo é obter informação científica, do ponto de vista da ecologia das espécies — nomeadamente a sua distribuição, abundância, em que locais ocorrem, se estão a aparecer novas espécies ou se são as mesmas que já conhecíamos”, explica ao PÚBLICO Antonina dos Santos, do Departamento do Mar e Recursos Marinhos do IPMA.

Aos cidadãos é-lhes solicitado que enviem informação sobre o local onde encontraram as espécies, assim como uma fotografia dos indivíduos e o número aproximado de exemplares encontrados. Tais dados permitem depois “determinar exactamente se as espécies são muito abundantes ou não naquele local ou naquela época do ano”, afirma Antonina dos Santos, observando-se “padrões de abundância e de distribuição” que são depois comparados “com dados físicos e ambientais do país e do mar”, como “a direcção e intensidade dos ventos, das correntes, a temperatura da água do mar e do ar e a salinidade”.

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Caravelas-portuguesas (Physalia physalis) Paula Duarte/GelAvista

Desde 2016, o GelAvista já recebeu mais de 3750 registos, dos quais 950 (cerca de 25% do total) foram registados este ano. Números que comprovam uma crescente abundância de organismos gelatinosos nas praias portuguesas — à semelhança do que tem acontecido noutros países como a Austrália, Estados Unidos, Irlanda do Norte, Itália e Noruega —, especialmente em 2019: “Este foi o ano em que ocorreu o maior número de avistamentos destas espécies até agora e ao longo da extensão da costa”, sublinha Antonina dos Santos.

Uma pequena aldeia flutuante

Embora seja frequentemente confundida com uma alforreca, a caravela-portuguesa (Physalia physalis) — cuja população tem aumentado exponencialmente nos últimos anos — não o é. Aliás, não é sequer um único animal. Pertence ao filo dos cnidários e é um organismo composto por quatro pólipos (ou zoóides) acoplados, entre os quais o pneumatóforo (um balão em forma de vesícula que lhe permite flutuar à superfície). O “balão” tem, regra geral, entre dez e 20 centímetros, mas os tentáculos da caravela-portuguesa podem atingir 20 metros de comprimento, sendo uma espécie “muito urticante”, cujo veneno causa queimaduras e pode provocar outros problemas de saúde caso haja uma reacção alérgica à picada.

Tal como a espécie Velella velella, a caravela-portuguesa é então uma colónia de organismos, pertencendo à ordem dos sifonóforos. “São constituídas por um conjunto de indivíduos com funções diferentes [por exemplo, de reprodução, captura de presas ou de defesa]. É uma pequena aldeia que flutua no mar”, compara Antonina dos Santos.

O trajecto destes animais é “muito influenciado” pelos ventos e correntes marítimas e essa poderá ser, aliás, uma das razões pelas quais têm vindo a aparecer em maior número. “Este Verão e todo o ano está muito diferente do ano passado e isso vê-se nas temperaturas e nos ventos que têm sido constantes”, afirma a especialista, relacionando o fenómeno com as alterações climáticas.

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Physalia physalis numa praia em Portugal Luís Bago D'Uva/GelAvista

Vinda do oceano Atlântico, a caravela-portuguesa entra no Mediterrâneo através do estreito de Gibraltar, podendo ser avistada no Sul de Espanha. No entanto, as espécies de organismos gelatinosos que “ocorrem em grandes números” no mar Mediterrâneo são outras como, por exemplo, a Pelagia noctiluca (que é bioluminescente), também comum nos Açores e na Madeira durante o Verão.

“As únicas espécies que, até agora, vimos em grandes volumes em Portugal são a caravela-portuguesa, a Velella velella [com cerca de seis centímetros] e a Catostylus tagi [cuja campânula pode atingir 60 centímetros de diâmetro] na zona próxima ao Tejo”, nota Antonina dos Santos. Na costa portuguesa também se encontram a Chrysaora, a Aurelia, a Rhizostoma luteum e salpas.

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Medusa Catostylus tagi Sofia Mooney/GelAvista

De efírias a medusas

Além de terem uma morfologia complexa, o próprio ciclo de reprodução destes organismos gelatinosos é bastante singular: “Há espécies que têm uns pólipos que estão fixos ao substrato [o fundo do mar] e que, em determinadas condições de temperatura e ambientais, vão colocar na água umas larvas pequeninas, as efírias, que depois vão crescer e formar as medusas”, explica Antonina dos Santos. Ao mesmo tempo, a maioria das espécies é capaz de se reproduzir de forma sexuada (já na fase de medusas), libertando os óvulos na água.

É também através do ciclo reprodutivo que os especialistas analisam a probabilidade de ocorrência destes organismos. Este ano, segundo a bióloga marinha do IPMA, a sua distribuição tem ocorrido um pouco “por todo o lado” em Portugal: “A única região que está mais ou menos livre é a Madeira, com ocorrências normais para a época.”

Embora admita que, na Madeira, o mês de Julho não foi particularmente significativo, como aconteceu nos Açores, Mafalda Freitas, directora da Estação de Biologia Marinha do Funchal — que colabora com o GelAvista desde 2017 —, garante ao PÚBLICO que aquele arquipélago não é excepção e que também ali se vindo a registar-se uma maior quantidade de espécies como a caravela-portuguesa e a Pelagia noctiluca. E se antes costumavam aparecer apenas nos meses de Verão de forma sazonal, estes organismos passaram a ser abundantes durante todo o ano. “Normalmente é quando o tempo está turvo, principalmente aqui na costa Sul da Madeira, as correntes arrastam-nas e elas acabam por dar à costa. Mas agora é um pouco por todo o lado, estão a aparecer durante mais tempo no ano e em maior número”, explica Mafalda Freitas.

Já nos Açores, à excepção do ano passado, tem-se verificado um aumento destas mesmas espécies nos últimos seis anos. “Sempre que existe uma zona da costa que está na direcção do vento, elas aparecem”, acrescenta Carla Dâmaso, presidente do Observatório do Mar dos Açores (OMA) — que se associou ao GelAvista no início deste Verão —, sublinhando que se têm registado “avistamentos enormes e em massa um bocadinho mais afastados da costa” e ao largo da ilha das Flores.

Em território continental, estes invertebrados têm aparecido “desde o Norte até ao Algarve e junto ao Guadiana”. Antonina dos Santos destaca um pico de abundância nos Açores e em Portugal continental durante o mês de Julho, com avistamentos de mais de mil indivíduos. Porém, a especialista do IPMA acredita que este fenómeno terá tendência a diminuir nos próximos meses. Os dados relativos a Agosto mostram que “apesar de ainda aparecerem algumas ocorrências, estão a ser cada vez em menor número e em menos locais”. Além disso, “a espécie já se reproduziu e portanto agora o ciclo de vida há-de continuar”.

No entanto, Antonina dos Santos lembra que “com as alterações climáticas estes organismos podem [continuar] aparecer em maior quantidade”. Uma hipótese com a qual concorda Mafalda Freitas, que associa a abundância de organismos gelatinosos a factores como as alterações climáticas (e consequente subida da temperatura da água e alteração das correntes marítimas), a degradação da costa, a diminuição dos stocks de peixes seus predadores (como o atum e peixe-espada) e a poluição dos oceanos — fenómenos aos quais estes seres, de aspecto aparentemente frágil, se têm mostrado bastante resistentes, especialmente por conseguirem sobreviver em ambientes com baixos níveis de oxigénio.

Bandeira para alertar banhistas 

Caso haja muitos organismos gelatinosos nas praias, os nadadores-salvadores devem içar a bandeira vermelha. Nos Açores, todas as praias vigiadas têm já uma bandeira específica — amarela ou vermelha, dependendo da quantidade — para alertar para a presença destes animais na água.

No entanto, mesmo no areal estes seres continuam a ser perigosos, uma vez que a forma como libertam o veneno é um movimento mecânico por contacto” e as células urticantes mantêm-se activas depois de mortos. Antonina dos Santos lembra que, por serem transparentes e gelatinosos, estes animais são “muitas vezes negligenciados”. Embora só os tentáculos (onde se encontram as células urticantes, ou cnidócitos) libertem veneno, a especialista alerta que “às vezes podemos não ver o tentáculo que pode estar a cobrir o pneumatóforo”. 

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Velella velella André Mantas/GelAvista

A primeira coisa a fazer após uma picada é limpar com água salgada, sem esfregar, o mais rapidamente possível a zona afectada para tirar o veneno do organismo e remover os tentáculos com a ajuda de um cartão de plástico. “Na picada da caravela-portuguesa e da Velella velella poderá utilizar-se vinagre e compressas de água quente. No caso de uma água-viva (Pelagia noctiluca) ou de uma Chrysaora ou outro tipo de medusa já se pode utilizar uma solução de bicarbonato de sódio e bandas de gelo.”

Com tanto de fascinante como, por vezes, de perigosos, certo é que os organismos gelatinosos, mais do que simplesmente vaguear ao sabor da corrente, desempenham um papel importante no ecossistema. Importa agora, resume Carla Dâmaso, sensibilizar os cidadãos para os cuidados a ter, mas também desmistificar e elucidar sobre “as especificidades e características destes organismos incríveis”.

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