A morte multiplica-se em favela do Rio de Janeiro

Nos primeiros seis meses deste ano já morreram 27 pessoas em operações policiais no Complexo da Maré, mais do que em todo o ano de 2018.

Funeral de um adolescente baleado durante uma operação policial no Complexo da Maré
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Funeral de um adolescente baleado durante uma operação policial no Complexo da Maré Agência Brasil/Fernando Frazão

O Complexo da Maré, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, registou mais mortes por conflitos armados no primeiro semestre de 2019 do que em todo o ano passado, informou na segunda-feira uma organização não-governamental (ONG) brasileira.

De acordo com a ONG Redes da Maré, que analisou dados das 16 favelas daquele bairro do Rio de Janeiro, só nos primeiros seis meses do ano registaram-se 27 mortes em conflitos armados, sendo que mais de metade (15) foram na presença de operações policiais.

Os dados, publicados no boletim “Direito à Segurança Pública na Maré”, revelam que também o número de acções policiais no primeiro semestre deste ano é superior ao registado em todo o ano de 2018, foram 16 em todo o ano passado, já vai em 21 este ano.

A falta de atendimento de profissionais de saúde durante as intervenções policiais no Complexo da Maré e o uso de helicópteros durante as acções são dois dos maiores problemas identificados pela ONG.

“Dessas 21 operações policiais nos primeiros 180 dias de 2019, oito ocorreram em acções conjuntas com o uso de helicóptero. Os números também comprovam a tese de que as acções com uso de helicópteros resultam em mais letalidade: foram sete mortes em 2018 e 14 este ano em operações policiais com uso conjunto dos helicópteros”, aponta o estudo.

Ainda de acordo com a Redes da Maré, a estratégia do uso do helicóptero tem sido a de produzir um cerco aos membros dos grupos armados, para que estes não tenham hipóteses de fugir, levando a que sejam “encurralados” dentro das casas de moradores da Maré.

“Isso tem produzido uma série de arbitrariedades por parte dos agentes da polícia — que vão da tortura psicológica e física a execuções sumárias”, alerta o boletim.

A ONG afirma que o aumento de violência registado nos primeiros seis meses de 2019 pode ser explicada pelas acções dos Governos, quer do Federal quer do Estadual.

“O ano de 2019 tem tido uma acentuada escalada de violência. Isso pode ser explicado, entre outras coisas, pelo facto de os representantes dos Governos federal e estadual adoptarem nos seus discursos e práticas a defesa do uso da violência letal como principal estratégia de resolução dos problemas da segurança pública no Rio de Janeiro”, acrescenta o documento.

Desde que assumiu o cargo em Janeiro, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, alinhado com a política de segurança do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, adoptou uma forte retórica de combate ao crime, baseada no uso da violência.

Após a entrada de Witzel no poder estadual, o número de pessoas mortas pela polícia aumentou significativamente em comparação com anos anteriores.

Nos primeiros cinco meses do seu mandato, 731 pessoas morreram em operações policiais, um aumento de 19,1% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com os últimos dados oficiais.

Witzel já tinha causado polémica logo após a sua eleição, quando anunciou que usaria atiradores de elite para abater qualquer suspeito armado.

Em Maio, um vídeo de Witzel a bordo de um helicóptero da polícia, enquanto os agentes disparavam sobre uma favela, gerou controvérsia.

O Complexo da Maré é o nono bairro mais populoso da cidade do Rio de Janeiro, abrangendo 16 comunidades e uma população de aproximadamente 130 mil pessoas.