Aeroporto de Hong Kong cancela maioria das partidas por causa de protestos

Há quatro dias que milhares de pessoas ocupam um dos terminais do aeroporto, em protesto contra o executivo local e a violência policial. Pelo menos 180 voos foram afectados.

O mar de gente que ocupou o aeroporto de Hong Kong
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O mar de gente que ocupou o aeroporto de Hong Kong Reuters/THOMAS PETER
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O aeroporto de Hong Kong cancelou a maioria dos voos desta segunda-feira por causa dos manifestantes que há quatro dias ocupam um dos terminais.

Perto das 17h (10h em Portugal continental), as autoridades aeroportuárias decidiram cancelar todos os voos de saída cujo check-in ainda não se tivesse iniciado. Os voos com destino a Hong Kong que ainda não estivessem a caminho também foram suspensos ou desviados para outros locais. O último voo a aterrar é proveniente de Sydney e tinha chegada marcada para as 17h31, hora local. Pelo menos 180 voos foram afectados, incluindo algumas chegadas.

Nas imediações do aeroporto, o cenário é caótico. Os transportes públicos estiveram lotados durante todo o dia, e há engarrafamentos nas estradas mais próximas, diz o South China Morning Post. As autoridades do aeroporto aconselharam todos os passageiros com voos cancelados a abandonarem as instalações. Os responsáveis prevêem que o aeroporto recomece a operar a partir das 6h de terça-feira (23h de segunda-feira), no entanto, foi dado um aviso aos passageiros para não se deslocarem ao local caso não recebam uma confirmação de que o voo será realizado.

No terminal, os manifestantes, de T-shirts negras de cara tapada, gritavam slogans como “Hong Kong não é segura” ou “Polícia vergonhosa”. Algumas pessoas levavam palas no olho, em referência a uma mulher que na véspera fora atingida na cara por um projéctil disparado pela polícia.

As acusações de violência policial parecem ter reforçado o apoio aos protestos. “Depois de ver como os manifestantes foram detidos e feridos, pensei que tinha de vir”, disse ao South China Morning Post uma professora de 29 anos que se identificou apenas como Chan.

Violência policial

A ocupação daquele que é um dos aeroportos mais usados em todo o mundo – em 2018, cerca de 75 milhões de passageiros passaram por ali – acontece ao fim de dez semanas consecutivas de protestos antigovernamentais em Hong Kong. Inicialmente, as manifestações foram motivadas pela intenção do executivo local em aprovar uma lei que iria permitir a extradição de suspeitos de crimes para a China, e que uma parte significativa da população encara como mais uma forma de interferência de Pequim em assuntos internos do território.

Apesar de a medida ter sido posta de lado pelas autoridades locais, as manifestações continuaram e adquiriram uma motivação mais abrangente, como um protesto contra o que dizem ser a asfixia democrática feita pela China sobre Hong Kong, e também contra a brutalidade policial. No domingo, a polícia voltou a recorrer a gás lacrimogéneo para dispersar uma manifestação no centro da cidade.

O director da Amnistia Internacional em Hong Kong, Man-Kei Tam, disse, citado pelo Guardian, que os confrontos durante as manifestações “subiram para um novo nível, especialmente do lado da polícia”.

A Cathay Pacific, companhia aérea de Hong Kong, avisou os seus funcionários de que poderiam ser despedidos caso “apoiem ou participem em protestos ilegais”.

Os manifestantes exigem a demissão da chefe executiva, Carrie Lam, que acusam de estar apenas a defender os interesses do Partido Comunista Chinês, querem o cancelamento definitivo do processo de aprovação da lei sobre a extradição, e a aplicação de uma amnistia às pessoas detidas durante os protestos.

A China comparou a acção dos manifestantes no aeroporto a actos de “terrorismo”, embora o tom dos protestos tenha sido maioritariamente pacífico. “Manifestantes radicais usaram armas perigosas para atacar as forças [policiais], e isto já constitui um crime grave, bem como um sinal de terrorismo”, disse o porta-voz do Gabinete para Assuntos de Hong Kong e Macau do Governo chinês, Yang Guang. 

Os protestos deste Verão em Hong Kong representam a mais séria crise de legitimidade das autoridades chinesas no território que passou para a sua administração em 1997, depois da época colonial britânica. Uma parte significativa da sociedade considera que a China tem restringido cada vez mais os direitos e garantias democráticas asseguradas pela Lei Básica, a mini-Constituição que permite ao território manter um sistema político diferente do da China continental.

A resposta das autoridades chinesas é, neste momento, a principal interrogação. Os manifestantes receiam que Pequim dê ordens ao Exército para intervir directamente no território, algo que não foi totalmente excluído pelo Governo. A Polícia Armada do Povo, uma unidade paramilitar do Governo chinês usada para segurança interna e acções antiterrorismo, está a fazer exercícios em Shenzhen, uma cidade muito próxima de Hong Kong.